CIDOC 2014: Partilha via Facebook – Juliana Monteiro

CIDOC 2014: Partilha via Facebook – Juliana Monteiro

Nota de Alexandre Matos: o seguinte post, inserido no Speaker’s Corner, foi publicado antes no Facebook pela colega e amiga Juliana Monteiro. Assim que o li enviei à Juliana o convite para o publicar aqui no Mouseion e espero que gostem (como eu gostei de o ler), que vos seja útil e que possa suscitar a curiosidade de participar em futuras conferências do CIDOC. Obrigado Juliana pela partilha.

Prezados colegas,

Escrevo este post pois gostaria de compartilhar com todos vocês um pouco do que foi a Conferência Anual do CIDOC, realizada em Dresden/Alemanha durante os dias 6 a 11 de setembro. O tema deste ano foi Networking na Era Digital, buscando apresentar e problematizar o assunto através de diferentes sessões de comunicação, painéis, keynotes, sessões especiais e reuniões dos grupos de trabalho do CIDOC. Trata-se apenas de um post sem maiores pretensões – mais um relato de impressões, a partir do que pude absorver deste importante evento.

Apesar da participação maior de profissionais europeus, em sua grande maioria da Alemanha, Áustria e outros países vizinhos, a Conferência deste ano – segundo o próprio CIDOC – teve um grande número de participantes de vários lugares do planeta, sendo talvez a maior conferência já realizada pelo Comitê em muito tempo. Eram pessoas dos quatro cantos do mundo mesmo, vindo de países como Armênia, Irã, Índia, Zâmbia, Brasil, México, Venezuela, Portugal, Israel, Grécia, Estados Unidos, China, Rússia e por aí vai.

Enfim, gentes diferentes, todos discutindo documentação e gestão da informação, em suas diferentes nuances e temáticas a partir do assunto central. Muitas dessas pessoas (inclusive eu) puderam participar devido ao auxílio de bolsas do Getty Foundation, que vale a pena ser destacado como uma fonte constante de auxílio. Além das múltiplas origens, havia também a variedade de perspectivas sobre o assunto: entre os participantes, havia os acadêmicos, os técnicos da área de TI, os documentalistas, os estudantes que gostariam de entrar para a área. Um universo desafiador, que se refletia bem nos interesses das pessoas em procurar por uma ou outra sessão de comunicação ou de grupo de trabalho.

Particularmente para mim, que fui pela primeira vez, a Conferência foi importante para verificar que não estamos sozinhos aqui em terras brasileiras no que se refere aos tipos de problemas enfrentados. Pois sim: a ausência de programas mais integrados, de ações sistemáticas de documentação, de continuidade de projetos e equipes não é um privilégio só nosso ou dos países da América Latina, África e Ásia. Os nossos colegas europeus também enfrentam situações muito parecidas com as nossas, incluindo também falta de recursos financeiros.

Participei particularmente das sessões de comunicação em que se discutiu a profissão de documentalista de museu e outra, que discutiu os processos de documentação em museus (workflows, sistemas e metodologias de catalogação, etc). Nas respectivas sessões foram apresentados o Programa de Treinamento do CIDOC que realizamos no ano passado e neste, pelo colega Gabriel Moore, e o trabalho de tradução e localização do SPECTRUM para a língua portuguesa, pelos colegas Juliana Rodrigues Alves e Alexandre Matos.

Na sessão sobre as questões profissionais, ficou muito claro que o documentalista dentro do museu precisa, cada vez mais, ter uma formação que o ajude a lidar com o universo digital. Mas, isso não quer dizer que ele deve saber tudo ou dominar tudo – pois isso seria, obviamente, impossível. Todavia, o termo “digital curation” (curadoria digital) tem sido cada vez mais associado ao fazer documental dos profissionais que lidam com a gestão de acervos, fazendo com que eles sejam recolocados numa posição central nos processos decisórios dos museus. Ou seja, o contexto atual exige que curadores, pesquisadores e documentalistas trabalhem em conjunto, pois caso contrário não se saberá nunca como utilizar a informação produzida sobre os acervos de modo que ela seja recuperada, apropriada e difundida amplamente pela internet.

A ênfase também na necessidade de criação de cursos específicos sobre documentação em museus me pareceu uma demanda, bastante presente na fala dos colegas europeus. Isto é: lá, a formação faz com que as pessoas muitas vezes estudem os museus já na pós-graduação, se tornando assim profissionais que buscam postos como pesquisadores especializados ou curadores. Mas, para lidar com as questões práticas do dia a dia e principalmente com os desafios da documentação, ainda não há formação específica nesta área (como foi o caso da Alemanha, por exemplo). E ficou a questão: como seria melhor resolver essa situação? Com cursos periódicos ou mestrados exclusivos sobre o tema? Questões para pensar…

CIDOC

Foto: Fabio Mariano Cruz Pereira, 2014.

