Reunião de Inverno da direcção do CIDOC – Porto

Reunião de Inverno da direcção do CIDOC – Porto

Nos próximos dias 7,8 e 9 de Fevereiro a direcção do CIDOC realizará a sua reunião de inverno na Faculdade de Letras da Universidade do Porto que muito amavelmente respondeu positivamente ao pedido que fiz para nos receber, tal como seria de esperar, numa instituição que este ano comemora 25 anos do seu curso de museologia (e 100 anos de existência já agora), sendo responsável pela formação de muitos profissionais de museus e, especificamente, na área de documentação e gestão de colecções.

Esta reunião de trabalho anual tem como objectivo a realização de um conjunto de tarefas administrativas, organizacionais e de gestão do comité que se torna mais eficiente porque conta com a presença de grande parte dos membros da direcção e dos responsáveis pelos grupos de trabalho activos do CIDOC.

O CIDOC, como penso saberão, é o Comité Internacional para a Documentação do ICOM (herda a sigla do francês) e tem como objectivo definir e promover um conjunto de recomendações, normas e boas práticas no âmbito da documentação, gestão e divulgação das colecções museológicas. É um dos comités internacionais mais antigos do ICOM, tendo sido fundado em 1950, e conta com uma comunidade de membros, espalhados por todos os continentes, que reúnem em si um conjunto de competências técnicas nas diferentes áreas de especialização da gestão e documentação das colecções.

Nesta reunião do Porto, a par das tarefas normais de organização do trabalho deste comité, como a publicação das comunicações da última conferência, a organização da próxima, do trabalho rotineiro de apresentação e discussão dos relatórios dos grupos de trabalho, entre outras tarefas, teremos uma parte substancial da reunião dedicada à visão estratégica do CIDOC para os próximos 10 anos.

O CIDOC é o comité que escolhi já há muitos anos para trabalhar dentro do ICOM, como todos os comités internacionais do ICOM, tem pontos fortes e pontos fracos, que podem e devem ser debatidos e melhorados, tendo em vista uma resposta mais capaz e eficiente às questões que os seus membros e a comunidade museológica enfrentam no dia-a-dia do trabalho árdulo e inesgotável que é a documentação em museus. Por isso, é como grande satisfação que conseguimos ter em Portugal a direcção do CIDOC a discutir a visão estratégica de um comité internacional que será depois apresentada à votação na próxima assembleia magna do comité na conferência trienal do ICOM em Kyoto. Aliás, mais do que a discutir em Portugal, é para mim uma grande honra e responsabilidade participar nesta discussão e contribuir, com base na experiência de trabalho com um conjunto significativo de museus portugueses, para melhorar o trabalho e resposta do CIDOC às crescentes exigências técnicas, tecnológicas e políticas dos museus e dos seus profissionais no campo da gestão, documentação e divulgação das colecções.

Após a reunião, darei nota aqui sobre os pontos principais da discussão e as linhas mestras do que será a visão estratégica do CIDOC para a próxima década. Entretanto, estejam à vontade para sugerir pontos a discutir ou preocupações que gostassem que o CIDOC reflectisse sobre neste contexto.

Importa, por último salientar, todo o apoio que o ICOM Portugal deu, no seguimento do esforço que tem vindo a levar a cabo para a participação dos seus membros nos comités internacionais, para a concretização da realização deste evento em Portugal.

Diz que disse e desdisse

Diz que disse e desdisse

Ora deixa cá ver. Desde que trabalho em/para Museus, já lá vão uns 20 anos, já tivemos IPPC, IPM, IMC e recentemente DGPC. Nas andanças do património cultural é necessário acrescentar o IPPAR, o IGESPAR, o IPA e julgo que um outro para o património subaquático, mas desculpem-me por não recordar o nome. Além destes institutos ainda tivemos, e o utilizar o passado não é engano, a Rede Portuguesa de Museus (RPM) como um organismo do Estado que certificava os museus. No mesmo tempo, para o caso Inglês (e poderei estar enganado, mas por favor corrijam-me) tivemos o Museum, Libraries and Archives Council e temos agora o Arts Council (desde há uns três anos, segundo me recordo).

