Sobre tragédias anunciadas, museus e parques de diversão – Gabriel Moore Bevilacqua

Sobre tragédias anunciadas, museus e parques de diversão – Gabriel Moore Bevilacqua

Não queria ser mais um cidadão ou profissional de cultura a externar indignação sobre a tragédia do Museu Nacional, uma vez que muitos colegas já o fizeram adequadamente. Mas resolvi escrever como forma de compartilhar parte da culpa e da estranheza que continuo a carregar. Inicialmente, tocar fogo no museu mais importante do país no ano de seu bicentenário (sim, nós o fizemos) pode parecer incompreensível, até brutalmente surreal. No entanto, o choque inicial acaba por dar lugar a aceitação de algo anunciado, óbvio, esperado.

Por Halley Pacheco de Oliveira [CC BY-SA 3.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], via Wikimedia Commons

Na cidade ou país – o Rio continua sendo a mais maravilhosa das nossas metáforas pátrias – em que se gastam fortunas em novos museus e projetos culturais mirabolantes, enquanto instituições com acervos preciosos permanecem soterradas no descaso e esquecimento, a relação causa e efeito começa a encadear-se em uma lógica perversa e incontornável.Os próprios conceitos colocados na ordem do dia nos parecem confusos e obscuros. Museu é quase qualquer coisa, entidade, espaço ou conceito (perdão pela indiscrição tautológica) que tenha uma programação cultural ou algo que com isso se pareça. Para criá-lo, basta batizá-lo. Acervo é um elemento ultrapassado, custoso, quase desnecessário na nova, revolucionária e sustentável equação museológica cunhada em terras tupiniquins. Para quê conhecer e interpretar o passado se podemos pular o presente e visitar um amanhã cheio de traquitanas e luzes coloridas?

Mais interessante e groundbreaking ainda é inventar os não-museus do amanhã só com um pouquinho de dinheiro público, passar o resultado para os cuidados do Estado corrupto/falido e finalizar colocando a galera global para tomar conta do novo equipamento. Apesar do choramingo eterno pela falta de recursos, dinheiro não foi problema, foi solução. Quem disse que não vemos progresso cultural por essas bandas? Qual a Disneylândia, com uma boa propaganda na telinha e uma ampla fila na entrada, tudo se paga e se justifica. Então, se não conseguimos distinguir o fogo do Museu Nacional do fogo do Museu da Língua Portuguesa ou acervo de cenografia, qual é o problema afinal? Por que tamanha comoção? Não bastaria juntar um troco, mesmo que com certo atraso, para reconstruir a coleção e o museu? Infelizmente, não.

Como bradou nosso distinto Ulpiano Bezerra de Meneses, museu sem acervo é igual mula sem cabeça. Apesar de bonitinho, não passa de folklore. Sim, acervos podem e devem ser digitais se objetivamos documentar a experiência humana recente. Basta reconhecer que cópia digital não é acervo, backup não é política de preservação e atividade museológica não se encerra em umsite ou em uma galeria bem montada com os gadgets do momento. Apesar das inúmeras

iniciativas que continuam a pipocar (mesmo com a ausência de recursos) a mera digitalização aliada à pirotecnia tecnológica jamais substituirá a materialidade dos acervos. Já vociferei antes contra a digitalização selvagem e seus problemas para as instituições de memória, mas reconheço que se ao menos isso tivesse sido feito no Museu Nacional hoje nos restaria mais do que apenas cinzas.

Até podemos chamar um arquiteto famoso e refazer o edifício com ares internacionais pós- modernos a beira mar (a generosa oferta do BNDES daria para rabiscar o desenho), mas recheá- lo a contento seria deveras complicado. Tudo isso para dizer que no país do vale tudo, da fachada e do engodo, museu é curinga, vai de mausoléu a parque de diversões com caça níqueis/público, e conservação é aquela de jardim e condomínio, que vale terceirizar porque é mais em conta.

Dito isto, a tragédia anunciada passaria a fazer sentido, seria até um desdobramento lógico. Só que não…, como diria a geração XYZ, pois as consequências são muito grandes e devastadoras para serem reduzidas a uma cadeia de mera causalidade. Com o incêndio de domingo queimamos não só o resquício material de inúmeros passados, mas a possibilidade de construção de futuras memórias coletivas e individuais. Mutilamos também uma ciência já fragilizada, cuja pesquisa se destacava pela diversidade e preciosidade das coleções do museu. Culturas e espécies já extintas foram dizimadas mais uma vez, talvez definitivamente, agora pelo desaparecimento de seus únicos ou poucos vestígios materiais. Se juntarmos a esse quadro de devastação a situação atual das duas instituições máximas de memória remanescentes (Arquivo Nacional e Biblioteca Nacional) e da vasta maioria dos nossos outros museus, nossa perspectiva enquanto sociedade organizada e Estado de direito torna-se ainda mais débil e duvidosa do que aquela apontada pela eleição que se aproxima.

A violência inicial do ocorrido nos levou a apontar dedos em busca de culpados para dar vazão à nossa justa indignação, mas o abandono das nossas instituições não é de hoje ou de anos, mas sim de décadas ou talvez séculos. O descaso e a incompetência apontam facilmente para o governo, para a universidade e órgãos públicos envolvidos na confusa e burocrática gestão do patrimônio cultural brasileiro. Se o objetivo da reflexão acerca desse imenso trauma é sua superação, essa identificação fácil e imediata, apesar de óbvia e necessária, não nos ajuda a distinguir com clareza a complexidade do problema. Nós, enquanto sociedade, devemos assumir a responsabilidade pela destruição do Museu Nacional em todas as suas instâncias. Enquanto representantes políticos corruptos e gestores incapazes ou incoerentes. Enquanto pesquisadores e profissionais egoístas, incompetentes e passivos. Enquanto cidadãos e eleitores ignorantes e suscetíveis.

Retornando ao objetivo inicial de compartilhar minha culpa e estranhamento, gostaria de desenvolver mais profundamente a questão da responsabilidade enquanto gestor, pesquisador e profissional de museu. Falamos pouco. Gritamos pouco. E fizemos menos ainda. Nosso simbólico abraço foi post mortem. Fomos incapazes de entender a especificidade do museu e priorizar suas demandas mais essenciais. Cometemos inúmeros erros e ignoramos premissas básicas do trabalho museológico. Não existe pesquisa ou exposição se o acervo não estiver documentado ou deixar de existir. Uma ação de difusão nunca pode ter prioridade de recursos se questões cruciais de infraestrutura, conservação, segurança e documentação não estiverem superadas. A difusão pode ser postergada em detrimento da salvaguarda das coleções, jamais o contrário.