No que se refere à sessão dos processos de documentação, foi interessante conhecer projetos como o AZ Infinitum, que apresenta a catalogação de azulejos em Portugal e possui uma metodologia muito interessante de abordagem dos espaços e deste tipo de material. Outro ponto interessante foi conhecer a experiência realizada pela Finlândia na localização do SPECTRUM. Questões bem parecidas com as enfrentadas pelo grupo do projeto SPECTRUM PT, que ao menos mostraram que temos mais gente nesse barco, com as mesmas dúvidas e proposições para o futuro. As imagens abaixo mostram um pouco deste momento:

CIDOC - SPECTRUM CIDOC - SPECTRUM

 

Fotos: Juliana Monteiro, 2014.

A Sessão Especial sobre o SPECTRUM, da qual também participei, permitiu conhecer mais da experiência dos noruegueses, que estão estudando a tradução e localização da norma. A metodologia utilizada por eles para diagnosticar o grau de pertinência da norma frente à realidade dos museus daquele país foi realmente interessante de conhecer!

Por último, dois pontos me chamaram também a atenção:

1)o projeto que está sendo proposta pelo Documentation Standards Working Group de criação de um dicionário e um glossário sobre prática de museus. O objetivo é apresentar outras visões sobre termos relacionados ao cotidiano da área, servindo assim como mais uma referência de trabalho. Quando questionado sobre a sobreposição desta publicação (que será feita em formato Wiki) com a “Conceitos Chave de Museologia”, o coordenador do WG disse simplesmente que esse dicionário e glossário não se pretende O dicionário, mas apenas ser mais um instrumento de trabalho – uma opção a mais para o profissional de museu. Talvez tenhamos algo bem interessante saindo disso – e já fizemos questão de garantir a língua portuguesa lá no meio! Quem quiser saber mais sobre isso, vale entrar no grupo do CIDOC no LinkedIn.

2) A criação de um novo Working Group, dedicado exclusivamente ao tema “patrimônio imaterial”. Eu não cheguei a participar das reuniões deste novo WG, mas também parece algo que merece ser acompanhado bem de perto, para saber como o CIDOC vai lidar com esse tema e, em paralelo, com a discussão sobre ontologias, websemântica e representação de conteúdo.

Para terminar esse loooongo post, fica a impressão de que o assunto “documentação em museus” têm mesmo se aproximado cada vez mais da questão central da gestão da informação sobre os acervos. E, como a Tanya Szrajber, do Museu Britânico, destacou na última keynote da Conferência (imagem abaixo), no final não importa que você, enquanto profissional/instituição, não domine todos os padrões, normas, ou tenha mesmo o melhor banco de dados do mundo. Desde que a preocupação com a gestão da informação sobre os acervos envolva uma sistemática, continuidade, lógica e organicidade, então ela estará sendo bem feita. E isso foi um alento, pois é sempre bom ouvir que há esperança no fim do túnel!

CIDOC

Foto: Juliana Monteiro, 2014.

A próxima conferência anual do CIDOC se realizará em Nova Délhi, na Índia. Ainda sem data certa, mas provavelmente em setembro de 2015, no The National Museum Institute of the History of Art, Conservation and Museology. Quem se interessar, vale a pena ir acompanhando o site do CIDOC para saber as datas e se programar.

Com certeza, foi uma experiência e tanto, que ainda estou tentando apreender na sua totalidade (rs). Isso também pela oportunidade de conhecer outras realidades, mas principalmente pela chance de conhecer pessoas, compartilhar experiências e abrir a cabeça para outras ideias e perspectivas.

Juliana Monteiro

São Paulo, Brasil – 18/09/2014

Juliana Monteiro é graduada em Museologia pela Universidade Federal da Bahia, especialista em Gestão Pública pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e mestre em Ciência da Informação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Atuou como museóloga do Museu da Energia de São Paulo/Fundação Energia e Saneamento e, desde 2008, trabalha na Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Entre as suas atividades, está a coordenação do Comitê de Política de Acervo dos Museus da Secretaria e a administração do Banco de Dados de Acervo do mesmo órgão. Desde 2010, é professora do curso técnico de Museologia da ETEC Parque da Juventude/Centro Paula Souza, ministrando aulas sobre documentação e ética profissional. É membro do CIDOC-ICOM e da Comissão Editorial da Coleção “Gestão e Documentação de Acervos: textos de referência”, que publicou neste ano as traduções das Categorias de Informação do CIDOC e a norma SPECTRUM 4.0, em conjunto com parceiros portugueses Alexandre Matos e Museu de Ciência da Universidade de Coimbra.

