A falha intergeracional nos museus

A falha intergeracional nos museus

Há uns tempos, nos anos da crise financeira, comecei a escrever um texto aqui para o Mouseion que rezava o seguinte:

Esta semana voltei a dar aulas no mestrado de museologia da Universidade do Porto e fiquei surpreso com a quantidade de alunos (segundo me disseram são 29 ao todo) matriculados. Pode ser engano meu, mas nos últimos anos tinha notado um decréscimo acentuado no número de alunos no mestrado que, sem ter grandes dados para analisar, atribuía às dificuldades financeiras sentidas pelas famílias e pelos profissionais de museus e ao peso que tinham na decisão de continuar os estudos nesta área, relativamente a outras prioridades da vida. Compreenderão certamente o porquê do meu espanto com uma sala cheia, numa altura em que, convenhamos, a saúde financeira geral não teve significativas melhorias.

Durante a sessão fiquei contente, confesso. Em primeiro lugar, e de forma egoísta, porque é bem melhor ter uma aula com uma sala cheia, mesmo que mais caótica e barulhenta (que não foi o caso), em que há interesse nos assuntos discutidos e onde a direcção da aula não é só professor-aluno! Em segundo, porque foi um interesse real em diversos aspectos da documentação.

Uns dias mais tarde, já depois de falar com colegas e família sobre esta minha admiração, vieram-me à cabeça as conversas tidas no último evento do ICOM Portugal com diversos amigos e colegas de profissão sobre o estado da profissão no nosso país e apoderou-se de mim um sentimento de preocupação enorme que se pode expressar assim: “Temos muita gente nova a ser formada, ninguém a ser contratado pelos museus, os quadros dos museus a envelhecer e a chegar à reforma, não tarda nada perderemos muito, mesmo muito, com esta quebra entre gerações, esta continua aprendizagem que foi existindo durante alguns tempos e de que a minha geração ainda usufruiu!”

O evento que ali falo foi o Encontro de Outono de 2016 sobre o tema Museus, Comunidade e Turismo: um triângulo virtuoso? e lá a conversa sobre este tema surgiu na sequência da notícia da reforma de um colega e sobre a ausência de um processo de substituição que permitisse uma passagem de testemunho desempoeirada e eficiente dos assuntos do museu e coleções que estavam ao seu cuidado. Uma situação que considero deveras preocupante para os museus em Portugal. Perde-se a passagem de informações importantes, a discussão entre gerações, a aprendizagem e a confrontação (que se espera sadia), perde-se muito e com este hiato, não se ganha nada.

De 2016 até agora pouco mudou. Não contratamos, salvo raras excepções. Os museus continuam a ser vistos, na maior parte dos casos, como instituições que dão prestígio e relevo, por vezes até vantagem política, mas são raros os casos de um investimento continuado, sério, com estratégia, com políticas de coleções com reflexão e estudo de temas recentes, sustentados por coleções estudadas e desenvolvidas com cabeça, tronco e membros, com equipas sólidas, com formação apropriada (e já agora diversificada, sem a prisão da coleção) e continuada. A nível central, se retirarmos a boa intenção do relatório do Grupo de Projeto Museus no Futuro, muito bem conduzido pela Clara Camacho, e a conclusão de alguns dos concursos para diretores de museus, esta legislatura caminha (de novo) para ser um desperdício (de tempo, de pessoas, de recursos).

No entanto, agora anunciam-nos que vem aí uma enorme bazuca, dinheiro a rodos que chegará a todos. Que teremos recuperação de edifícios, novos recursos, equipamentos, transição digital, wifi e mais… mas nem uma menção aos que terão que lidar com a transição digital (e com outras) estando dentro da estrutura ou ao cuidado que devemos ter na substituição atempada das equipas com novos profissionais, com outras ou mais qualificações, que possam receber a preciosa ajuda de quem conhece os cantos à casa. Será mais um ponto a agravar a falha intergeracional nos museus, em meu entender.

Ainda que seja para mudar a casa totalmente, é importante que este intervalo de gerações que eu sinto, diminua. Espero que as tutelas percebam isso e renovem as suas equipas a tempo.

5 motivos para ser membro do ICOM

5 motivos para ser membro do ICOM

icomcard

Uma colecção de vinhetas

Este ano, segundo as vinhetas que estão na parte de trás do meu cartão do ICOM, faz 12 anos que sou membro desta organização filiada da UNESCO que reúne mais de 35.000 membros entre instituições e profissionais de museus de 136 países/territórios, que conta com 119 comités nacionais e 30 comités internacionais dedicados a diversas áreas de interesse/estudo/investigação em museus e museologia.

Ao longo destes 12 anos aprendi imenso nesta organização, mas gostava de partilhar com vocês os motivos que justificam, na minha opinião, a adesão e manutenção como membro de uma organização desta natureza.