Conhecer e documentar aquilo que temos é uma obrigação. A preservação física e a permanência de sentido devem ser reconhecidas como obrigações básicas e elementares. Devemos nos lembrar sempre de que temos um compromisso com as gerações futuras e não respondemos somente a demandas e pressões imediatas. A pesquisa ou a curadoria que fazemos (infelizmente conceitos muito apartados hoje) são apenas algumas das interpretações possíveis, não são as únicas ou as derradeiras. Nosso maior desafio é garantir acesso qualificado para que a sociedade possa construir conhecimento e narrativas a partir do que preservamos e não se dedicar a elaboração de um discurso único ou definitivo a respeito de nossas coleções.

O acervo não pertence a um pesquisador ou funcionário específico, mas sim à instituição que tem por obrigação garantir seu acesso à sociedade. A exposição não deve ser mais a única forma ou a estratégia prioritária de difusão de acervos. A desproporção, via de regra, entre a capacidade e alcance expositivo e o tamanho dos acervos aponta, obrigatoriamente, para a priorização de instrumentos digitais de acesso e pesquisa. No entanto, é fundamental também reconhecer o papel central e preponderante da conservação preventiva e do profissional de conservação nas instituições de memória. Costumamos brincar, não sem um gigantesco fundo de verdade, que se a palavra final não é do conservador, a instituição não pode ser séria.

O jeitinho, o improviso e o personalismo devem dar lugar ao trabalho embasado em conhecimentos e procedimentos técnicos consolidados e validados pelas comunidades profissionais especializadas. A nossa ética enquanto profissionais de memória/preservação deve ser mais forte do que os interesses, relações e rixas pessoais, do que a insatisfação com o trabalho ou com o salário, ou a ausência de condições que consideramos básicas. Devemos nos manifestar sempre, e relatar tudo que julgamos inadequado ou fora do lugar. Não devemos nos calar. Nossa postura precisa ser menos reativa e imensamente mais proativa. Temos o direito de conhecer as condições e obter informações a respeito do nosso patrimônio cultural. A ausência de recursos materiais não pode ser uma justificativa para a inação e a acomodação. Esperar não é mais saber.

Só vemos comentários de reitores e professores. Onde estão os conservadores, museólogos, arquivistas e bibliotecários do museu? É preciso reconhecer que o trabalho no museu é técnico e especializado. Sua gestão não é atividade secundária ou hobby de docente, pesquisador ou curador. Muito infelizmente, o curador no sentido clássico enquanto “cuidador” de acervos quase que inexiste hoje. Já a prioridade do docente é sua produção científica e a formação de seus alunos e orientandos. E se não for isso, algo está muito errado na universidade brasileira. O quão revelador e triste é a dependência da contribuição de pesquisadores e visitantes para tentar reconstituir qualquer representação do acervo que se foi. Onde estão os sistemas de documentação das coleções do museu? Será que o Museu Nacional já foi algo mais do que um mero repositório de fontes e espécimes para a pesquisa científica realizada na universidade? Quanto desse antes massivo e inesgotável acervo (nacional e não meramente universitário ou da UFRJ) mereceu atenção dos pesquisadores da universidade? O que foi feito do restante? Museu não é feudo e curador não deveria ser senhor de nenhuma coleção. Acervos públicos pertencem a sociedade e os funcionários das instituições que os preservam têm por obrigação não só garantir sua conservação, mas também seu acesso e transparência em relação a sua gestão e situação patrimonial.

Tragédia Museu Nacional

Por Felipe Milanez (Sent by the photographer — OTRS-sent) [CC BY-SA 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)], via Wikimedia Commons

As associações profissionais devem trabalhar pelos interesses de seus campos profissionais e de suas instituições e não pela suposta garantia medíocre de emprego vislumbrado pela carteirinha de profissional reconhecido por uma legislação torta e antiquada, mas continuamente ignorado e maltratado pelo mercado de trabalho e pelas próprias instituições as quais dedica sua vida. Já nos perguntamos quanto ganha (ou deveria ganhar) um museólogo, bibliotecário, arquivista ou conservador no Brasil? Precisamos de mais profissionais e menos de empregados. Trabalhar em um museu precisa ser mais do que fazer exposições para os nossos pares juntando obras em torno de textos herméticos e insípidos, que ao final dizem mais sobre o curador e a disfuncionalidade das instituições do que sobre as obras. Precisamos de diagnósticos, indicadores e metas próprios para avaliar o que está acontecendo em nossas instituições de memória. O valor de um museu é muito mais amplo do que a quantidade de público que ele supostamente recebe e maior ainda do que a cobertura de uma imprensa supostamente especializada, que jamais se deu ao trabalho de entender o objeto de sua nota antes de definir, avaliar, julgar ou corroborar. O evento, a notícia e a visibilidade são, quase sempre, vazios e fugazes.

Restou algo dos milhões e milhões investidos nas exposições blockbusters com sobras de acervos de museus gringos? Mas é fundamental para a formação do olhar culto dos brasileiros, diriam uns. Mas e quanto ao nosso British Museum e Natural History Museum, que se foi da noite para o dia, sem ao menos sabermos o que guardava? Nem os inventários e catálogos das coleções que se foram conseguimos acessar? Será que existem? Queremos ser MoMA, Louvre e Metropolitan, mas sequer conseguimos dizer o que temos e para onde estamos indo. Reconhecemos facilmente as obras primas dos outros, mas as nossas merecem pouca atenção, se formos capazes de identificá-las. Nossos milionários, nossa magnânima elite ilustrada gosta de investir em museus estadunidenses, mas tem receio das nossas instituições. A síndrome do vira-latismo tropical continua a nos assombrar.

Precisamos rever e reposicionar o lugar de nossos museus e acervos. A resposta não é criar novos museus, seja do zero ou a partir de escombros e ruínas. Vamos cuidar do que sobrou, daquilo que já (ainda) existe e continuamos a desconhecer. Vamos dar nome aos bois. Devemos reconhecer o que é museu e qual é o seu negócio, ou core business, como insistem outros. Precisamos seguir os códigos de ética que nós mesmo inventamos. Museu é coisa séria. Se a intenção é brincar de qualquer outra coisa, que ao menos tenhamos a coragem de nomear a contento. Palavra também é coisa séria.

Assim quem sabe concentramos melhor o quase nada em algum lugar digno de investimento. A opção, como diriam alguns colegas, seria arrendar tudo para algum país sério de clima temperado ou para um canal televisivo qualquer, e singrar de vento em popa a transformação (já em andamento) do Rio-Brasil na nação cenográfica que tanto estimamos. Futebol, carnaval, copas, olimpíadas, caipirinhas, favelas, fio dental e belas paisagens. O turismo, a indústria cultural e os companheiros que podem se mudar para Miami ou Portugal agradecem.