Não querendo fazer qualquer tipo de comparação com a realidade inglesa, que sei ser bem distante da nossa, a minha questão é a seguinte: quando é que nos decidimos a parar com ideias de reformas administrativas e pensamos seriamente numa política e estratégia para o sector público dos museus portugueses?

Ministro da Cultura

A questão é antiga e já foi colocada inúmeras vezes por diversos colegas. Recordo um texto mais recente do Luís Raposo sobre esta questão, mas podem consultar outros que ele escreveu aqui, ou então ler o da Isabel Roque aqui. No entanto, continuamos a ter anúncios como o que fez Luís Filipe Castro Mendes no Parlamento no passado dia 7 em que se anuncia um novo Instituto de Museus e Monumentos (IMM), desmentido, ou pelo menos adiado, pelo próprio nos dias seguintes, conforme noticia Lucinda Canelas no Público de dia 9, que demonstram, na minha opinião, uma navegação à vista que tem que ser criticada pelos profissionais de museus de forma aberta e franca.

A situação nos museus é péssima. Sentimos, desde há alguns anos, a ausência de recursos humanos e financeiros que possam colocar os museus nos mínimos aceitáveis para um país que se diz e quer evoluído. Mantemos um projecto importante como a RPM num estado vegetativo que não se compreende. Andamos a promover o nosso património e os museus como elementos chave para a promoção turística do país, mas na realidade não temos tratado uns e outros como activos importantes para aquele sector (e este ano, apesar do aumento orçamental, continuamos a arranjar formas de sonegar a realidade). Além disso somos brindados com notícias sobre o espartilhamento da coleção do Museu da Música, que será dividida por dois espaços, um em Lisboa e outro em Mafra, com o fraco argumento de uma suposta descentralização/desconcentração dos espaços culturais (como se entre Lisboa e Mafra se resolvesse a questão da ausência de museus nacionais) e da despesa da deslocação de toda a coleção para Mafra.

Este governo e os partidos que o apoiam tinham como obrigação (ver programa do Governo) tratar bem melhor o sector, mas sinceramente quem é que ainda acredita num programa de governo, não é? É um diz que disse e desdisse em continuidade.

Aprender com os Alemães!?

Aprender com os Alemães!?

Acabo de ler um interessante artigo do Pacheco Pereira no Público sobre políticas de colecções, mais especificamente sobre o desenvolvimento das colecções públicas (leia-se de um museu público) que representarão, a médio e longo prazo, o momento social e político vivido em Portugal nos últimos anos.

A propósito de duas exposições (uma sobre a RAF e outra sobre como “ensinar as crianças a protestarem e a reivindicar pelas causas em que acreditam, e sobre os direitos que protegem esse protesto.”), com um discurso bem interessante e interessado, dado que é um coleccionador de materiais semelhantes aos que figuram nas iniciativas do museu alemão, Pacheco Pereira pergunta (em palavras minhas, claro): porque não aprendemos com os Alemães a guardar a evidência material da nossa história actual? Porque é que as nossas instituições não guardam os materiais que se produzem actualmente e serão(?), no futuro, uma amostra dos nossos tempos?

Coloquem-se os meus amigos na posição, de resto bem interessante, que cita Pacheco Pereira no seu texto. Daqui a 20 ou 30 anos quando quisermos fazer uma exposição sobre os tempos da “Troika” em Portugal, temos “… sem dúvida milhares de fotos, mas [teremos] os panfletos distribuídos e os cartazes?” Os que se relacionam, como refere Pacheco Pereira, às manifestações que ocorreram nos últimos anos? Que outros objectos poderíamos querer nessa altura? Bilhetes de avião, malas e e-mails de emigrantes? Umas conversas entre mãe e filho pelo Skype? E a arte que se produz nestes tempos de crise? Que obras devemos guardar? Quais serão as mais representativas? Se tivessem de fazer essa exposição agora qual(is) o(s) objecto(s) que não dispensariam? Qual o objeto que melhor representa a crise dos últimos anos para vocês?

