O estado das coisas

O estado das coisas

A chegar ao fim de Novembro, depois de três meses intensos e quase sem tempo para nada, cansado fisicamente, mas intensamente mais rico graças à participação num conjunto de eventos importantes.

Logo a abrir Setembro, depois de um Agosto intenso em São Paulo, foi o CIDOC 2014, em Dresden, que a Juliana Monteiro descreveu maravilhosamente no Speaker’s Corner e onde tive a oportunidade de participar numa importante reunião sobre o desenvolvimento da norma SPECTRUM que já se encontra publicada e disponível em Português. Escreverei, quando tiver mais dados, um artigo sobre o desenvolvimento da norma para que o possam comentar.

Chegado de Dresden (uma cidade estranha, devo dizer), foi tempo de começar a preparar o I Congresso Internacional de Museologia Militar que a Sistemas do Futuro organizou com o Exército Português. A ideia do congresso surgiu através da parceira que a empresa e a Direcção de História e Cultura Militar (DHCM) mantêm no projecto da Rede de Museus Militares (inventário e gestão das colecções do Exército) e da necessidade de discutir um conjunto de assuntos comuns a todos os museus, mas que a instituição militar, devido à sua missão, trata de forma diferenciada. O programa do congresso foi abrangente, em meu entender, e permitiu a discussão generalizada, com diferentes pontos de vista (principalmente os trazidos pelos convidados internacionais), sobre os diferentes tópicos lançados pela comissão científica. Não posso deixar de destacar, entre muitas outras, a singular expressão “necessidade de guerrilha museológica”, utilizada na apresentação do General Silvestre António Francisco (Diretor do Museu Nacional de História Militar de Angola), aludindo à defesa da importância dos museus na sociedade e no seu desenvolvimento e transformação. Uma expressão que passei a usar, sempre que me perguntam o que será necessário para mudar o actual panorama desnorte museológico (cultural?) português. Em breve será publicado um texto, da minha responsabilidade, com um resumo alargado do congresso.

Passado o congresso foi tempo de reunir forças para começar a preparar outros dois momentos de discussão: o III Encontro de Centros de Documentação em Museus, organizado pelos colegas da Câmara Municipal de Loures (link quebrado), e o Seminário de Investigação do Doutoramento em Museologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto sobre Processos de Musealização (em boa verdade a preparação deste último decorria ao mesmo tempo que os anteriores).

No primeiro destes eventos participei com uma comunicação intitulada “Objectos, Livros, Documentos e uma Lingua Franca” que tinha como objectivo suscitar a reflexão sobre a necessidade premente da existência de um elo forte que permita a comunicação, mais do que a simples pesquisa, e o acesso integrado entre estes instrumentos de memória e história que Museus, Bibliotecas e Arquivos guardam. Não sei se terei conseguido o intento, mas as diversas conversas tidas ao longo do dia com os restantes colegas e a discussão gerada na sala durante as diversas apresentações foram mais do interessantes. Além do mais é sempre um prazer aprender mais com os restantes participantes e oradores. Tempo muito bem empregue.

O seminário da FLUP sobre Processos de Musealização decorreu já este mês, entre os dias 5 e 7. É o primeiro em que participo na condição de Professor Afiliado da casa e devo dizer que, apesar da complexidade da organização (só possível de concretizar graças ao empenho da Teresa Azevedo) e do processo de selecção dos artigos e comunicações, foi uma experiência excelente. Conforme poderão ver o programa foi intenso e interessante. Desde logo um formato que me agradou bastante foram as sessões tutoriais onde se pediu aos alunos de doutoramento de museologia da FLUP um texto e apresentação sobre o trabalho de investigação que têm desenvolvido para ser discutido pelos colegas e por um conjunto de professores. Na sessão tutorial que coordenei com a Alice Duarte, da linha de investigação Museus, Colecções e Património, acederam ao nosso convite os colegas Sérgio Lira, Adelaide Duarte e Filomena Silvano (um enorme obrigado uma vez mais) e os nossos alunos tiveram a possibilidade de discutir metodologias, estrutura, bibliografia, instrumentos, etc. que estão a utilizar através da análise e crítica de outros olhos, antecipando de certa forma a discussão pública que terão pela frente na conclusão dos seus projectos. Além deste importante momento contamos também com diversas apresentações, nas sessões do seminário, de diferentes projectos, estudos, etc. de muitos investigadores de outras universidades com abordagens muito interessantes sobre diferentes temas da investigação em museologia. Os keynote speakers que convidamos foram a cereja em cima do bolo, mas infelizmente, por motivos de agenda, só o posso dizer por aquilo que me contaram, dado que não consegui estar presente em nenhuma destas conferências. Foram também realizados um conjunto de workshops, cuja avaliação não posso fazer, porque organizei o único em que participei e não me ficaria bem ser juiz em causa própria. Espero que algum leitor que tenha participado o faça comentando este post, ok?