10 de setembro de 2018. (Oito dias após a hecatombe da memória cultural e científica brasileira)

Gabriel Moore Forell Bevilacqua
Cidadão e profissional de museus e arquivos envergonhado

Navegar ou pesquisar? Eis a questão – Maria José de Almeida

Navegar ou pesquisar? Eis a questão – Maria José de Almeida

Há algum tempo, trabalhando numa organização muito pouco organizada no que à gestão de informação dizia respeito, percebi que existia uma duplicação brutal de dados que resultava da dificuldade que os utilizadores tinham em localizar ficheiros nos discos partilhados na rede. A organização de pastas era de tal forma pessoal e intransmissível que ninguém encontrava nada quando ia à procura. A solução era recorrente: cópia do ficheiro para o sítio “que eu sei” e circulação posterior por correio eletrónico. Não preciso de explicar a confusão gerada na gestão de informação, no desempenho dos sistemas e nos custos associados ao armazenamento de dados (não é por não falarmos neles que eles não existem).

Para facilitar a vida no meu serviço, fiz uma tabela muito simples em que se identificavam os ficheiros pelo nome, descrição sumária do conteúdo e – o mais importante – que continha uma ligação para a localização dos ditos na rede. Não era a revolução necessária para reverter décadas de má prática de gestão documental, mas dava para o gasto e estancava a duplicação de informação e o entupimento do correio eletrónico. Ou melhor, deu, durante uns tempos. Porque há um dia em que começo a receber telefonemas de gente aos gritos “os links não funcionam!”, ocasionalmente acompanhados de outra linguagem técnica que me abstenho de reproduzir.

O que é que tinha acontecido? Um utilizador tinha acrescentado (e, para ajudar à festa, aleatoriamente ou com uma lógica que só ele percebia) um # no início do nome de alguns  ficheiros. Foi a minha vez de largar alguma sonora linguagem técnica e, depois do alívio causado, perguntar: “Porquê?” Resposta: “Ah, é que assim quando abro o explorador estes aparecem em cima”.

Durante muito tempo tomei esta história como exemplo de iliteracia digital mas, uns anos passados a pensar sobre gestão de informação, percebo que é exemplo de muito mais que isso. O mundo divide-se entre os que navegam e os que pesquisam.

Dito de uma forma mais concreta, este utilizador esperava recuperar informação através da forma como ela estava armazenada e, consequentemente, lhe era apresentada no ecrã. Enfim, podemos questionar o critério do “em cima = mais importante para mim neste momento por razões que só eu sei”, mas a ideia é essa. Há outra metade do mundo, contudo, que espera recuperar a informação através da forma como ela está descrita e, consequentemente, lhe é apresentada como resposta a uma pergunta.

A tentação de associar os que navegam à tecnologia analógica e os que pesquisam à tecnologia digital é grande, mas a coisa não é assim tão linear. Efetivamente, a forma mais antiga e tradicional de recuperar informação tem a ver com a “arrumação”: se quero um romance português vou encontrá-lo na prateleira da literatura de língua portuguesa, se quero um ofício expedido vou encontrá-lo na pasta das saídas, se quero uma ponta de seta vou encontrá-la no contentor dos materiais líticos. Não repetindo algo que já escrevi aqui, não havia grandes alternativas até há bem pouco tempo e a tecnologia digital é o grande aliado dos motores de busca. Mas o melhor sistema para os que navegam, hoje em dia, é seguramente digital.

A diferença entre navegar ou pesquisar vai para além da tecnologia. É uma questão de conceitos e de expectativas. Se eu prefiro navegar, o sistema de organização da informação é mais importante que a caracterização do objeto de informação. Se eu prefiro pesquisar, a caracterização do objeto de informação é mais importante que o sistema de organização da informação.

O que é que é melhor? Bom, eu sou dos que pesquisam… A história que comecei por contar parece-me mostrar que os sistemas de arrumação (em caixotes ou em cadeias binárias, vai dar igual) são demasiado voláteis para confiarmos neles. E também me fazem confusão as práticas que valorizam mais a forma como se organizam os objetos de informação do que… os próprios objetos de informação. Além de que esse tipo de práticas tendem a resultar em formas de recuperação de informação que são muito eficazes para quem conhece o sistema mas completamente crípticas para quem chega lá vindo de outro sítio.

Contudo, confiar exclusivamente na descrição para que os resultados das pesquisas sejam consequentes também não é um mar de rosas. Se não houver rigor e normalização na terminologia, nos atributos e nos procedimentos usados na descrição, mais vale não descrever nada e investir na arrumação dos objetos no “sítio certo”. Ou então confiar na serendipidade…

A boa notícia é que navegar e pesquisar não são conceitos mutuamente exclusivos. Qualquer página na internet nos prova. No entanto, é fundamental perceber quais são as expectativas dos utilizadores quando se concebe um sistema de informação: não vale a pena investir um tempo imenso no sistema de organização se os utilizadores vão querer fazer perguntas transversais e que cruzam atributos de objetos arrumados em caixotes diferentes. Ou, em alternativa, o tempo gasto na descrição pode ser contraproducente se os utilizadores apenas vão estar preocupados em localizar rapidamente as caixas onde se guarda a informação.

Porque, como tudo na vida, o que interessa é que o sistema seja eficaz para quem o usa. Para a maioria, vá. Que também ainda não se inventou melhor forma de vivermos em conjunto.

Imagem daqui.

 Maria José de Almeida

Maria José de Almeida é Doutora em Arqueologia pela Universidade de Lisboa.

Até 2016 trabalhou nos municípios de Santarém e Cascais, desenvolvendo ações de arqueologia preventiva e gestão de coleções de bens arqueológicos. Foi responsável pela implementação do Sistema de Informação dos Museus de Cascais e coordenou a integração do mesmo na plataforma de Sistema de Informação Geográfica da autarquia. Fez parte dos corpos gerentes da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) desde 2002, tendo sendo presidente da direção no triénio 2007-2009. É membro do Grupo de Trabalho Sistemas de Informação em Museus da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD).

Atualmente integra a equipa da Direção de Serviços de Inovação e Administração Eletrónica da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

Curriculum detalhado aqui.

Municipalização de museus e gestão pela desconfiança – Maria José Almeida

Municipalização de museus e gestão pela desconfiança – Maria José Almeida

escrevi neste cantinho sobre municipalização de museus. Aliás, escrevi noutro sítio, repeti aqui dez anos depois. Entretanto, já passam doze sobre o texto original. A questão não é nova, portanto.

Mas voltou a estar na ordem do dia porque o conselho de ministros acaba de aprovar uma proposta de lei que “estabelece o quadro de transferência de competências para as autarquias locais e para as entidades intermunicipais.” Embora os museus estejam neste barco há algum tempo, como também aqui já se disse, voltámos todos a falar nisso. E a falar como?

Com expressões deste género: “muitos temiam que o Museu de Évora passasse a ser gerido pelo município” ou, no mesmo contexto, a “promoção a museu nacional”. Esta ideia de elevação ou promoção tinha sido também usada para o Museu Grão Vasco em 2015, aquando da alteração da sua titularidade.