Museus nas Redes Sociais. Guia Básico Para uma Futura Co-Participação Sustentável – Sandra Senra

Museus nas Redes Sociais. Guia Básico Para uma Futura Co-Participação Sustentável – Sandra Senra

Dando resposta ao desafio lançado por Alexandre Matos, no sentido de contribuir para o crescimento do seu Speaker´s Corner, e desde já agradecendo o convite que me dirigiu há quase um ano, optei por apresentar o meu contributo com uma temática sobre a qual tenho dedicado maior atenção desde há cerca de dois anos e meio para cá (e porventura de alguma forma previsível para o autor deste blogue), que se relaciona com as potencialidades que as redes sociais podem oferecer às instituições museológicas.

O conceito não é novo. Tem vindo a ser repetidamente proferido por reconhecidos palestrantes em infindáveis encontros, seminários e conferências. Já para não mencionar as incomensuráveis teses e artigos que dissecam a temática. Um lugar comum, como reiteradamente  e comummente o nominamos. As novas tecnologias transformaram a forma como vivemos e percecionamos o mundo. Uma afirmação que é uma inevitabilidade e à qual dificilmente nos podemos opor. E aqui podem inserir-se não apenas os engenhos utilitários, que nos descomplicam o dia a dia das nossas tarefas, mas da mesma forma aquele novo mundo dotado de ubiquidade a que apelidamos de Internet. E, na atualidade, não podemos falar de Internet sem versarmos sobre o tema das redes sociais, ou social media, um fenómeno vertiginoso que potenciou a conectividade e interatividade relacional entre usuários virtuais e sobre a forma como estes passaram a adquirir, a gerar e a partilhar informação.

O tema da utilização das redes sociais em museus é discutido há quase uma década (ou até há mais), mas persiste em captar o interesse de inúmeros investigadores por todo o mundo, que a este nível partilham e explanam os diferentes modelos de atuação dos museus aderentes. Por outro lado, continua a fomentar o surgimento de inúmeras plataformas de discussão online, que certificam as potencialidades destes novos instrumentos de comunicação e de partilha, gratuitos ou de baixo custo. Do mesmo modo, também as próprias instituições museológicas passaram a divulgar a originalidade dos seus programas desenvolvidos nestas plataformas, quer em apresentações públicas, quer nos seus próprios websites ou blogues de discussão, demonstrando as suas valências, mas igualmente as suas debilidades de utilização, por meio da apresentação de registos de avaliação, quer quantitativos como qualitativos.

A primeira questão que se pode colocar: qual o verdadeiro contributo das redes sociais para as instituições museológicas? As redes sociais são hoje plataformas singulares que convidam e agregam comunidades distintas, incitando-as a criar laços de amizade, a discutir as mais variadas temáticas, a gerar ideias e a produzir conteúdos diversificados, em formato de texto, fotografia, vídeo ou áudio. E é nessa diversidade de participação que reside a riqueza do conhecimento e da aprendizagem. Assim sendo, marcando presença nas redes sociais, os museus podem: aproximar a instituição das comunidades online por meio de uma conversação próxima; promover a participação das comunidades online, de forma multidirecional, interativa e colaborativa, considerando as suas representações heterogéneas; permitir a partilha de experiências e a construção de novos conceitos – inspirar os seus públicos; possibilitar a disponibilização e a receção de conteúdos em vários formatos; fidelizar públicos e construir novas comunidades; e também publicitar e divulgar conteúdos institucionais de uma forma massiva, dando resposta aos usuários virtuais interessados, por exemplo, nas suas exposições, programas, atividades ou conteúdos que disponibilizam, normalmente relacionados com as exposições e coleções, apenas acessíveis aos visitantes in loco.

A segunda questão que se pode colocar: quais são as principais características destas redes e como podem as instituições museológicas utilizá-las? Nos últimos anos têm surgido infindáveis plataformas de comunicação multidirecional, sendo que entre as mais populares encontramos o Facebook, o Twitter, o Flickr, o YouTube, o LinkedIn, o Delicious, o SlideShare, o Issuu, os Blogues, as Wikis, o Foursquare, o Pinterest ou o Instagram. E são já muitas as instituições culturais por todo mundo que as utilizam como forma de potenciar a sua missão e objetivos. Estes organismos souberam compreender as suas potencialidades, não só pelo seu poder de alcance, mas igualmente pela possibilidade de poderem encetar uma conversação instantânea e permanente com os seus públicos e com eles partilhar e coproduzir novos conteúdos de informação e de debate. Importa, por isso, conhecer algumas dessas plataformas e compreender quais os proveitos que um museu pode alcançar com as particularidades de cada uma delas, para que no momento que seja eleita a rede na qual pretende estar presente, possam ser conhecidas as suas potencialidades e de que forma estas podem auxiliar o museu a dar cumprimento ao seu objetivo.