Ainda tive a oportunidade de moderar, a convite da Acesso Cultura, o debate sobre Domínio Público e Direitos de Autor que decorreu na Casa do Infante (com a “costumeira” sessão paralela em Lisboa) na qual tivemos como convidado Nuno Sousa e Silva, jurista e professor na Universidade Católica, que se tem especializado neste tema e que conseguiu, como ninguém, explicar temas jurídicos densos a não especialistas na matéria. Um debate que, segundo creio saber, terá continuidade num curso sobre o tema que a Acesso Cultura está a organizar.

Pelo meio de toda esta actividade ainda consegui encaixar (a custo) o reinício dos trabalhos de tradução dos SPECTRUM Advices para Português, consolidando a parceria entre os colegas do Brasil que participaram na revisão e publicação da tradução da norma e o Grupo de Trabalho de Sistemas de Informação, com a preciosa colaboração de excelentes profissionais de informação daquele grupo e, também, iniciar/retomar um conjunto de novos projectos e dar continuidade a outros decorrente do trabalho na Sistemas do Futuro que abordarei noutros textos.

Entre tanto que fazer não deixei de continuar a ler as notícias e ficar estupefacto como a crise bancária afecta importantes colecções portuguesas, como a da Fundação Ricardo Espírito Santo, ou como a crise (continuada) política afecta a gestão de um conjunto de museus que continuam sem saber com que contar no futuro (andam de tutela em tutela) e ainda como, apesar de tudo, o esforço de um conjunto de colegas e bons profissionais consegue manter de pé aquilo que resta da Rede Portuguesa de Museus dando continuidade à creditação de alguns museus.

É o estado das coisas. Até ver pelo menos!

 

Ciclo de Debates | Pensamentos sobre Arte Contemporânea | IN – Festival Internacional de Inovação e Criatividade | 14 a 17 de novembro | FIL – Parque das Nações

Ciclo de Debates | Pensamentos sobre Arte Contemporânea | IN – Festival Internacional de Inovação e Criatividade | 14 a 17 de novembro | FIL – Parque das Nações

AntiFrame | Art Consulting organiza o Ciclo de Debates – Pensamentos sobre Arte Contemporânea em parceria com IN – Festival Internacional de Inovação e Criatividade

Festival IN | FIL, Pavilhão 3, Parque das Nações

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COM OU SEM ESTADO? CULTURA SOB RESPIRAÇÃO ASSISTIDA

14 de Novembro | 21h

RUI MATOSO | Formador, consultor, gestor e programador cultural. Professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa. É mestre em práticas culturais para municípios (FCSH/UNL), onde desenvolveu investigação em políticas culturais, e pós-graduado em gestão cultural. Actualmente, investiga sobre arte política e mediações táticas no doutoramento em ciências da comunicação e da cultura.

ROGÉRIO SANTOS | Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Lecciona Comunicação na Universidade Católica Portuguesa, onde também pertence ao conselho editorial da revista Comunicação e Cultura. É vice-presidente do CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo) e pertence à coordenação do grupo de trabalho de jornalismo da SOPCOM (Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação). Entre os livros que publicou, destacam-se A Negociação entre Jornalistas e Fontes (Minerva, 1997), Os Novos Media e o Espaço Público (Gradiva, 1998), Jornalistas e Fontes de Informação (MinervaCoimbra, 2003) e As Vozes da Rádio, 1924-1939 (Editorial Caminho, 2005). É ainda co-autor de O Estudo do Jornalismo Português em Análises de Caso (Caminho, 2001) e Rumo ao Cibermundo? (Celta, 2000). Entre 2003 e 2005 foi director da revista Media XXI.