As palavras que usamos são importantes porque com elas vêm conceitos e, neste caso, juízos de valor: a gestão de um museu por uma autarquia é coisa que mete medo, os museus nacionais estão numa posição hierarquicamente superior aos regionais e municipais. É isto, não é?

Eu atrevo-me a dizer que não devia ser.

Não vou discutir vícios e virtudes da gestão que os municípios portugueses fazem dos museus, em particular, e do património cultural, em geral. Para isso serviu o referido texto que aqui escrevi e outros na defunta revista Praxis Archeologica[1]. Vou antes chamar a atenção para esta coisa de considerarmos sempre que de um lado estão “os bons” (a administração central) e do outro estão “os maus” (a administração regional e local). Esta distinção nunca contribuiu para o fortalecimento da administração pública portuguesa. A gestão pela desconfiança, legislar e restruturar assumindo que “os outros” são uns malandros à espera de rédea solta para libertar toda a sua maldade, é das coisas mais perniciosas que temos na função pública. Também existe na horizontal, entre diferentes organismos da administração central com competências ou ações complementares e entre municípios que partilham recursos ou têm territórios confinantes.

O principal problema dos museus portugueses não é a gestão municipal: é a má gestão. E insistir num discurso que deixa transparecer que os temos que “salvar” pela integração na administração central é contraproducente e autofágico.

Os diferentes níveis de administração não são concorrentes nem se definem hierarquicamente. Os executivos municipais não são uma espécie de réplica pequenina do governo central. Ou não deviam ser. Se calhar é mais por aí que devíamos ir na discussão: faz sentido descentralizar para apenas replicar funções do Estado à escala de 308 unidades municipais? Ou faz mais sentido descentralizar para distribuir competências diferentes que podem ser melhor geridas a nível local? E, já agora, isto de dividir o território em bocadinhos tão pequenos é mesmo útil?

A municipalização dos museus é uma questão que afeta o quotidiano de muitos profissionais nesta área e por isso é natural que muitos de nós estejam preocupados. No entanto, é apenas uma parte de um tema mais amplo que, enquanto cidadãos, devíamos exigir que se discutisse de uma forma consequente: a reforma da administração local e regional do nosso território, adequada à dinâmica socioeconómica e à demografia.

[1] Sim, o link não funciona, é propositado; também podíamos discutir vícios e virtudes do conhecimento produzido no âmbito de associações mas… não temos tempo

 Maria José de Almeida

Maria José de Almeida é licenciada História, variante Arqueologia, pela Universidade de Lisboa, estando a terminar o curso de doutoramento na mesma universidade.

Até 2016 trabalhou nos municípios de Santarém e Cascais, desenvolvendo ações de arqueologia preventiva e gestão de coleções de bens arqueológicos. Foi responsável pela implementação do Sistema de Informação dos Museus de Cascais e coordenou a integração do mesmo na plataforma de Sistema de Informação Geográfica da autarquia. Fez parte dos corpos gerentes da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) desde 2002, tendo sendo presidente da direção no triénio 2007-2009. É membro do Grupo de Trabalho Sistemas de Informação em Museus da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD).

Atualmente integra a equipa da Direção de Serviços de Inovação e Administração Eletrónica da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

Curriculum detalhado aqui.

Um texto com dez anos a propósito da recente municipalização de museus – Maria José Almeida

Um texto com dez anos a propósito da recente municipalização de museus – Maria José Almeida

Nota prévia:

Este texto foi escrito em Março de 2005. Destinava-se à divulgação na imprensa local, coisa que não aconteceu por razões várias, foi reformulado numa carta aberta ao presidente da câmara de Elvas que não teve nem resposta nem consequência. Era eu, à data, co-signatária de um projecto de investigação sobre a ocupação rural romana do concelho de Elvas.
Dez anos depois, a câmara de Elvas tem abertos ao público (segundo informação disponibilizada no site do município) quatro museus: Museu Militar de Elvas, Museu de fotografia João Carpinteiro, Museu Militar Forte de Santa Luzia e o Museu de Arte Contemporânea. Com algum esforço de pesquisa consegue-se saber que está prevista a criação de um museu de Arqueologia e Etnografia no edifício da antiga manutenção militar, com contratos já celebrados em 2014 para os projetos de arquitectura e especialidades. Espera-se assim que algumas das coleções do antigo Museu António Tomás Pires voltem brevemente aos olhos do público.

Apesar desta nota de esperança, no momento em que se municipalizam museus até agora afectos à administração central, lembrei-me deste texto e achei que era útil divulgá-lo. Para memória, espera-se, passada.

Como se extingue (discretamente) um Museu

O “Museu Archeologico de Elvas” foi fundado em 1880. Faz parte de um conjunto de museus de âmbito regional e local criados naquela que já foi chamada a “Idade de Ouro da Arqueologia Portuguesa”. Resultam dos programas de investigação pessoal de figuras destacadas da sociedade de então que elegem a arqueologia e o “estudo das antigualhas” como terreno de afirmação de uma certa ideia de progresso, alicerçada na construção de uma identidade local.

A longa história destes museus conduzi-os a situações muito diferentes em termos de enquadramento institucional e são várias as instituições que hoje deles são herdeiras. O “Museu Archeologico de Elvas” transformou-se em Museu Municipal porque o seu fundador, António Tomaz Pires, além de professor, era também Escrivão e Secretário da Câmara. Tivesse a iniciativa da criação do museu pertencido a Victorino d’Almada, destacado “archeologo” elvense seu contemporâneo e sargento-mor do 2º Regimento de Artilharia da cidade, talvez hoje fosse o Ministério da Defesa o responsável pela gestão deste equipamento.

Acontece que é a Câmara Municipal de Elvas a herdeira deste museu. E acontece também que, discretamente, é a Câmara Municipal que o está a extinguir.

O museu encontra-se instalado desde a sua fundação no antigo colégio jesuíta de Santiago, partilhando esse espaço com a Biblioteca Municipal. A convivência de museus e bibliotecas é tão antiga quanto a existência destas instituições em Portugal e o caso de Elvas é apenas um entre as muitas Bibliotecas-Museus criadas na mesma época. Com o tempo tem havido uma progressiva separação entre bibliotecas e museus e, mais uma vez, o caso de Elvas não é excepcional. Neste âmbito decidiu, em boa hora, a autarquia elvense promover a reabilitação da biblioteca e iniciar um processo de candidatura à integração na Rede de Leitura Pública Nacional.

Este processo implica naturalmente profundas obras no edifício e, para cumprir o programa definido pelo Instituto Português da Biblioteca e do Livro (IPLB), o museu, pura e simplesmente, não cabe.

Este facto em si não constitui nenhum problema, tanto mais que o acervo do Museu Municipal António Tomaz Pires há muito que reclamava novas e melhores condições de exposição e armazenamento. Aproveitar a reabilitação da biblioteca para a reabertura do museu noutro espaço mais adequado seria até uma boa oportunidade.