Alguém é capaz de responder com uma certeza firme? Convicto que será mesmo esse o objecto? A mala de cartão representa melhor a emigração dos anos 60 e 70 do que qualquer outro objecto? Uma G3 representa melhor o nosso exército do que a espada de Afonse Henriques? E se sim, porque escolhemos uns objectos em detrimento de outros?

Imagino que não se possa ou queira guardar tudo!

No artigo Pacheco Pereira menciona o exemplo de vários museus alemães, com base nas exposições citadas, indicando-os como cumpridores de uma “tarefa de preservação da memória colectiva mais contemporânea” algo que ainda segundo o autor é “muito desprezado no Portugal de hoje”. Até poderia concordar com a afirmação, mas, no entanto, questiono primeiro se terão sido os museus alemães a guardar aquele material (até podem ter sido, mas ainda assim pergunto) ou se, por outro lado, não terão sido pessoas como Pacheco Pereira a fazê-lo, entregando-os depois aos museus. Em segundo lugar questiono qual a política de desenvolvimento de colecções que deveríamos ter (ou se deveríamos ter uma sequer) para guardar a evidência material dos nossos dias para os que nos seguirão. Será que os museus alemães têm instituído uma política para guardar a memória da sociedade alemã actual?

Eu julgo que mais do que guardar estas evidências, poderíamos aprender com os alemães (já agora com os ingleses também) alguma coisa sobre discutir alguns assuntos controversos de forma mais distanciada (veja-se o exemplo da exposição da RAF, comparativamente à discussão acessa sobre o possível Museu Salazar em Santa Comba Dão – aqui e aqui, por exemplo). A forma como daqui a 20 ou 30 anos se exporá o tempo que vivemos, eu, que sou um verdadeiro optimista, deixaria ao cuidado de quem tiver essa responsabilidade na altura.

Autor desconhecido, s/ título, algures em algum lado nos meados do século XIX

Autor desconhecido, s/ título, algures em algum lado nos meados do século XIX

Recorrentemente voltamos às questões da comunicação dos Museus (sobre as colecções) com as suas audiências. Seja a comunicação dentro de portas,  seja a comunicação com o exterior, física ou virtual (certamente teremos em breve de rever um pouco estes conceitos), o Museu tem assumido, fruto de diversas circunstâncias, o papel de replicador das disciplinas que sustentam a investigação sobre as suas colecções (arte, história, zoologia, botânica, etc.) na forma e conteúdo utilizados para a comunicação das colecções.

É um tema que tem suscitado, ainda que por motivos diferentes, textos muito interessantes da Maria Isabel Roque (aqui e aqui) e da Maria Vlachou (aproveito para destacar este a propósito do livro com as conversas entre Martin Gayford e Philippe de Montebello) e que me é particularmente caro, porque frequentemente estou nos dois lados da barricada: o de quem prepara a documentação sobre as colecções (que deveria sustentar a sua comunicação) e o de quem vai ao museu e procura conhecimento, admiração, reflexão, supresa, etc.

Esta dupla perspectiva é, devo assumir, uma chatice para quem me acompanha. Passo a explicar. Cada vez que visito um museu e vejo informação sobre as colecções, em folhetos, tabelas, etiquetas, folhas de sala, meios multimédia, aplicações, ou outro qualquer meio, o meu primeiro pensamento vai para as circunstâncias da criação, organização e publicação da informação que tenho disponível. Imaginam vocês o que acontece a quem vai a meu lado, quando começo a falar sobre a dificuldade que existe na sistematização dos dados nos museus, a qual é possível identificar, quase sempre, comparando informação básica, por exemplo medidas, ou datas, de dois objectos colocados numa mesma sala. Sim é isso mesmo… um sonoro bocejo!

