Futebol e Arte – Jesus e Paula Rêgo

Futebol e Arte – Jesus e Paula Rêgo

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Muito haveria a dizer sobre estas declarações (sábias) de Jorge Jesus, mas fico-me pela engraçada comparação do conhecimento necessário para preparar uma equipa de futebol, com a capacidade de compreender e interpretar o que está por trás de uma obra de arte, mesmo que a mesma seja uma Maria a chorar das inspiradas mãos da Paula Rêgo.

Será que temos a capacidade e instrumentos para ser treinadores de bancada? Será que, da mesma forma, os museus nos dão os instrumentos necessários para compreender as suas coleções?

Jorge Jesus, de forma simples mas sábia, introduz um tema que deveria ser mais discutido nos museus, não vos parece?

PS: obrigado pela dica, Zé.

Miró e estratégia

Miró e estratégia

O título deste post poderia ser (escolha o leitor o que prefere): Miró e gestão de colecções, Miró e planeamento, Miró e política cultural, etc. Não irei, como compreenderão, abordar a importância da colecção Miró do antigo BPN, agora paga por todos nós, pertença do Estado, porque não detenho o conhecimento suficiente para avaliar a sua qualidade, mas gostaria de abordar a questão da sua venda ou incorporação nas colecções do Estado do ponto de vista da estratégia e política cultural nos museus portugueses.

Ao que tenho lido e ouvido dos mais diversos sectores a discussão centra-se no facto de ser impensável que o Estado possa vender uma colecção como esta dado o seu valor artístico e patrimonial. No entanto, não consegui perceber o que fará o Estado com a colecção se não a vender. As obras integram a colecção do Museu Nacional de Arte Contemporânea é uma das opções (a que me parece mais válida de tudo o que li… e acreditem que li muitos disparates), mas ao ler a missão do Museu do Chiado “Coleccionar, conservar e apresentar um acervo público de arte portuguesa de 1850 até à actualidade, bem como estimular o seu conhecimento fruição e confronto com práticas artísticas de outras nacionalidades” parece-me que a sua integração nesta colecção vai contra a própria missão do Museu, não é? A não ser, e aí retiro o que disse atrás, que o confronto com as práticas artísticas de outras nacionalidades tenha sido pensado para a contínua incorporação de obras de autores estrangeiros, o que me parece pouco exequível, e não com a perspectiva de organização de exposições temporárias que facilitassem esse confronto. Ainda assim, e aceitando que não via contra a missão do museu, a decisão da sua incorporação iria de encontro à política de colecções do museu? Não haveria outras necessidades a suprir no âmbito da arte portuguesa? São inúmeras as questões levantadas.

Se não fosse no MNAC poderíamos verificar, no panorama nacional, que outro museu poderia ficar com a colecção em depósito (Serralves é uma opção? Perdoem-me o desconhecimento sobre a constituição da sua colecção e limites temporais associados) e resolvia-se o facto de “perdermos” uma colecção com a importância que esta tem/terá para o país. Seria uma opção válida à partida se houvesse definição clara dos propósitos que nos levaram a investir (sim nós contribuintes pagamos bem caro por aquela colecção) um bom dinheiro na sua aquisição. Mas será que esses propósitos estão definidos? Será que temos uma política cultural? Ela resulta em alguma estratégia de actuação no desenvolvimento das colecções dos museus portugueses?

Eu, infelizmente, acho que não. Não a temos na Cultura e nas restantes áreas. Se a tivéssemos, ainda que só na Cultura, a justificação para esta venda poderia ser a compra de outras obras que pudessem completar a colecção do MNAC ou de qualquer outro museu tutelado pelo Estado. Se a tivéssemos na Cultura e noutras áreas poderiam dizer-nos que o montante que resulta da venda destas obras serviria para providenciar melhores meios para investigação científica ou para o Serviço Nacional de Saúde, por exemplo. E este é um dos maiores problemas, transversal a todas as áreas, que o país enfrenta. Não temos uma política definida e isso resulta, sempre, em navegação à vista.

A discussão sobre a colecção de Mirós do BPN entre governo e oposição é o espelho do desgoverno em que uns e outros estão. Seria bom perceber as propostas de uns e outros para o futuro desta colecção (sem ser a venda) e ouvir da parte do governo uma boa e sólida explicação para o (muito) atrapalhado processo de saída das obras do país. Pois se juntarmos este caso, ao do Crivelli parece que, para o governo, não temos a necessidade de uma Direcção Geral do Património Cultural e podemos dispensar a chatice que são os pareceres contrários às deliberações de S. Bento.