O que constitui um problema grave é que, passados dois anos da intenção expressa da autarquia na remodelação da biblioteca (que implicaria sempre, por razões físicas, a saída do museu do espaço do Colégio de Santiago) e 8 meses do encerramento do museu ao público, não haja qualquer definição sobre o destino a dar ao acervo museológico de que a Câmara Municipal é herdeira.

É certo que também não houve qualquer formalização da extinção do museu. Aliás, discretamente, essa questão tem sido evitada e qualquer inquérito de rua efectuado na cidade revelaria que a maioria dos elvenses está convencida que o edifício está encerrado para obras mas que reabrirá como biblioteca e museu, como sempre foi. Contudo, basta uma leitura rápida da memória descritiva do projecto de reabilitação do edifício, divulgada em versão resumida na imprensa local, para perceber que não é assim.

Em declarações à mesma imprensa local, o presidente da Câmara de Elvas afirmou que o Museu António Tomaz Pires “era um conjunto de espólios que iam desde a arte sacra até à arte africana. Isto não é uma unidade museológica dos nossos dias. Hoje as pessoas exigem mais qualidade, ou seja, museus temáticos e interactivos. Por isso, daqui por dois ou três anos Elvas não tem um Museu Municipal, mas sim cerca de cinco temáticos.” (Linhas de Elvas 21/08/2004).

Com tão boa notícia, impõe-se a pergunta: para quando, a criação do museu temático de arqueologia de Elvas?

(e, já agora, onde será instalado? e que recursos vai ter para a sua gestão e dinamização?)

É que, no acervo que vai “da arte sacra à arte africana” do extinto museu, há um significativo conjunto de espólio arqueológico que é capaz de atrair uns quantos visitantes.

Acho que ainda existe uma coisa chamada “Circuito Arqueológico das Antas de Elvas”. Não sei se estão disponíveis as estatísticas de participantes mas, sejam muitos ou poucos, talvez alguns gostassem de complementar a observação dos monumentos funerários com a visita a um museu temático onde encontrassem os objectos que acompanharam há cinco mil anos os mortos que aí foram enterrados. O Museo Nacional de Arte Romano em Mérida tem um número anual de visitantes portugueses que justificaram a edição em português do seu roteiro. Se estes visitantes rumam a Espanha para ver um museu de arqueologia dedicado à época romana, são bem capazes de ter vontade parar em Elvas para ver uma colecção de epigrafia ou uma exposição relativa às necrópoles da mesma época que foram encontradas na região.

É capaz. Mas neste momento não sabemos, porque essas colecções estão “devidamente arrumadas e embaladas dentro de caixas”, para continuar a usar as palavras do presidente da câmara, na já citada reportagem do Linhas de Elvas.

Falo das colecções de arqueologia porque são as que melhor conheço. Talvez especialistas em arte sacra ou em arte africana possam dizer coisas semelhantes sobre outras áreas temáticas do extinto museu. Mas invoco as artes do meu ofício para chamar a atenção da enorme responsabilidade que tem qualquer instituição que recebe como herança um museu como era o Museu Municipal António Tomaz Pires.

Aparentemente, não estando integrada esta unidade museológica na Rede Portuguesa de Museus e sendo a sua tutela exclusivamente municipal, a autarquia pode decidir como bem entender sobre o espólio do museu. Da mesma maneira que decide sobre quaisquer bens móveis que pertencem ao seu património, sejam mesas, candeeiros, computadores ou ferramentas. Estando a legislação portuguesa relativa ao património cultural cheia de buracos causados pela falta de regulamentação, parece que pode.

Mas, será que deve?…

 

 Maria José de Almeida

Maria José de Almeida é licenciada História, variante Arqueologia, pela Universidade de Lisboa, tendo obtido o grau de mestre em Arqueologia Romana na Universidade de Coimbra. Actualmente integra o programa de Doutoramento em Arqueologia e Pré-história da Universidade de Lisboa, na especialidade de Arqueologia. É autora de vários artigos publicados sobre a temática da ocupação romana no território de Augusta Emerita. Entre 1996 e 2002 trabalhou no município de Santarém, desenvolvendo acções de arqueologia urbana em núcleos históricos. Foi responsável pela primeira fase da Carta Arqueológica de Santarém e pela organização da Reserva Municipal de Bens Arqueológicos. Foi comissária da exposição temporária De Scallabis a Santarém (MNA, 2002). Desde 2003 exerce funções na Câmara Municipal de Cascais, onde implementou o Sistema de Informação dos Museus de Cascais e coordenou a elaboração do respectivo Manual de Procedimentos. Ainda em Cascais, dirigiu o Gabinete de Arqueologia e, actualmente, desempenha funções na Divisão de Ordenamento do Território, tendo coordenado a integração do referido sistema de informação com a plataforma SIG da autarquia. Integrou os corpos gerentes da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) desde 2002, tendo sendo presidente da direcção no triénio 2007-2009.

Curriculum detalhado aqui.

© imagem: daqui.

O mistério dos “números em falta” e outras histórias em torno do identificador único* – Maria José Almeida

O mistério dos “números em falta” e outras histórias em torno do identificador único* – Maria José Almeida

Quem nunca ouviu falar em “números em falta”? Eu não vos vejo, mas imagino que se pedisse que levantasse o braço quem nunca ouviu falar desta coisa veria… muito poucos, se não mesmo nenhum braço levantado. Todos já nos deparamos com alguém muito aflito porque “faltam números de inventário!”, porque “há um salto do 103 para o 109!”

O que são estes misteriosos “números em falta”? São, muito singela e matematicamente, quebras numa sequência de números naturais. E, tradicionalmente, o identificador único dos objectos nos museus é expresso por um número natural, atribuído sequencialmente. Mesmo quando o “número de inventário” não é um número (e isso dava outro texto neste blog), há sempre uma parte, ou partes, da codificação que são conjuntos de algarismos e espera-se que esses respeitem a sequência dos números naturais.

Porquê? Porque a forma mais simples, e consequentemente mais eficaz, de atribuir um identificador único a qualquer coisa é usar um número. Um número é inequívoco, nunca se acabam os números. E a sequência natural dos números, nem podia ser de outra forma, é a sequência dos números naturais. Podia ser a sequência de números primos ou a sequência de Fibonacci? Podia, mas não dava tanto jeito.

Quando os inventários eram feitos em fichas de papel, arrumadas em caixas, os mecanismos de controlo para assegurar que o identificador único fosse, de facto, único, eram complexos e exigiam bastante esforço. O menos mau deles todos era a verificação das sequências: a identificação de “números repetidos” e “números em falta” podia indicar a existência de erros e era um bom alerta para ir verificar o conteúdo das fichas em causa. Também servia para saber que entre x e y tinha havido instruções para que se registasse de uma maneira aquilo que de z a w foi registado de outra, e por aí fora. Claro que não era infalível e dependia muito da capacidade e memória de quem fazia estas verificações. Por exemplo, eu sou péssima nesse tipo de tarefas: sou capaz de ver o número de inventário de um objecto na secretária, levantar-me para o ir buscar e, quando chego à estante ou vitrina, já não faço ideia qual é. Mas a D.ª Margarida, funcionária do Museu Nacional de Arqueologia que conheci no século passado, era excelente: sabia de cor onde havia quebras nas sequências de números de inventário, o que é que significavam, e ainda tinha sempre uma história pitoresca para contar sobre o assunto.