O Facebook permite publicar e partilhar textos, vídeos, imagens, mas também aprovar com “Gosto” os conteúdos de interesse. A interação é imediata e há a possibilidade de mediação nos conteúdos. Os museus podem utilizar esta plataforma para encetar uma conversação e discussão crítica com os seus usuários associados (amigos ou fãs), mas também como meio de interação e de partilha de ideias, que podem assumir um formato formal ou informal. O museus podem ainda divulgar os seus conteúdos institucionais, as exposições, as atividades, recentes e futuras, e demonstrar a dinâmica interna da instituição, por meio de fotos ou vídeos. O perfil empresarial (fan page) é aquele que mais se adequa às instituições culturais, pois não tem restrição no número de fãs, ao contrário da páginas de perfil pessoal, cujo limite é de cinco mil amigos.

O Twitter consiste num serviço de envio e publicação de mensagens instantâneas, com um número limitado de carateres, o máximo de 140, a que se designam tweetts. Os usuários deste serviço além de poderem publicar, têm a possibilidade de subscrever (ou seguir) publicações de outros usuários, comummente designadas por tweeps, e cujo conteúdo pode ser tornado público ou privado, de forma rápida e direta. Podem também fazer retweet, ou seja, replicar mensagens dos seus seguidores que considere interessantes, no sentido de partilhá-las com todos. Quando os usuários têm temas de interesse comuns e não querem perder informações sobre os mesmos, precedem a palavra do tema em questão com o símbolo #, denominado por hashtag. Os museus podem utilizar esta plataforma para divulgar instantaneamente as suas atividades. Têm também a possibilidade de fazer retweet a conteúdos interessantes publicados por outros usuários e seguir as suas publicações, tweeps, que podem relacionar-se, ou não, com a própria instituição.

O Flickr permite que os seus usuários armazenem fotografias, documentos gráficos ou vídeos, com vista à sua visualização e partilha com outros utilizadores. Os conteúdos são arquivados por meio de etiquetas, designadas por tags. Os museus utilizam esta plataforma para realizar intercâmbios de fotografias com os seus seguidores, muitas relacionadas com o edifício do museu, com as exposições ou atividades educativas que desenvolve, de um ponto de vista mais institucional ou informal. Podem também ser criados grupos com temas específicos para dar voz aos seus diferentes públicos.

O YouTube está ligado à comunicação audiovisual. Permite a publicação, visualização e audição de vídeos, pessoais, musicais, filmes, programas de televisão, etc. Nesta plataforma, os seus usuários podem interagir por meio de partilha de vídeos e de comentários aos mesmos. Os museus no YouTube podem interagir de forma imediata com os seus usuários através de comentários. Podem ainda publicar vídeos produzidos por si, quer sejam oriundos das conferências onde participa ou sobre as suas ações, como sendo das exposições, dos artistas, dos curadores, das obras, das atividades educativas, etc.

O LinkedIn consiste numa rede profissional para pessoas individuais, empresas e grupos de discussão. Os seus usuários podem associar-se diretamente a outros indivíduos, mas também a grupos específicos, de acordo com os seus interesses profissionais e conhecimentos que pretendem adquirir. Por outro lado, podem também procurar pessoas, oportunidades de trabalho recomendadas ou transformar-se em potenciais candidatos para determinados empregadores, que previamente avaliam o seu perfil público. O LinkedIn possibilita ao museu criar o um perfil com a sua missão, objetivos e interesses, e associar-se aos usuários da plataforma, dentro do mesmo âmbito profissional ou não. Permite que as instituições, sob a forma de membros, empresas ou grupos da mesma área, estabeleçam relações profissionais.

O Delicious alicerça-se no conceito de social bookmarking, que permite a gestão de endereços eletrónicos, que primitivamente eram armazenados nos computadores pessoais. Esta plataforma permite colecionar conteúdos da Web, sejam eles vídeos, fotografias, twetts, post ou artigos, e organizá-los por temáticas com diferentes designações (folksonomia – terminologia relacionada com a classificação livre de conteúdos), com vista à sua publicação e partilha com amigos usuários, que poderão participar, de igual forma, no crescimento dos conteúdos publicados, através do intercâmbio de informações. Um museu com Delicious pode compartilhar conteúdos através de bookmarks e os utilizadores dessa ferramenta podem permutar opiniões ou informações acerca dos conteúdos disponibilizados, sobre, por exemplo, temáticas relacionadas com as suas atividades. A popularidade do Museu pode ser determinada pelo maior ou menor número de tags (etiquetas) que possui.

O Slideshare possibilita a publicação de trabalhos em formato PDF, Word, OpenOffice ou de diapositivos PowerPoint ou Keynote. Estes conteúdos podem ser partilhados de forma pública ou privada. Os utilizadores de Facebook podem aceder sem necessitar de registo. Alguns museus utilizam esta rede para colocar online os PowerPoint que apresentam em conferências ou apresentações públicas sobre o museu e as suas ações, permitindo a sua leitura virtual e a possibilidade de as descarregar.