© Imagem: Wikipedia.

“[…] Onde, mais do que lutar, parece que desistimos também de pensar.”*

“[…] Onde, mais do que lutar, parece que desistimos também de pensar.”*

Ando completamente desfasado da realidade, ou melhor, a realidade está a passar com uma velocidade que não me tem sido possível acompanhar nos últimos tempos os diferentes (e interessantes) assuntos que têm ocupado o universo dos museus em Portugal. A triste realidade da venda dos Miró, o contínuo silêncio sobre a política cultural (não só a nível dos museus), a ausência de debate em torno do novo quadro comunitário de apoio (este deveria ser um assunto mais do que urgente) e assuntos de menor importância como a publicidade nas fardas usadas pelos funcionários de alguns monumentos, são alguns dos assuntos que não tenho conseguido acompanhar conforme gostaria e, como tal, nem me vou alongar sobre qualquer um deles.

No entanto, consegui hoje ler um texto do Luís Raposo (vejam lá o calibre do meu desfasamento), que apanhei no pportodosmuseus (obrigado Patrícia), intitulado “Os museus em face do presente e do futuro” (Público – 17-01-2014), onde somos confrontados com uma visão informada sobre a actual realidade e os caminhos (?) futuros a escolher pelos museus, políticos e agentes culturais. A realidade é difícil, bem o sabemos todos, neste sector chega a ser impossível, mas não será usada mais vezes do que deveria como desculpa para manter o actual estado das coisas? A última frase deste excelente artigo de Luís Raposo (título deste post) sintetiza brilhantemente aquilo que eu também sinto face aos actuais problemas no sector: pior do que deixar de lutar por melhor condições, mais investimento, por mostrar que a Cultura pode ser rentável (e não me refiro meramente ao lucro monetário) e é basilar, é não pensar continuamente qual o caminho que pretendemos seguir e questionar, sempre, se o caminho que seguimos é o que melhor serve a nossa e, principalmente, as seguintes gerações.

*Luís Raposo – Público. 17-01-2014

PS: uma notícia a salientar é a publicação (finalmente) do “Panorama Museológico em Portugal (2000-2010)”. Uma publicação de extraordinária importância para quem trabalha nesta área. Assim que a tiver em mãos prometo um post sobre o assunto.

© Imagem: Pportodosmuseus.

Ciclo de Debates | Pensamentos sobre Arte Contemporânea | IN – Festival Internacional de Inovação e Criatividade | 14 a 17 de novembro | FIL – Parque das Nações

Ciclo de Debates | Pensamentos sobre Arte Contemporânea | IN – Festival Internacional de Inovação e Criatividade | 14 a 17 de novembro | FIL – Parque das Nações

AntiFrame | Art Consulting organiza o Ciclo de Debates – Pensamentos sobre Arte Contemporânea em parceria com IN – Festival Internacional de Inovação e Criatividade

Festival IN | FIL, Pavilhão 3, Parque das Nações

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COM OU SEM ESTADO? CULTURA SOB RESPIRAÇÃO ASSISTIDA

14 de Novembro | 21h

RUI MATOSO | Formador, consultor, gestor e programador cultural. Professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa. É mestre em práticas culturais para municípios (FCSH/UNL), onde desenvolveu investigação em políticas culturais, e pós-graduado em gestão cultural. Actualmente, investiga sobre arte política e mediações táticas no doutoramento em ciências da comunicação e da cultura.

ROGÉRIO SANTOS | Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Lecciona Comunicação na Universidade Católica Portuguesa, onde também pertence ao conselho editorial da revista Comunicação e Cultura. É vice-presidente do CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo) e pertence à coordenação do grupo de trabalho de jornalismo da SOPCOM (Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação). Entre os livros que publicou, destacam-se A Negociação entre Jornalistas e Fontes (Minerva, 1997), Os Novos Media e o Espaço Público (Gradiva, 1998), Jornalistas e Fontes de Informação (MinervaCoimbra, 2003) e As Vozes da Rádio, 1924-1939 (Editorial Caminho, 2005). É ainda co-autor de O Estudo do Jornalismo Português em Análises de Caso (Caminho, 2001) e Rumo ao Cibermundo? (Celta, 2000). Entre 2003 e 2005 foi director da revista Media XXI.