Como o mundo tem mais pessoas como eu do que como a D.ª Margarida, e existem outras pessoas extraordinárias que desenvolvem soluções para os nossos problemas, a tecnologia de registo e tratamento da informação evoluiu e é nossa amiga. É tão amiga que hoje em dia é banal em qualquer aplicação ter mecanismos que atribuem automaticamente identificadores únicos que são, garantidamente, únicos.  Isto impede a repetição de números, mas não impede as quebras na sequência: se um registo é apagado, o número único que ele usava – porque é irrepetível – fica “em falta”. Isso não é um problema, mas a maioria dos utilizadores reage como se fosse. Deve haver uma explicação neurolinguística qualquer para este incómodo causado pelas quebras de sequência. Com a quantidade de gente a sugerir soluções para identificar essas quebras no identificador único em bases de dados, deve ser um sentimento comum.

Neurolinguística à parte, perde-se muito tempo com isto dos “números em falta”. Em tempos trabalhei num local onde havia um complexo esquema de identificação e redistribuição de “números vagos”: escusado será dizer que isso contribuía para a confusão total, para a multiplicação e reprodução caótica de erros, com os (infelizmente) habituais gritos dos (ir)responsáveis. O problema é que, associada ao “mistério dos números em falta”, costuma andar a “fobia da informação eliminada”.

Sim, é verdade. As quebras de sequência resultam de registos que foram apagados. E…?

Há um sem número de razões legítimas para apagar registos e, se vamos documentar todas as eliminações, perdemos muito tempo precioso. Valerá mesmo a pena fixar para o futuro a informação de que um registo foi apagado porque o utilizador o criou por engano? Ou para fazer testes? Não será melhor preocuparmo-nos antes se todos os registos descrevem da melhor maneira os objectos a que se referem ou se todos os objectos que temos à nossa guarda têm registo? A continuidade da sequência de números de inventário não garante nada disso. Podemos ter uma sequência “perfeita” de números de inventário mas de que é que isso nos serve, por exemplo, se nas respectivas fichas não há qualquer tipo de informação que nos permita encontrar os objectos no museu? Quando descobrirmos que foram roubados ou estão podres porque se encontram armazenados da forma errada, a integridade da sequência de inventário será certamente um fraco consolo.

Aqui já não há neurolinguística que nos valha. Aqui o problema é mesmo cultural: substituímos muitas vezes rigor por mesquinhez. A “fobia da informação eliminada”, da qual os “números em falta” são um sinal exterior, é a vontade de apontar o dedo ao erro alheio. Há quem diga que isso é uma herança da nossa longa ditadura, há quem diga que isso tem a ver com a matriz católica do pecado e da culpa. Mas eu percebo tanto disso como de neurolinguística… O que sei é de muita hora de trabalho desperdiçada a procurar e justificar os “números em falta”!

Não faço ideia como é que isto se resolve. Mas, se é expectável que haja sempre alguém que faça dos “números em falta” um problema, que tal quebrarmos a tradição do identificador único ser uma sequência de números naturais? Também não vale a pena usar a sequência de números primos, a de Fibonacci ou outra qualquer sequência infinita: haverá sempre um doido que usa uma folha de cálculo e umas fórmulas e vai dizer que também aí há “números em falta”. A minha proposta é mesmo que não seja uma sequência. O identificador único é um número atribuído aleatoriamente, irrepetível. Isso é difícil, engenheiros que me leem? (vamos acreditar que há uns quantos leitores deste blog que o são). É que se não for (ou mesmo que seja, o desafio da tecnologia é esse mesmo: resolver problemas independentemente do grau de dificuldade), talvez isso ajudasse a quebrar o enguiço. Aos poucos, os utilizadores de bases de dados deixavam de esperar que o número de inventário fosse “seguinte” ou “anterior”. Era só (?) um identificador único. Com tanta relevância para o conteúdo da ficha como o número das notas para as compras que fazemos.

* O título parafraseia o livro de Jorge Buescu O mistério do BI e outras histórias : crónicas das fronteiras da Ciência , cuja leitura se recomenda vivamente; o texto que dá nome ao livro pode ser lido integralmente aqui.

© Imagem daqui.

 Maria José de Almeida

Maria José de Almeida é licenciada História, variante Arqueologia, pela Universidade de Lisboa, tendo obtido o grau de mestre em Arqueologia Romana na Universidade de Coimbra. Actualmente integra o programa de Doutoramento em Arqueologia e Pré-história da Universidade de Lisboa, na especialidade de Arqueologia. É autora de vários artigos publicados sobre a temática da ocupação romana no território de Augusta Emerita. Entre 1996 e 2002 trabalhou no município de Santarém, desenvolvendo acções de arqueologia urbana em núcleos históricos. Foi responsável pela primeira fase da Carta Arqueológica de Santarém e pela organização da Reserva Municipal de Bens Arqueológicos. Foi comissária da exposição temporária De Scallabis a Santarém (MNA, 2002). Desde 2003 exerce funções na Câmara Municipal de Cascais, onde implementou o Sistema de Informação dos Museus de Cascais e coordenou a elaboração do respectivo Manual de Procedimentos. Ainda em Cascais, dirigiu o Gabinete de Arqueologia e, actualmente, desempenha funções na Divisão de Ordenamento do Território, tendo coordenado a integração do referido sistema de informação com a plataforma SIG da autarquia. Integrou os corpos gerentes da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) desde 2002, tendo sendo presidente da direcção no triénio 2007-2009.

Curriculum detalhado aqui.

O Lugar dos Jovens nos Museus – Marta Ornelas

O Lugar dos Jovens nos Museus – Marta Ornelas

O debate “Museus Hoje e Amanhã: Qual o Lugar dos Jovens?” teve lugar na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva no passado dia 30 de Novembro de 2014 e foi organizado pelo colectivo de jovens FAZ 15-25.

Neste debate, para além de ouvirmos o testemunho dos jovens implicados neste colectivo, ouvimos também as propostas do Colectivo Tempos de Vista, do Programa de Estágios Jovens Animadores do Museu da Eletricidade, do Carpe Diem Arte e Pesquisa, da Escola Superior de Educação de Lisboa, do Professor Ricardo Bak Gordon e da artista Ana Vidigal. Todas estas pessoas e grupos explicaram-nos como é valioso trabalhar em conjunto com jovens, potenciando uma relação empática e engrenada entre estes e os museus. Para estes jovens foi possível desmistificar a ideia do artista como génio e do museu como espaço sacralizado, convertendo, tanto os artistas como os museus, em algo acessível e humanizado.