O Issuu permite a publicação digital de documentos em diversificados formatos, com vista à sua partilha para leitura virtual, à semelhança do Slideshare, mas também à sua descarga ou impressão. O Issuu permite folhear o documento virtualmente, sejam revistas, livros, jornais, catálogos, etc., de forma muitíssimo realista. Os usuários que pretendam consultar algum dos documentos referidos a partir do seu telemóvel, podem fazê-lo por meio de uma aplicação. Os museus utilizam o Issuu para publicar documentos com conteúdos sobre as exposições, artistas, obras e atividades educativas que desenvolvem, permitindo que todos tenham o acesso às mesmas.

Os Blogues possuem características que se assemelham às de um diário. Permitem a inserção de artigos diversificados, designados comummente por posts, sendo que a sua disposição se organiza por data de publicação e categoria dos conteúdos introduzidos, que podem assumir a forma de texto, imagem, vídeo ou links de páginas da Web. Os Blogues podem subsistir do ponto de vista unipessoal, mas igualmente corporativo. Ambas as tipologias possibilitam a participação ativa de outros usuários, conhecidos por bloguers ou bloguistas. Os Blogues podem ser utilizados pelos museus no sentido da divulgação dos conteúdos relacionados com as suas atividades, exposições ou de difusão da dinâmica interna do museu, mas também devem ser utilizados como plataforma de discussão crítica ou de acesso a outros temas de interesse, relacionados ou não com o perfil do museu, por meio de RSS (Rich Site Summary).

Nas Wikis a construção dos conteúdos é feita de forma colaborativa por internautas. Os seus colaboradores usuários podem criar, modificar ou apagar conteúdos produzidos, por forma a torná-lo credível. A plataforma mais conhecida que se fundamentou neste paradigma é a Wikipédia, uma enciclopédia coletiva que tem vindo a melhorar os seus conteúdos nas suas mais diversas temáticas. Alguns museus já conseguiram entender o poder da Wikipédia, apesar da inexatidão de muita informação que ali é colocada. Para evitar equívocos e imprecisões, e no sentido de contribuir para a correção dos conteúdos, os museus começaram a colocar as informações sobre a instituição e coleção (conteúdo histórico, artístico, cultural, geográfico, etc.), para que a informação passasse a ser oriunda de fonte fidedigna.

O Foursquare possibilita aos seus usuários procurar, localizar e compartilhar locais específicos com amigos usuários perto de um local onde se encontram, por meio de uma aplicação com um sistema de georeferenciação para ser implementada em serviços móveis. O Foursquare é muito utilizado como guia gastronómico e cultural. Nesta rede social, os usuários têm possibilidade a introduzir opiniões e recomendações sobre o que visitaram e contribuir para a partilha de informação e de experiências. Alguns museus utilizam esta rede, no sentido de serem mais facilmente localizados por visitantes ou turistas que possuam essa aplicação nos seus dispositivos móveis.

O Pinterest permite que os seus utilizadores publiquem as fotografias que produzem, por forma a que as mesmas sejam partilhadas com outros usuários. As fotografias podem ser organizadas por álbuns de coleção temáticos (boards) e com informação acrescida. Os usuários desta rede podem interagir com outras comunidades em rede através do Twitter e do Facebook. Os museus podem fazer uso desta plataforma, organizando as suas coleções com informação sobre as mesmas e armazenando-as por conteúdos temáticos, com a finalidade de partilhá-las com todos os utilizadores.

Por fim, o Instagram possibilita a colocação online de fotos a partir de dispositivos móveis, facilitando a inserção de vários filtros fotográficos, sendo que a sua publicação nas redes sociais é instantânea. Os museus podem fotografar as suas coleções ou as atividades a decorrer nesse instante nos seus espaços, por meio deste tweett fotográfico, e publicar nas redes sociais a que estão associados, para que as mesmas possam ser divulgadas e comentadas.

A terceira questão que se pode colocar: quais são as premissas a ser consideradas antes da adesão das instituições às redes sociais? É importante que a instituição museológica defina muito bem os objetivos que pretende atingir com as redes sociais. E estes devem anteceder a adesão às mesmas. É certo que existe um certo constrangimento da sociedade para que as instituições estejam presentes nestes espaços de conversação, todavia se a instituição possui uma estrutura reduzida que não garanta o futuro da interação e conversação, o propósito da presença nas redes sociais anula-se. É, por isso, necessário preceder a adesão às redes com uma estratégia sustentável, que deve conciliar-se com próprios recursos da instituição. Assim, os museus devem refletir primeiramente sobre as seguintes questões.

1. Que motivações e contextos conduzem o museu a aderir às redes sociais?

2. Serão reposicionados os princípios e os valores da missão e objetivos do museu? De que forma?

3. Que departamentos vão estar envolvidos na elaboração da estratégia e na continuidade do projeto quando implementado? Haverá uma relação interdepartamental?