DORA SANTOS SILVA | Bolseira de Doutoramento em Digital Media ao abrigo do programa internacional UT Austin | Portugal CoLab. Dedica-se ao estudo das potencialidades do jornalismo cultural e do jornalismo narrativo na era digital. É licenciada em Ciências da Comunicação e Mestre em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias (FCSH-UNL). Lecciona Jornalismo Cultural na FCSH-UNL e Storytelling no Jornalismo, como conferencista convidada. Já colaborou, como jornalista, com diversas publicações nacionais e internacionais na área da cultura. É autora do livro “Cultura & Jornalismo Cultural – Tendências e Desafios no Contexto das Indústrias Culturais e Criativas”, editado pela Media XXI. É também investigadora do CIMJ – Centro de Investigação Media e Jornalismo e participa actualmente no projecto de investigação “Cultura na Primeira Página – Um Estudo dos Jornais Portugueses na Primeira Década do Século XX”. Além do jornalismo e da docência, o seu percurso incluiu também o guionismo documental e a gestão editorial de projectos culturais.

ARTE, TECNOLOGIA E INTERACÇÃO. PORTUGAL À MARGEM DA NOVA ERA DOS DESCOBRIMENTOS?

15 de Novembro | 21h

MIGUEL CARVALHAIS | Miguel Carvalhais é designer e músico. Professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, dedicando-se principalmente ao design de interação e media computacionais. Colabora com Pedro Tudela no projecto @c, desenvolvendo composições musicais e audiovisuais, música para teatro, performances e instalações sonoras. Em 2003 ajudou a fundar a editora Crónica, que dirige desde então.

JOSÉ CARLOS NEVES | Licenciado em Design de Comunicação e Mestre em Sistemas de Comunicação Multimédia, onde desenvolveu tese em torno da relação entre corpo, arte e tecnologia. Nos seus estudos actuais de doutoramento tem vindo a trabalhar os “processos de design na arte interactiva”. Autor de um extenso número de projectos de design, nos últimos anos dedicou-se intensamente ao ensino universitário. Coordena cadeiras de formação tecnológica na Escola de Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação (ULHT) onde também lecciona nas áreas do design e artes digitais. O foco do seu trabalho de investigação artística está na relação dinâmica entre espectador e obra de arte. Tem desenvolvido trabalhos em co-autoria com João Trindade.

CATARINA PATRÍCIO | Artista Plástica, investigadora em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologia, Docente na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias [ULHT]. Licenciou-se em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa [FBA-UL: 1998-2003], tendo entretanto estudado fotografia e gravura na Fachhochschule Bielefeld ao abrigo do programa ERASMUS. Em 2008 concluiu o mestrado em Antropologia dos Movimentos Sociais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa [FCSH-UNL], onde é atualmente doutoranda em Ciências da Comunicação.

MODERAÇÃO |

CLÁUDIA CAMACHO | Curadora. Doutoranda em História da Arte (Facultad de Bellas Artes, Universidad Complutense, Madrid) defenderá a sua tese de doutoramento, sob Menção Europeia, em 2014. Comissariou as exposições: High Speed Press Plate de José Luís Neto (CBA, Madrid); Se Busca Memoria Perdida de Kristoffer Ardeña (Centro 14, Alicante); Representação Portuguesa no DVD-Project (Fundação Telefónica, Peru); Contemplaciones (Festival Loop, Barcelona); For Nothing de Pedro Torres (Round The Corner, Lisboa). Coordenadora de actividades no PhotoEspaña|07. Curadora residente convidada pela Academy of Fine Arts and Design para o European Month of Photography/09, em Bratislava. Curadora portuguesa convidada para projecto Jugada a 3 Bandas, Camera Oscura, Madrid|12 e Arte Santander|12, com a exposição Histórias e Desejos de quem Dorme (Ana Rito, Cecilia de Val, Margarida Paiva e Johann Ryno de Wet). Curadora portuguesa convidada para o “Ideological Guide to the Venice Biennial 2013″, Itália. Organizou o Ciclo de Debates da ARTELISBOA 2011. Em Dezembro, assume a curadoria do espaço Embaixada – Palacete Ribeiro da Cunha, em Lisboa. Directora da AntiFrame – Art Consulting.

No photo… please! No photo!

No photo… please! No photo!