Quando me apercebo do bocejar da companhia, o que acontece normalmente logo a seguir, tento desligar-me da “visão deturpada” pelos interesses profissionais e académicos (acreditem que é complicado) e procuro contexto, ou seja, e como bem diz a Maria Vlachou, estou “… à procura de algo que possa ter significado para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo”. Procuro retomar o momento em que vi, pela primeira vez, uma pedra lunar na exposição “A Aventura Humana” (apresentada, em 1988, no Museu Nacional de Etnologia) e pensei, na inconsciência própria da idade, “se conseguimos ir à lua, conseguiremos fazer tudo! Isto só tem como correr bem daqui para a frente!”

Devo dizer, antes de mais, que nem tudo depende da informação que o Museu dá a quem o frequenta. Não tenho a certeza se aquela pedra lunar teria mais alguma explicação para além do seu nome e proveniência (se bem me recordo tinha também informação sobre o seu proprietário), mas o projecto da exploração lunar  e as séries e filmes de ficção científica (Espaço 1999, Galactica, Guerra das Estrelas, etc.) exerciam, nos anos 80, um fascínio brutal sobre a nossa imaginação e aquela pedra aproximou-me do meu sonho de me tornar num explorador do espaço ou de ser o primeiro espinhense a cursar a academia dos Jedi. No entanto, quantas vezes é que este tipo de situações acontece? Quantas outras não ficamos desiludidos perante um objecto, por não termos o conhecimento, informação, contexto (ou até imaginação) necessários para nos maravilharmos?

Pode o Museu ficar descansado quanto a esta questão?

A resposta é óbvia. Não pode! Mas não é verdade que parece estar descansado? Não continuamos a ver, salvo muito honrosas e boas excepções, um conjunto de informação que não é muito mais do que autor, data de execução, técnicas, dimensões e origem? Não faz muito tempo que visitei uma exposição de um autor que me era (ainda é) completamente desconhecido, mas em nenhum local na exposição encontrei sequer a uma referência sobre a vida (reparem que não disse apenas percurso artístico, disse vida) daquela pessoa e em cada objecto que a exposição me mostrava (impecavelmente exposto), não tinha mais do que técnica, data e título (muitas vezes s/ título). Esteticamente foi um exercício agradável, mas não me fez pensar em mais nada, não acrescentou em mim nada sobre o autor ou sobre a sua obra, não me cativou a procurar mais. Se me tivessem dado um pouco de contexto sobre o autor e a obra (preferindo eu factos em vez de uma avaliação subjectiva da sua obra e vida, devo confessar), não seria mais fácil a aproximação pretendida com a exposição pública dos objectos? Eu, e pelo que li, a Maria Isabel Roque e a Maria Vlachou, concordamos que sim, no entanto, a(s) forma(s) utilizada(s) pelo Museu para o fazer é que são o verdadeiro desafio.

Desde logo, reafirmando as palavras da Maria Isabel Roque, julgo que “… urge uma reflexão crítica e teoricamente fundamentada acerca da informação pertinente e adequada, bem como acerca do papel inevitável dos recursos da informação digital, dentro e fora do espaço museológico” e acrescento que esta reflexão crítica terá que ser acompanhada com uma mudança urgente da prática e das políticas ou estratégias que a sustentam. Deixo então alguns pontos que poderiam, na minha opinião, contribuir para essa mudança:

  • Definir e implementar políticas que coloquem o inventário, catalogação, estudo e gestão de colecções como prioridade para os museus (não querendo com isto dizer que se neglicencie o restante, mas não se fazem omeletes sem ovos! Não se comunica bem aquilo que se desconhece ou conhece pela rama*);
  • Fazer com que essas políticas permitam implementar planos de documentação em que a normalização de processos, estruturas e terminologias possa contribuir para a disseminação real do conhecimento das colecções;
  • Fazer estudos de públicos centrados na expectativa e não na experiência, ou seja, procurar o que pretendem os públicos e não aquilo que eles sentem relativamente à sua visita a determinado museu ou colecção;
  • Definir um modelo de documentação de colecções centrado no conceito COPE (Create Once, Publish Everywhere) que permitiria, entre outras questões, a optimização dos recursos despendidos no processo;
  • Abraçar novas ferramentas como o “Storytelling“, por exemplo, na planificação da utilização e exposição das colecções (e pensar nelas nos processos de documentação e gestão de colecções também dava jeito, já agora);
  • Olhar, seriamente, para aquilo que é o poder da Rede Social que temos à nossa frente (ou no bolso) e utilizar, sem constrangimentos (a não ser os éticos, claro), esse poder em benefício da construção desta nova prática.

Que vos parece?

 

* Uma nota para recordar o elevado número de colecções que não estão convenientemente documentadas em Portugal (e não só).

© Imagem: Wikipedia

100 anos de Presidentes e poucos anos de verdadeira democracia

100 anos de Presidentes e poucos anos de verdadeira democracia

Eu sou um orgulhoso português. Gosto do meu país. Não me envergonho, antes pelo contrário, da sua História. À luz dos meus olhos e das circunstâncias em que vivo actualmente, ou seja daquilo que sou e conheço, sou crítico em relação a momentos específicos da nossa História, mas tenho a consciência que as minhas críticas, oposição se quiserem, são sustentadas pelo distanciamento que tenho de muitos desses momentos/factos.

Sendo crítico e não gostando de determinados momentos ou circunstâncias da nossa História enquanto Nação, não me parece justo ou até mesmo inteligente que a minha visão da História (porque é de uma visão parcial apenas que falamos) me dê o direito de os/as esconder. É simples! E passo a explicar.

Ao que parece preparava-se a Assembleia da República para inaugurar uma exposição, proposta pela Câmara Municipal de Barcelos, de bustos de Presidentes da República Portuguesa, em barro negro (daí a proposta de Barcelos, certamente), em que figuravam, segundo percebi pelo que li no Expresso online, os bustos de todos os Presidentes da República desde a implantação da mesma em 1910. Nessa exposição estava/está contemplada a inclusão de bustos dos Presidentes da República António Óscar Carmona, Américo Tomás e Craveiro Lopes.

Até aqui nada de mais, imagino eu, certo? Não… completamente errado. PCP (Partido Comunista Português) e BE (Bloco de Esquerda), partidos que participaram, a acreditar na ata da reunião e na notícia do Expresso que li, na reunião da Comissão de Educação onde a realização da mesma foi discutida, vêm agora dizer que a exposição (recordo que contém os bustos dos Presidentes da República Portuguesa) vai contra “a defesa da democracia” e que esta “não é compatível com o branqueamento do fascismo e dos seus responsáveis políticos” (João Oliveira, Líder Parlamentar do PCP) e, nas palavras de Pedro Filipe Soares do BE os presidentes “do fascismo” não podem estar “no mesmo patamar que os Presidentes eleitos democraticamente”.

Eu coloco-me, nesta discussão, completamente fora do debate político parlamentar ou do argumentário a que normalmente assistimos no âmbito dos Partidos políticos (reparem que ainda uso as maiúsculas para algumas palavras que me ensinaram ser importantes para a democracia), mas não posso deixar em claro aquilo que é um atropelo claro à História. O que estes dois partidos pretendiam fazer era “esconder” da exposição uma parte relevante da nossa História (a nossa História não foi sempre em democracia, certo?) e fazendo-o, ainda que inadvertidamente (embora não me acredite que assim seja), impedem que todos os seus visitantes se possam interessar por conhecer a vida daquelas pessoas e saber as razões/circunstâncias/condições da sua participação no regime ditatorial em que Portugal viveu durante parte considerável do Século XX. Li também um argumento ridículo em que se mencionava a não utilização dos bustos de Hitler ou Mussolini em exposições na Alemanha e na Itália e perguntei a mim mesmo, se esta vontade enorme que alguns têm de esconder os horrores da História (maiores ou menores), não permitirá, a médio prazo, que novos horrores se estabeleçam sem que estas pessoas se apercebam.