DORA SANTOS SILVA | Bolseira de Doutoramento em Digital Media ao abrigo do programa internacional UT Austin | Portugal CoLab. Dedica-se ao estudo das potencialidades do jornalismo cultural e do jornalismo narrativo na era digital. É licenciada em Ciências da Comunicação e Mestre em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias (FCSH-UNL). Lecciona Jornalismo Cultural na FCSH-UNL e Storytelling no Jornalismo, como conferencista convidada. Já colaborou, como jornalista, com diversas publicações nacionais e internacionais na área da cultura. É autora do livro “Cultura & Jornalismo Cultural – Tendências e Desafios no Contexto das Indústrias Culturais e Criativas”, editado pela Media XXI. É também investigadora do CIMJ – Centro de Investigação Media e Jornalismo e participa actualmente no projecto de investigação “Cultura na Primeira Página – Um Estudo dos Jornais Portugueses na Primeira Década do Século XX”. Além do jornalismo e da docência, o seu percurso incluiu também o guionismo documental e a gestão editorial de projectos culturais.

ARTE, TECNOLOGIA E INTERACÇÃO. PORTUGAL À MARGEM DA NOVA ERA DOS DESCOBRIMENTOS?

15 de Novembro | 21h

MIGUEL CARVALHAIS | Miguel Carvalhais é designer e músico. Professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, dedicando-se principalmente ao design de interação e media computacionais. Colabora com Pedro Tudela no projecto @c, desenvolvendo composições musicais e audiovisuais, música para teatro, performances e instalações sonoras. Em 2003 ajudou a fundar a editora Crónica, que dirige desde então.

JOSÉ CARLOS NEVES | Licenciado em Design de Comunicação e Mestre em Sistemas de Comunicação Multimédia, onde desenvolveu tese em torno da relação entre corpo, arte e tecnologia. Nos seus estudos actuais de doutoramento tem vindo a trabalhar os “processos de design na arte interactiva”. Autor de um extenso número de projectos de design, nos últimos anos dedicou-se intensamente ao ensino universitário. Coordena cadeiras de formação tecnológica na Escola de Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação (ULHT) onde também lecciona nas áreas do design e artes digitais. O foco do seu trabalho de investigação artística está na relação dinâmica entre espectador e obra de arte. Tem desenvolvido trabalhos em co-autoria com João Trindade.

CATARINA PATRÍCIO | Artista Plástica, investigadora em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologia, Docente na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias [ULHT]. Licenciou-se em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa [FBA-UL: 1998-2003], tendo entretanto estudado fotografia e gravura na Fachhochschule Bielefeld ao abrigo do programa ERASMUS. Em 2008 concluiu o mestrado em Antropologia dos Movimentos Sociais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa [FCSH-UNL], onde é atualmente doutoranda em Ciências da Comunicação.

MODERAÇÃO |

CLÁUDIA CAMACHO | Curadora. Doutoranda em História da Arte (Facultad de Bellas Artes, Universidad Complutense, Madrid) defenderá a sua tese de doutoramento, sob Menção Europeia, em 2014. Comissariou as exposições: High Speed Press Plate de José Luís Neto (CBA, Madrid); Se Busca Memoria Perdida de Kristoffer Ardeña (Centro 14, Alicante); Representação Portuguesa no DVD-Project (Fundação Telefónica, Peru); Contemplaciones (Festival Loop, Barcelona); For Nothing de Pedro Torres (Round The Corner, Lisboa). Coordenadora de actividades no PhotoEspaña|07. Curadora residente convidada pela Academy of Fine Arts and Design para o European Month of Photography/09, em Bratislava. Curadora portuguesa convidada para projecto Jugada a 3 Bandas, Camera Oscura, Madrid|12 e Arte Santander|12, com a exposição Histórias e Desejos de quem Dorme (Ana Rito, Cecilia de Val, Margarida Paiva e Johann Ryno de Wet). Curadora portuguesa convidada para o “Ideological Guide to the Venice Biennial 2013″, Itália. Organizou o Ciclo de Debates da ARTELISBOA 2011. Em Dezembro, assume a curadoria do espaço Embaixada – Palacete Ribeiro da Cunha, em Lisboa. Directora da AntiFrame – Art Consulting.