O título deste post retrata uma história que recordo sempre que o tema da fotografia dos museus vem à baila. É automático, sempre que alguém inicia uma conversa sobre o tema lembro-me sempre da zelosa funcionária do Convento de Cristo em Tomar que “circulava” entre algumas dezenas de visitantes no espaço da Charola sempre a dizer, num tom ameaçador: “No photo! No photo, please!”

Devo dizer que, de certa forma, compreendi a freima daquela senhora. Compreendi porque, tendo alguns conhecimentos de conservação preventiva e sabendo que as pinturas daquele espaço estavam a ser ou tinham sido restauradas, imaginei que as estritas regras em relação à fotografia naquele espaço se deviam a questões de conservação. No entanto, sempre achei que nesses casos (de difícil justificação, segundo alguns estudos), mais valia ter sintética apropriada que pudesse explicar, de forma resumida, os potenciais perigos para o património e fazer com que a funcionária interviesse apenas quando visse alguém a tentar tirar uma fotografia com flash (as sem flash não teriam problemas neste tipo de casos, imagino eu).

Há uns tempos atrás, o ICOM Portugal e a Acesso Cultura motivados pela publicação do despacho que publica a regulamentação para “Utilização de Imagens de Museus, Monumentos, e outros Imóveis afectos à Direcção-Geral do Património Cultural” e por diversas reflexões sobre o tema como a da Maria aqui e no Público (não tenho o link) ou sobre o mesmo tema em países como a França (que podem ser lidas aqui e aqui), decidiram levar o assunto a debate, organizando duas sessões simultâneas em Lisboa e Porto.

As conclusões (poucas devo dizer no caso do Porto) e questões abordadas (muitas devo dizer) no debate já foram entretanto publicadas pela Acesso Cultura e não pretendo com este post falar sobre o debate em si, mas antes deixar apenas a minha opinião sobre o tema, ainda que esta esteja “infectada” com as interessantes intervenções dos convidados.

Em primeiro lugar um ponto que é, na minha opinião, fundamental: quaisquer tipos de direitos (autoria, conexos, propriedade, etc.) devem ser sempre respeitados, sejam eles mais restritos, como me parece ser o caso da maior parte das instituições em Portugal, ou declaradamente abertos, como é o caso, quase sempre mencionado do Rijskmuseum, com a utilização de licenças Creative Commons (uma prática a seguir por cá, digo eu!).

Colocando esse ponto como premissa essencial subsistem outras questões. O que é a utilização comercial de uma fotografia? Implica que haja um proveito direto da sua utilização? O valor pedido em Portugal é exagerado? As regras de acesso são restritivas e demasiado burocráticas? Será que a utilização comercial das imagens das colecções e património edificado é, em si, um negócio rentável? Paga, pelo menos, os recursos que o trabalho de digitalização exige? Eu tenho uma opinião muito relutante sobre este ponto, julgo que não é, pelo menos o modelo de negócio actual, rentável ou capaz, pelo menos, de assegurar os custos com a digitalização do património. No entanto, não tenho uma ideia luminosa para resolver o “problema”! Este é um ponto que não deveria ser debatido (o debate previa apenas a utilização sem fins comerciais), mas foram vários os intervenientes a colocar este ponto em cima da mesa.

Por outro lado, e tendo em conta a discussão internacional sobre este assunto e a crescente disponibilização de imagens das colecções por parte de diversas instituições em “open access” (Getty, Rijksmuseum, etc.), em que ponto ficamos em relação à utilização das imagens das colecções e edifícios para uso privado? Ficamos confusos, a acreditar no que leio no despacho. Em primeiro lugar gostaria de perceber o que se entende por uso privado. Posso utilizar uma foto no “desktop” do meu computador? Posso usar essa foto para ilustrar um post meu aqui no Mouseion? Posso partilhar a foto nas redes sociais? E se lhe quiser colocar um comentário? Posso alterar e ainda assim utilizar essa imagem? A utilização, sem custos, mas ainda assim com autorização, apenas está prevista para os casos de trabalhos científicos e académicos, o que me parece ser um impedimento para a sua utilização, no entanto, alguns dos nossos museus/palácios têm as suas colecções (re)publicadas no Google Art (e bem) e a pergunta que se impõe é: o Google estará a infrigir as regras ao promover a partilha nas redes sociais daquelas imagens? Se partilhar via Art Project não preciso de pedir autorização?