4. Qual o grau de participação das comunidades externas na construção da estratégia?

5. Como funcionará a gestão futura das redes? Quem irá  realizar a manutenção, atualização, criação, moderação e aquisição de conteúdos? Que tipo de conteúdos serão publicados? Qual o horário de publicação? Que idiomas? A publicação será diária ou faseada? Como serão recepcionados e avaliados os conteúdos produzidos pelos usuários? Como responder aos associados? Como incentivar à participação? Como reconhecer os erros da instituição? Como fazer a avaliação global desta participação, considerando os aspetos valorizáveis e os constrangimentos do programa, para poder reajustá-lo?

6. Que estratégias serão concebidas para encorajar as comunidades a participar?

7. A comunidade pode participar? De que forma? Essa informação é arquivada? De que forma?

8. A equipa contempla um gestor de comunidades mediador? Como será feita a mediação?

9. Haverá algum grupo preferencial a atingir? Qual ou quais?

10. De que forma será feita a avaliação dos impactos dessa participação?

11. Que benefícios o museu pretende alcançar com a participação das comunidades online?

Quarta, e última,  questão que se pode colocar: quais os fatores que possibilitam o sucesso dos museus nas redes sociais? A solução para o êxito dos museus nas redes sociais reside na necessidade verdadeira e despretensiosa em interagir com as comunidades online. É importante, por isso, que haja um consenso entre os valores do museu e os objetivos que pretende alcançar; que se eleja a ferramenta ou ferramentas que mais se enquadrem às necessidades do museu, para que haja sustentabilidade nas mesmas; que se considerem os recursos humanos e o tempo disponibilizado para se estabelecer a interação multidirecional; que se definam os limites da participação pública, sobre a forma, por exemplo, de um Termo de Utilização de determinada rede; que se estabeleça uma efetiva conversação com as comunidades, considerando os seus significados em relação a quaisquer conteúdos publicados pelo museu; que se considere a coparticipação, cocriação, co-curadoria, co-programação, no sentido de se valorizar as necessidades, experiências, histórias de vida, memória coletiva das comunidades online; que se construam programas específicos para diferentes grupos-alvo, pois programar para uma audiência abstrata é contraproducente, uma vez que museu pode não ter a capacidade de seguir e responder a todos os seus elementos;  que se implemente um modelo de gestão da equipa e dos conteúdos sustentável (dias e horas específicas para publicação, conversação etc., na eventualidade de não poder estar sempre online e assumi-lo publicamente em cada uma das plataformas); considerar a presença de um gestor de comunidades mediador, que deve ser conhecedor de algumas estratégias de marketing para cada uma das redes, mas também do marketing relacional (a propósito destas questões do marketing, existe uma imensa bibliografia sobre estas temáticas, como também são cada vez mais frequentes em ações de formação que auxiliam os museus nestes domínios); muito importante será também a avaliação dos sucessos e insucessos da instituição nas redes, com a finalidade de melhorar a atuação da mesma, o que implica que esta reconheça os seus erros; por fim, o museu deve saber aceitar que pode aprender e reaprender com os seus públicos e, assim, fazer parte da experiência da cidadania responsável, do serviço público e da cultura partilhada.

Cada instituição deverá avaliar como pretende estar online. Se existem muitos autores que defendem que estas podem e devem estar presentes em todas as redes sociais existentes, para que a capacidade de alcance dos conteúdos que a instituição disponibiliza seja amplificada, pessoalmente entendo que para se estabelecer um compromisso relacional online, que se espera que seja personalizado, fazer parte de todas a plataformas que pertencem ao universo 2.0 conduz ao padecimento e à dispersão desse diálogo. Sobretudo se considerarmos um museu com recursos humanos limitados. A génese das redes sociais consiste na interação multidirecional, que se espera que tenha significado para ambas as partes. Desse modo, mais importante do que ter um número infindável de amigos, para constar de páginas de ranking nacionais ou internacionais (ainda que seja esta uma das premissas que, infelizmente, tem determinado o valor de uma instituição), entendo que será mais valorizável considerar os valores e os significados gerados nessas redes entre a instituição e as comunidades, que se podem enquadrar nos princípios e valores da cultura repartida e da cidadania responsável, o que implica programar as suas ações com objetivos e sustentabilidade.

Sandra Senra

Alguns dos itens desenvolvidos no presente artigo de opinião resultam de uma investigação desenvolvida entre 2011 e 2012 que procurou avaliar a presença dos museus de Barcelona nas redes sociais, tendo sido particularizada a atuação do Museu D’Art Contemporani de Barcelona neste âmbito. Para mais informações:

SENRA, Sandra (2013), We Like MACBA. O Museu D’Art Contemporani de Barcelona e o Paradigma das Ferramentas Web 2.0 Utilizadas em Benefício do Compromisso Cívico. Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras. Disponível em: http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/66350

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© Imagem: Social Media Explained By Rocketfish Ltd