 

Uma lista com os meus 5 motivos

 

1. A ética profissional – O ICOM é uma rede de profissionais de museus que se assume como uma força de liderança em termos de ética profissional. Ou seja, o ICOM é a instituição que mais se aproxima das características de uma Ordem profissional, com a vantagem de o ser a nível internacional, sem alguns dos aspectos negativos relacionados com um corporativismo fechado e centrado apenas nos aspectos de defesa de determinada profissão. A publicação do Código de Ética do ICOM (PT) e a sua tradução por vários comités nacionais (recordo que a organização apenas tem 3 línguas oficiais – Inglês, Francês e Espanhol) tem permitido, ao longo dos anos, uma consistência e regulação informal daquilo que são os deveres profissionais de quem trabalha em museus.

 

2. O desenvolvimento da Sociedade através dos Museus – O ICOM é, apesar das dificuldades, um fórum de debate e reflexão com diferentes perspectivas sobre o papel social que o museu pode e deve desempenhar na sociedade actual. Promove um debate, ainda que com algumas falhas, sobre o papel de mediação que o museu deve assumir entre o património cultural e o público, tem programas associados com o turismo cultural, procura debater, recorrendo em grande medida à celebração do Dia Internacional de Museus, temas que promovem a mudança e a procura de uma sociedade mais aberta e equitativa.

 

3. A formação dos novos profissionais – O simples facto de ser uma rede de profissionais, ou seja de pares, é relevante para que alguém que se inicie na profissão se torne membro. Haverá melhor forma de aprender com o exemplo de outros colegas, com o debate que uma rede desta natureza pode promover ou com o conhecimento partilhado por colegas de todo o mundo que lidam, ou já lidaram, com os problemas que nos são colocados no início da carreira? Eu aprendi as bases sobre documentação em museus com os artigos e apresentações de outros membros do CIDOC e muito sobre outras áreas com colegas do comité nacional português que a elas se dedicam!

 

4. Normas e guias práticos – no seguimento do ponto anterior (e talvez aquilo que é mais procurado por um novo profissional o ICOM), o desenvolvimento, pelos comités internacionais de diferentes especialidades, de normas e guias práticos que nos auxiliam a cumprir com rigor as tarefas atríbuídas aos profissionais de museus. Não só dos que são reconhecidos pelo conselho executivo do ICOM, mas também por outros, de carácter mais específico, que são desenvolvidos e publicados por comités internacionais e nacionais, como é o caso da Declaração de Princípios de Documentação em Museus publicada em 2012 pelo CIDOC (e traduzida para Português pelos colegas do SISEM-SP em São Paulo, Brasil).

 

5. A rede de profissionais (e amigos) – não será o último dos motivos que poderia ainda apontar, mas é, talvez a par da ética profissional, um dos mais relevantes para mim. Ao longo deste ano conheci e aprendi com inúmeros profissionais de museus de todo o mundo que me fizeram olhar para a minha profissão de forma mais aberta e abrangente. Conhecer pessoas de outras latitudes e longitudes, com outras expectativas, com formação distinta, das mais diversas culturas fazem-nos crescer a nível profissional e, principalmente, a nível pessoal. Em boa verdade, nestes 12 anos, conheci profissionais de países como o Bangladesh, Japão, Chile, Quénia, Zimbabwe, África do Sul, Angola, Moçambique, Brasil, Espanha, Reino Unido, Suíca, Alemanha, Estados Unidos da América, Canadá, França, Estónia, Índia, Rússia, Itália, Grécia, Marrocos, Emiratos Árabes Unidos, Austrália, Eslovénia, Dinamarca, Roménia, Bulgária, China, entre outros. Também nestes 12 anos e por conta da participação em conferências internacionais do CIDOC ou noutros fóruns que conheci através do CIDOC estive em e conheci (ainda que brevemente) países como o Chile, a Roménia, a Grécia, o Reino Unido, o Brasil ou a Alemanha e fico roído por não poder ter ido no ano passado à Índia! O que aprendi com essas pessoas e nestes países dá-me uma visão mais completa sobre as exigências da minha profissão! Os amigos que fiz nestas andanças, fazem de mim, sem qualquer falsa modéstia, muito melhor pessoa.

 

Certamente poderia apontar mais motivos. Estes são os 5 primeiros que me ocorrem sempre que me perguntam porque faço parte do ICOM e, porventura, não serão os que vos farão aderir ao ICOM ou os que fazem com que outros membros se tenham inscrito e se mantenham membros, mas se precisarem de outros poderão ver as 3 razões que o próprio ICOM aponta para ser membro (entre elas há descontos nos museus e nas lojas dos museus) e, ainda, o facto de ser dada preferência às inscrições dos membros em eventos tão interessantes (e importantes) como a conferência internacional “Museums: one object, many visions?” que terá lugar no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, no próximo dia 22 deste mês e que trará a Portugal o presidente do ICOM.

Se este texto suscitou o vosso interesse em ser membro do ICOM, vejam como podem fazer a inscrição e as condições exigidas aqui.