São diversas questões que se levantam quando penso neste assunto e, como é óbvio, julgo que ninguém terá resposta pronta e eficiente para todas as questões, no entanto, e saltando uma questão importante que é a conservação dos bens culturais que me parece apenas uma questão de bom senso e não uma desculpa para proibir as fotografias, a maior questão que este tema levanta para mim relaciona-se com o controlo e avaliação da utilização das fotografias (uma tarefa quase impossível, segundo ouço dizer) de forma ilícita. Questão que se levanta para as políticas mais restritivas e para as mais abertas, mas que está facilitada, no meu entender, no segundo caso, dado que o controlo pode ser mais direccionado para meios que implicam maior qualidade das imagens.

Se eu tivesse a meu cargo a direcção de um museu faria tudo ao meu alcance para que a política de utilização de imagens das colecções e edifício desse museu fossem tão abertas quanto possível, tal como defende Nina Simon. Perderia certamente alguns euros, mas tenho a certeza que teria um retorno bem mais proveitoso na participação e envolvimento da comunidade no quotidiano do museu.

© imagem: Alexandre Matos (tive algum receio de utilizar imagens indevidamente 🙂 )

Os custos da digitalização do património e a normalização

Os custos da digitalização do património e a normalização

A digitalização do património cultural é um tema que me interessa muito. Já o tinha abordado, embora sobre diferentes perspectivas, aqui, aqui e aqui. Hoje retomo o tema tendo como pretexto a leitura do excelente artigo de Martin Doerr e de Dominic Oldman, intitulado “The Costs of Cultural Heritage Data Services: The CIDOC CRM or Aggregator formats?“, publicado no blog de Dominic Oldman (que recomendo vivamente). Martin Doerr é um investigador com muita experiência nesta matéria (façam uma pequena pesquisa no google e perceberão) e Dominic Oldman é “Deputy Head of Information Systems” no British Museum e é o investigador principal no projecto Researchspace onde procura desenvolver um ambiente colaborativo de investigação online através da utilização de conjuntos de dados ricos semanticamente. Algo que perceberão melhor depois da leitura deste post (e para os com mais conhecimentos técnicos passarem por aqui) e de assistirem a estes vídeos:

http://youtu.be/HCnwgq6ebAs&w=500

http://youtu.be/HbYgaxctGV8&w=500

Voltando então ao artigo sobre os custos da digitalização do património e os custos associados, gostava que pudessem reflectir no seguinte excerto do mesmo onde os autores mencionam a necessidade de uma representação do contexto adequada, em substituição da tradicional disponibilização de dados “principais” e descontextualizados sobre os diversos objectos, como datas, medidas, autores, informação de conservação, etc., indo de encontro ao pedido por cada um dos modelos de dados dos agregadores de informação (ver como exemplo o EDM da Europeana).

The institution actually curating content must document it so that it will be not only found, but understood in the future. It therefore needs an adequate [1] representation of the context, content and objects come from and their meaning. This representation already has some disciplinary focus, and ultimately allows for integrating the more specialized author knowledge or lab data. For instance, chronological data curves from a carbon dating (C14) lab should be integrated at a museum level (2) by exact reference to the excavation event and records, but on an aggregator level (3) may be described just by a creation date.

Na opinião dos autores, com a qual eu concordo absolutamente, o custo da digitalização do património cultural poderia ser consideravelmente reduzido, se as instituições que providenciam os dados aos diferentes agregadores (museus, arquivos e bibliotecas) centrassem a sua atenção e esforços na criação de dados de acordo com o definido no CIDOC CRM (ISO 21127:2006). A principal razão para o fazerem prende-se com o facto de o CIDOC CRM possibilitar a definição de uma estrutura semântica de referência que possibilita, segundo os autores, a exportação da informação para qualquer tipo de modelo de dados definido pelos agregadores, tendo como vantagem, no futuro, a possibilidade de criar melhores sistemas de pesquisa e de investigação colaborativa na área do património cultural. Sendo uma possibilidade que nos agradará a todos (imagino eu), esta interessante ideia é concretizada (com as limitações tecnológicas actuais) na ferramenta que os vídeos atrás demonstram, no entanto, a questão principal mantém-se: será que os museus (e já agora os arquivos e bibliotecas) percebem que o trabalho que têm na documentação e gestão das suas colecções pode ser dificilmente reutilizável no futuro, caso não comecem a conhecer e trabalhar de acordo com o definido no CIDOC CRM?

É uma questão importante a ter em conta no planeamento dos projectos de documentação de qualquer colecção, não vos parece? Comentem e partilhem, se acharem o tema interessante.

© imagem: daqui.