Sandra Senra – Licenciada em História da Arte (2004) e Mestre em Museologia (2012) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi Técnica Superior de História da Arte na Divisão de Património Cultural da Câmara Municipal do Porto, onde realizou o inventário da Arquitetura Religiosa Portuense e o inventário dos Elementos Cerâmicos, Decorativos e de Revestimento. Ainda no seu percurso profissional exerceu funções de curadora e gestora de eventos e exposições. Desempenhou funções de docente das disciplinas de História e Geografia de Portugal e de Língua Portuguesa. No âmbito do Mestrado em Museologia realizou um estágio curricular na Casa-Oficina António Carneiro e um estágio profissional no Museu Marítim de Barcelona, tendo em ambos desenvolvido um estudo e inventário de uma coleção de Pintura. Coordenou cientificamente o 3.º Volume da Monografia Digital Ensaios e Práticas em Museologia e atualmente administra e gere a plataforma Museologia.Porto.
Desde el Registro: las colecciones digitalizadas. El Registrador-Curador de Contenidos – Fernando Almarza Rísquez

Desde el Registro: las colecciones digitalizadas. El Registrador-Curador de Contenidos – Fernando Almarza Rísquez

La digitalización de colecciones museísticas, y su disposición pública en la web, genera un cuerpo de imágenes e informaciones relacionadas o “Contenidos”. Aquí interviene la figura del Curador de contenidos, involucrado más en el proceso de gestión de estos Contenidos que en la Curaduría clásicamente entendida. Este proceso gestiona informaciones y entradas Referenciales hacia esos Contenidos digitales.

Pero una atenta reflexión hace ver que el proceso de Curaduría de contenidos no se gesta ni opera únicamente en el nivel de ese imprescindible Curador, pues comienza desde la instancia del Registro de las colecciones. Consideremos aspectos que nos lleven hacia la figura del Registrador-Curador de contenidos: un Registrador que reflexiona sobre los paradigmas del museo en la actualidad, y sobre la digitalización de las colecciones y sus consecuencias positivas para usuarios y audiencias.

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Al gestionar colecciones museísticas, recordemos que todo objeto material conocido, cultural-artístico, científico-tecnológico o natural, tiene su nomenclatura y significa o puede ir significando algo. Y todo objeto tiene una triple dimensión: lo físico, lo que significa y el contexto; este último opera sobre las condiciones de lo que potencialmente puede ir significando. Ya he escrito sobre eso al hablar de un Registrador de colecciones crítico y pensante, y al hablar del contexto, en este artículo, y en el aparte “La importancia de la contextualización”, de este otro artículo.

En el Registro y Catalogación de colecciones museísticas esa triple dimensión se incorporada como información para los datos técnicos de cada ítem, abierta y evolutivamente: se registran los objetos y sus dimensiones físicas, más sus dimensiones de significación real y potencial. Se registra lo material, lo técnico, y su “aura” inmaterial. Los objetos no son neutros ni exentos de significado y contexto, de allí la importancia de Referencias que guían la entrada a esa información devenida en Contenidos, detonando potenciales narrativas de interpretación y curaduría por parte del museo y del público. Por ello debemos pensar en unos Contenidos abiertos y evolutivos, pues esos datos técnicos ampliados y esas Referencias generan los Contenidos.

No menos importante es la relación que hay entre las Referencias y el Contexto (también constituyente de los Contenidos), pues la potencia de éstos, pues citando a Néstor García Canclini, este Contexto “no se limita a la asignación de términos o conceptos ya hechos, como “cultura nacional”, “folclore”, “ciencia”, etc. Estas son más bien un mapa del terreno en el que discurren y van cambiando sus términos. Esto implica que las referencias detectan y recogen alguno de los puntos en los que un sentido o significación surgió en un objeto cultural, y también los otros puntos en los que se comparte socialmente, y cómo se puede seguir transformando ese sentido”. (García Canclini, véase. Negritas mías).

Por cierto, es paradójico que en los objetos materiales los significados, actuales o potenciales, conforman un “cuerpo” inmaterial, que se consustancia con aquellos objetos considerados inmateriales (oralidades, relatos, trascendencias, simbolizaciones, identidades). Aquí parecieran quedar borradas las fronteras tradicionales entre “patrimonio material” y “patrimonio inmaterial”; todos devienen entonces inmateriales aun cuando esa inmaterialidad, en tanto que información, se desprenda de la contundencia material de los objetos culturales-artísticos, científico-tecnológicos y/o naturales; conforman las otras dimensiones que todos los objetos tienen, en las que significan real y potencialmente. Esa “inmaterialidad final”, esa información, es la esencia de los Contenidos, que ya vienen siendo gestionados y (pre)curados desde el Registro de las colecciones.

En tanto que información disponible, ésta llega a las audiencias como comunicación: se ha pasado del objeto a la comunicación del mismo y a la recepción de esta comunicación por parte del público usuario. Aunque es pertinente aclarar que esa comunicación nunca sustituirá la contemplación o la experiencia presencial del objeto, aunque con ella se abren alternativas avenidas de Referencias de acceso, compartición de Contenidos y bien entendidas reapropiaciones.