No espaço de debate concluímos que existem constrangimentos à frequência de jovens nos museus muito semelhantes aos das décadas de 60, 70 e 80, tal como nos contaram os adultos que nessa época eram jovens, nomeadamente a acessibilidade geográfica e intelectual, numa sociedade social e economicamente segregada. Relevou-se, no entanto, o importante papel da Sociedade Nacional de Belas Artes e da Fundação Gulbenkian, nos anos 70, na mudança de mentalidades e na criação de condições para a acessibilidade dos jovens ao mundo artístico. Referiu-se ainda que na década de 70 não existiam museus de arte contemporânea em Portugal.

Tal como nas décadas anteriores, hoje ainda se assiste a a uma forte presença de públicos jovens nos museus estrangeiros, ao contrário do que acontece em Portugal, onde as visitas de jovens a museus são pautadas pela intervenção da escola. A escola, no entanto, apresenta hoje muitas dificuldades em levar os estudantes aos museus, sobretudo por questões económicas relacionadas, não tanto com o custo da entrada nos museus, mas mais com o custo do transporte necessário para lá chegar. Estes constrangimentos implicam, muitas vezes, que as deslocações de escolas em visitas de estudo combinem a ida a vários museus no mesmo dia, algo que se torna cansativo para os jovens (tal como acontece com muitas outras pessoas não jovens que se submetem a este tipo de experiência), que acabam por ter um desfrute pautado pelo cansaço e consequente desinteresse.

Os participantes adultos no debate contaram-nos como na década de 80 os visitantes eram acarinhados nos museus estrangeiros, tendo tido, por isso, a possibilidade, enquanto jovens, de usufruir de experiências mais interessantes fora do país.

Relevou-se a importância dos Serviços Educativos para uma maior abertura dos museus aos jovens, salientando-se ainda o facto de os museus públicos contarem com verbas menores do que as dos museus privados para o sector educativo. Assim, este factor compromete a qualidade da resposta que os museus públicos podem oferecer, sobretudo pela escassez de recursos humanos.

Houve ainda vozes que se manifestaram pela importância do papel das universidades como instituições formadoras que deveriam ser mais activas e ter um papel mais relevante na relação com as comunidades, nomeadamente com as instituições culturais.

Referiu-se ainda o desinvestimento governamental que nos últimos anos tem sido feito na Educação Artística, facto que compromete a acessibilidade de todos os jovens, deixando lugar a que apenas aqueles cujas famílias valorizam as componentes artísticas da sociedade e que possuem situações económicas sustentáveis possam, de forma regular, participar em actividades artísticas, seja nos museus ou noutras instituições que trabalham com pressupostos artísticos.

Ainda que, neste contexto, haja poucos jovens com interesse em áreas culturais e artísticas, salienta-se o esforço de muitos educadores que continuam a levar os seus alunos aos museus, algo que deve ser um trabalho contínuo, tanto quanto possível.

Foi também referido que muitos museus não têm sensibilidade para atrair os jovens, na medida em que continuam a optar por modelos tradicionais de visita guiada, em regime de fala-escuta unilateral, muitas vezes em tom monocórdico e sem lugar à participação colectiva. Referiu-se o termo “visita mediada” como algo diferente e mais aliciante. Por outro lado, o projecto expositivo tradicional do “quadro na parede” também parece não ser muito atractivo para os jovens, requerendo-se também novas ideias para expor.

Apesar de haver algumas opiniões contra a ideia de que o museu possa expor em locais públicos, como por exemplo em centros comerciais, os jovens referiram que este tipo de inicativas é positivo, pois o museu deve ser levado “à praça pública”.

Concluímos também que a importância dada à participação dos jovens na programação dos museus é, em Portugal, ainda um pouco negada, embora estes projectos pontuais possam ser o motor de iniciação a novas práticas, implicando os jovens de forma a que valorizem as áreas culturais e artísticas, atribuindo-lhe um papel emancipador e transformador.

Colectivos, plataformas artísticas, serviços educativos, residências, redes e parcerias parecem ser palavras-chave para atrair os jovens aos museus. Os museus devem, então, manifestar interesse numa abertura a novas propostas que considerem, valorizem e integrem o pensamento dos jovens.

Os organizadores deste debate fazem parte do FAZ 15-25, um colectivo de jovens entre os 15 e os 25 anos com formação em áreas diversas que estão envolvidos na programação da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Possibilitando uma flexibilidade no grau de envolvimento de cada membro do colectivo, o FAZ 15-25 tem como objectivo dar oportunidades aos jovens para se implicarem na concepção e prática de actividades que lhes permitam desenvolver competências artísticas, de organização, de comunicação e de empreendedorismo. O colectivo trabalha directamente com profissionais de várias áreas artísticas e convive com os visitantes do museu. Desenvolve ainda redes sociais, blogs e apps, também com o intuito de chamar ao museu outros jovens.

A participação dos jovens na programação do museu parece ser uma importante mais-valia do FAZ 15-25. A coordenadora deste interessante projecto, Filipa Alves de Sousa, explica-nos a importância de uma metodologia para o programa que implica, por um lado, ter as necessidades e interesses dos jovens como ponto de partida para a programação, e por outro lado, a responsabilização dos membros envolvidos. O programa tem que ser flexível, aberto e com uma dinâmica social, ao mesmo tempo disciplinado, estruturado e com estratégias bem definidas. O seu papel como coordenadora é ser a mediadora entre o grupo e o Museu e fazer com que as coisas aconteçam. Para isso, é necessária uma mentoria próxima com os membros do colectivo, bem como a preparação de conteúdos atractivos. Um dos principais objectivos do projecto é também proporcionar momentos de encontro e conversa informal entre profissionais inspiradores, já que os jovens são muitas vezes movidos por pessoas com histórias reais que quebrem barreiras sociais e hierárquicas e lhes apresentem possibilidades de percursos pessoais e profissionais.