Nick is leaving the building

Nick is leaving the building

I met Nick Poole few years ago in Athens. We were at a CIDOC conference (my first time at CIDOC) which turned out to be special because it defined some important professional and academic issues that were worrying me at that time.

Nick was there to present, as CEO of Collections Trust, the internationalisation project of SPECTRUM (the collections management standard that you’ve all downloaded here in Portuguese) that would transform what was an UK museum standard used by a great amount of museums and museum professionals around the world, in a true international community standard and a reference for museum collections documentation and management. I had the pleasure of meeting him at the Museum of Islamic Art of the Benaki Museum terrace, at one of the (fabulous) social activities organized by the conference organization (see photo), where we had a very pleasant conversation about museums, collections, Greece, the United Kingdom and Portugal, among many others subjects.

I ended up doing a doctorate about SPECTRUM for believing that this new openness by Collections Trust for the standard would allow it to become an excellent aid for organizing procedures in museums. I wasn’t wrong and since then I’ve always count, without exception, with Nick support to resolve questions, gather information about SPECTRUM or Collections Trust and MDA history and about many more things.

A few years later we had the opportunity to invite Nick as keynote speaker for the 8th Sistemas do Futuro User’s Meeting, when he also signed, in behalf of Collections Trust, the protocol with “Museu da Ciência da Universidade de Coimbra” that established the SPECTRUM license for the Portuguese territory. At that time, because of the flight delay we had the opportunity to talk in a late trip between Porto and Coimbra about almost everything, which gave me the opportunity to know the him better. Of course the beers in OpenCulture and caipirinhas in Brazil, where we also found, were also opportunities to know each other and realize the excellent professional and the great person Nick is.

Yesterday, when I read at the Collections Trust newsletter that Nick is leaving office as Collections Trust CEO to embrace a new (and important) professional challenge at CILIP, I felt a brief distress. I know that Collections Trust will manage this smoothly, but they will lost a key person in the institution recent years dynamics. By other hand I know that Nick leaves a stronger and healthier institution that will, for sure, continue the great work of these recent years (they have a lot of very good professionals over there).

Nick will embrace a new professional challenge and he will be certainly successful in it, but I couldn’t let this moment pass without sending a huge thank you to Nick for everything!

Hope to see you soon for a pint, ok Nick?

 


 

Conheci o Nick Poole há uns anos atrás em Atenas. Estávamos numa conferência do CIDOC, a minha primeira, que acabou por ser especial porque definiu alguns pontos importantes do que pretendia fazer a nível profissional e académico na altura.

O Nick estava lá para apresentar, como CEO da Collections Trust, o projecto de internacionalização da norma SPECTRUM (a norma de gestão de colecções que todos vocês já descarregarram aqui em PT), que transformaria aquilo que era um documento normativo inglês, utilizado por uma enorme quantidade de museus e profissionais de museus em todo mundo, numa verdadeira norma de comunidade e numa referência internacional para o trabalho de documentação e gestão de colecções em museus. Tive o prazer de o conhecer no topo do Museu de Arte Islâmica do Museu Benaki, numa das (fabulosas) actividades sociais (ver foto) organizadas pela organização da conferência, onde tivemos uma muito agradável conversa sobre museus, colecções, a Grécia, o Reino Unido e Portugal, entre muitas outras coisas.

Acabei por fazer o doutoramento sobre o SPECTRUM por acreditar que esta nova abertura da Collections Trust relativamente a esta norma permitiria que ela viesse a tornar-se um excelente auxílio para a organização de procedimentos nos museus. Não estava enganado e desde então contei sempre, sem qualquer excepção com o apoio do Nick para resolver dúvidas, obter informações sobre o SPECTRUM ou sobre a Collections Trust e para muitas mais coisas.

Uns anos mais tarde tivemos a oportunidade de o convidar para “keynote speaker” do 8º Encontro de utilizadores da Sistemas do Futuro, altura em que decorreu também a assinatura do protocolo entre a Collections Trust e o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, onde ficou estabelecido o licenciamento para o território português da norma. Nessa altura, fruto do atraso do seu voo, tivemos a oportunidade de conversar numa calma viagem entre Porto e Coimbra sobre tudo e mais alguma coisa, o que me deu a oportunidade de conhecer melhor a pessoa, o gajo porreiro. Claro que as cervejas nas OpenCulture e as caipirinhas no Brasil, onde nos encontramos também, foram também oportunidade de nos irmos conhecendo e de perceber o excelente profissional e a excelente pessoa que o Nick é.

Ontem fiquei a saber, quando li com atenção a newsletter da Collections Trust, que o Nick irá deixar de ser CEO da Collections Trust para abraçar um novo (e importante) desafio profissional no CILIP. Sei que a Collections Trust ficará bem entregue (têm uma excelente equipa por lá), embora tenha perdido uma pessoa chave na sua dinâmica dos últimos anos e sei também que o novo desafio profissional será bem sucedido certamente, mas não podia deixar passar este momento sem mandar um enorme obrigado para o Nick por tudo!

Espero ver-te um dia destes para um copo, ok meu caro?