Expor um busto de um ex-Presidente da República não pode ser visto como um acto político de glorificação. A Assembleia da República ao aceitar (e bem na minha opinião) receber esta exposição não está a condecorar ninguém pelos seus extraordinários feitos. Está sim, e muito bem uma vez mais, a dar a conhecer a História de Portugal e da sua República (que é já centenária e se bem me recordo com uma centena de anos bem comemorados no Palácio de São Bento). A História é muitas vezes usada para fins políticos, mas 40 anos depois do 25 de Abril já deviam ter chegado para vivermos melhor com o nosso passado, não vos parece? E há diversos (e bons) historiadores portugueses que já publicaram bons trabalhos sobre o tema que os senhores deputados (todos) podiam fazer o favor de ler.

No que me diz respeito preferia duas mil vezes explicar ao meu filho quem eram os presidentes em causa, do que lhe justificar o espaço em branco na exposição. E vocês? Que preferiam?

© Imagem: DANIEL ROCHA – Público

Da dificuldade das conjunções

Da dificuldade das conjunções

“Felizmente, eu nunca fui convidado para ocupar cargos de direcção e isso significa que fui sempre livre de dizer o que penso.” Felizmente? Isto não é profundamente preocupante?

As preocupações e questões levantadas neste muito interessante post do Musing on Culture deviam fazer-nos (entenda-se os profissionais de museus) reflectir seriamente sobre o assunto. Sendo eu um fã assumido da cultura anglo-saxónica, no que diz respeito à organização do sector cultural e à forma como os indivíduos entendem a sua relação com as instituições. Do que conheço dessa realidade, o indivíduo (para o bem e para o mal) tende a não se fundir com as instituições e mantém, na maior parte dos casos, a sua voz. Isto é, como a Maria bem afirma, uma situação difícil de gerir. Entre as discordâncias que podem ser públicas e o que deve ser salvaguardado nos limites internos de uma organização não é, muitas vezes, fácil decidir.

A frase que destaco acima diz muito da forma como encaramos um cargo directivo ou como culturalmente funcionamos na relação entre instituição e indivíduo. Quando convidados/seleccionados/ganhamos um cargo de direcção a nossa voz (há boas e honrosas excepções) tende a confundir-se com a da instituição e cumprimos à risca aquilo a que alguém chamou a “lealdade institucional”!

Mas porque o fazemos? Medo de perder uma oportunidade de carreira num mercado curto? Acomodação? Porque temos uma cultura organizacional que promove essa situação? Não deveria ser diferente? Não se devia promover, logo no topo, uma cultura que premiasse a liderança? Não deveria um director de uma instituição poder ter um projecto para a mesma, aprovado pela tutela, saber desde logo os recursos que teria para o executar e ser avaliado (principalmente de forma qualitativa) no final do mesmo? Durante a execução desse projecto não deveria ter a autonomia necessária para o defender e executar? Não deveria ver a sua intransigência em questões técnicas ou de princípio sempre apoiadas?

São questões difíceis. Não se resolvem com sim ou não. Há a necessidade de diálogo, de estabelecer compromissos entre as diversas partes, de todos perceberem que defendem/dirigem um bem comum e trabalham para servir a sociedade, mas também há a liberdade de cada um. Liberdade de expressão em qualquer momento, em qualquer circunstância, restringida apenas pelo reconhecimento da liberdade do seu próximo.

Obrigado Maria pela reflexão!

© Imagem: The Guardian