Alguns jovens deram-nos o seu testemunho, que aqui reproduzimos:

“Para mim, o mais importante tem sido o trabalho em equipa. Eu ando há muito habituado a trabalhar sozinho, individualmente, e não gostava tanto de trabalhar em equipa. O FAZ incutiu-me o gosto de trabalhar em equipa, em colectivo. Tudo o que fazemos é em grupo. O trabalho individual é, aqui, um conceito estranho. As experiências, além de contínuas, são intensas e destacam-se pela partilha de conhecimentos e a fluidez das ideias. Descontraidamente dedicados, trabalhamos.” (Pedro, 25 anos – Licenciado e Pós-graduado em Antropologia)

“A mais-valia tem sido a oportunidade de desenvolver trabalho na dinamização cultural num contexto. Aprendemos uns com os outros, há uma inter-ajuda. É a possibilidade de ser num contexto e não sozinhos e ter esse apoio tem sido um factor diferenciador.” (Sofia, 21 anos – Estudante de Design de Equipamento)

“Eu estou aqui há pouco tempo, há um mês. Mas aquilo que eu procuro no FAZ, e que tenho encontrado até agora, é ter espaço para expormos as nossas ideias. Nós borbulhamos ideias todos os dias. Aqui podemos partilhá-las e ter um espaço para desenvolvê-las, sermos ouvidos e fazermos coisas. Tornarmo-nos activos, tornar essas ideias em realidade, em coisas concretas.” (Rebeca, 24 anos – Licenciada em Jornalismo e com um Curso Profissional de Fotografia)

“O que mais me tem feito sentir realizada por estar no FAZ foi poder tomar consciência de competências que eu já tinha, mas que tinham sido pouco desenvolvidas, como é o caso da competência para falar em público, através da realização de visitas guiadas. Fazer visitas guiadas no Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva foi uma forma de eu perceber que era, de facto, capaz de falar em frente a uma assistência. Isso foi muito importante para mim, perceber que competências é que eu tenho a dar ao grupo e ao Museu, para além daquilo que eu tenho a aprender com colegas de outras áreas, como por exemplo dos audiovisuais, ou colegas mais novos, como a Beatriz C. e a Daniela, cuja cultura geral, entusiasmo e maturidade me supreenderam muito.” (Inês, 24 anos – Mestre em História de Arte)

“Aquilo que considero fulcral no FAZ é a bagagem que nos dá, não só a nível de responsabilidade, pois temos de contactar com o público, mas também ao nível do trabalho em grupo, que não é uma coisa a que esteja propriamente habituada. Para além destes factores, foi muito bom encontrar pessoas com os mesmos interesses que eu e com vontade de mudar aquilo que são os museus em Portugal actualmente. O FAZ trouxe mais à minha vida do que eu esperava, para além da vontade de fazer coisas diferentes no âmbito museológico, trouxe-me amigos.” (Margarida, 22 anos – Mestranda em Museologia)

“O que me fez vir para o FAZ foi poder colaborar com um museu de que gosto, e poder fazê-lo entre amigos. Comecei por ir a uma sessão Conversa com Eles com uma amiga após a qual os actuais colegas foram carinhosamente chatos com o ”vem vem”! Quanto às mais-valias do projecto, acima de tudo experiência, a diferentes níveis, e oportunidades de formação gratuita ou com desconto associadas ao networking no mundo artístico.” (Paula, 24 anos – Licenciada em História de Arte)

“Juntei-me ao FAZ por sugestão de uma amiga e o que me prendeu desde logo foram as reuniões. Nas Conversas com Eles temos oportunidade de falar com pessoas da área cultural e artística e há uma enorme partilha de experiências e aprendizagem do mundo real, entre aspas. Eu sou da área das Humanidades e das Artes e o FAZ complementa a minha formação, porque nos põe em contacto directo com o Museu. Acaba por ser uma parte prática que a faculdade não me dá. Aqui temos a liberdade para elaborar projectos relacionados com os nossos interesses e temos contacto com o público. É um grupo que, apesar das várias áreas de formação, temos todos o mesmo interesse e acho que isso se sente cada vez mais na união do colectivo. Nós somos um grupo de jovens que quer mudar e dinamizar esta ideia de Museu que há em Portugal e aqui nós temos um sítio onde somos ouvidos e apoiados nas nossas ideias. O Museu acaba por ganhar com isso, já que nós fazemos de tudo para atrair todos os tipos de públicos, principalmente os jovens como nós.” (Teresa, 22 anos – Estudante de Licenciatura em Estudos Artísticos)

“Há duas razões maioritárias que me mantêm aqui. Primeiro porque temos acesso a artistas em conversas informais. Por isso, a maneira como falamos e exploramos aquilo que queremos saber é completamente diferente. E segundo, porque participamos em várias coisas no museu. E isso permite-nos ver o que é que está por detrás do pano, o que é que se passa, como é que as coisas acontecem. Isso é muito importante para quem está no mundo das artes. Tem sido fantástico até aqui, estou sempre a aprender! Com a ajuda da Filipa e do museu, damos ideias e fazemos as coisas à nossa maneira. Somos nós que tentamos, ao máximo, contribuir com o nosso trabalho.” (Daniela, 17 anos – Estudante de Artes Visuais no Ensino Secundário)

“As mais-valias deste projecto são para mim a possibilidade de contactarmos com pessoas que à partida estão muito distantes de nós, como por exemplo artistas, curadores, designers… É muito importante perceber os percursos deles e perceber que nem sempre foram percursos lineares. Estar aqui no museu, ter acesso a esta realidade permitiu-me perceber muita coisa. É que a museologia teórica que aprendemos na faculdade é uma coisa, estar aqui é outra completamente diferente. As conversas que nós temos com o público que denominamos Conversas Connosco ensinaram-me muitas coisas, entre elas a ter um maior à-vontade para falar em público. A colaboração com os artistas foi também uma das experiências mais importantes para mim, nomeadamente a participação em performance. Aprendi muito no contacto com os meus colegas, que são maioritariamente das áreas das artes, mas de escolas e cursos diferentes. A multiplicidade de perspectivas no grupo contribui de facto para o enriquecimento dos nossos projectos. São projectos que nós pensamos, estruturamos e gerimos durante as nossas reuniões, mas que só são possíveis com a ajuda do museu.” (Teresa, 24 anos – Estudante de Licenciatura em História de Arte)

Mais informações sobre projecto FAZ 15-25 estão disponíveis na internet através de diversos canais, como o Facebook, o WordPress ou o YouTube. São recursos criados pelo colectivo e que podem ser consultados mediante uma pesquisa simples por “FAZ 15-25” num motor de busca como o Google.

Marta Ornelas é doutoranda em Artes y Educación – Pedagogías Culturales en Museos na Universidade de Barcelona. Foi professora de Artes Visuais no ensino secundário e no ensino superior e tem uma especialização em ensino de artes pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, em Lisboa. É licenciada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa e Mestre em Museologia pela Universidade Nova de Lisboa.

É membro da direcção da APECV (Associação de Professores de Expressão e Comunicação Visual) e membro fundador da Acesso Cultura. É também é membro da InSEA (International Society for Education Through Art), da Rede Ibero-Americana de Educação Artística e do GEM (Group for Education in Museums, UK). Coordenou projectos em escolas com a presença de artistas. Participou no projecto europeu ITEMS (Innovative Teaching for European Museum Strategies), com colegas de Itália, França, Hungria, Letónia e Luxemburgo. Coordenou uma equipa de trabalho para uma publicação sobre projectos escolares com museus, a ser editada pelo Ministério da Educação. Tem publicado artigos e apresentado comunicações no âmbito da educação artística e da educação em museus.