Recientemente escribí una referencia sobre ello en colecciones naturales, y otra en colecciones artísticas (actualmente en prensa: Walter Benjamin reconsiderado: del Aura perdida al High Resolution). También publiqué sobre la tendencia hacia la digitalización de colecciones, que parte de grandes consideraciones, algunas acaso controversiales, pero de consecuencias positivas para el museo y sus audiencias. Estas reflexiones son imprescindibles en la gestión de colecciones, en el proceso que va desde el Registro hasta la digitalización y la Curaduría de sus contenidos. Es gestión de colecciones, de Contenidos digitales, y de Conocimiento, pues es la información generada por las colecciones transformada en Referencias de conocimiento útil e información disponible para todos.

El Registrador se involucra a fondo con las informaciones, documentos, gestión, depósito y seguimiento de las colecciones del museo, y comparte conocimiento y acciones con la instancia de Conservación, ya que es en parte un Conservador preventivo. Y también se involucra con la gestión y (pre)Curaduría de contenidos. Es aquí donde el Registrador actúa, detectando, leyendo y gestionando también esa ya referida múltiple dimensión de los objetos; este funcionario museístico es muy activo en la Curaduría de Contenidos que nos ocupa[1].

Destacando integraciones y correspondencias entre el Registrador de Contenidos y el Curador de Contenidos, refiero el artículo del uruguayo Ariel Barrios “De qué hablamos cuando hablamos de curación de contenidos en los museos”, publicado este mes de agosto en su blog. Buena parte de las consideraciones que hace Barrios al hablar de Contenidos está presente en lo que postulan las ya mencionadas entradas Referenciales a los objetos, asignadas desde la instancia de Registro y Catalogación de las colecciones. Estas integraciones y correspondencias son una feliz y útil coincidencia. En cuadro comparo las consideraciones de uno y otro sobre la potencia de los Contenidos y las Referencias, citando a Barrios y a textos míos (negritas mías).

Curador de Contenidos y sus Referentes…

Registrador-Curador de Contenidos y sus Referencias…

[los] contenidos [son] no solo (…) los objetos de una colección, sino también [las] significaciones (actuales y potenciales) y contextos socio-culturales que a su vez implican modos de significar. Acercan al lector con los bienes de la colección, posibilitando simultáneos y diferentes niveles de significación, interpretación y contexto, individual y grupalmente.
Los contenidos son la estrella del momento. Su protagonismo crece a partir de la importancia que adquieren en las organizaciones para atraer, fidelizar, establecer relaciones con el público (…), [pues] permiten conocer que [sic] están haciendo de interesante otros museos o instituciones culturales aumentando el conocimiento sobre prácticas en el área. Permiten la visita virtual o presencial al museo cuyas colecciones generen muchas Referencias de entrada, “pistas” sobre objetos materiales, actitudes, gestualidades, roles sociales, y estilos o períodos históricos del arte, ciencias naturales, tecnología, valores, ideas, significaciones, usos, identidades.
(…) toma presencia la curación de contenidos, un proceso que integra varias acciones tendientes a filtrar, reunir, organizar y compartir contenidos digitales de interés sobre una temática. Su presencia fue determinante para construir narrativas, definir colecciones y establecer circuitos. Dan lugar a potenciales narrativas, interpretaciones y curadurías, o a un estudio individual de estudiantes de básica, media o universitaria, o a profesionales, curadores, críticos, antropólogos, arqueólogos, etnólogos o historiadores.
Se convierten en un referente en el área temática, visitar tus sitios por lo que tienes y por aquello que referencias, Son Referencias y temas abiertos para que un retrato pueda verse más que como un “Retrato”, y un objeto o un hueso más que un “Objeto” o “Hueso”, dando paso a imprevisibles sentidos, a partir de un término específico.
posibilitan una imagen de apertura al incluir otras voces, Se constituyen en herramientas de instrucción para llevar por medio de canales de receptividad a los observadores de los objetos hacia alternativas voces y nuevas verdades, sin controversia con las verdades tradicionales ya establecidas.
logra aumentar la empatía con las audiencias de la actual generación digital, acostumbradas a brindar valor a las prácticas de compartir información. Estimulan la imaginación, la discriminación y provocan el compartir el pensamiento crítico, promoviendo simpatía hacia los bienes ya no vistos ya como algo sacrosanto y de significados crípticos, sino que respondan a múltiples lecturas por parte de todos.
(…). Dan más visibilidad, si agregas contenido externo, seguramente otras instituciones te mencionarán y podrás aumentar el alcance de tu audiencia, [generando] mayor conversación, feedback y esto logra mejores relaciones. Ayudan a pensar desde lo conocido y visible de los objetos hacia lo desconocido de ellos, desde sus apariencias visibles, adentrándose en instancias subjetivas y espirituales,
Evaden prejuicios sobre “el arte”, las ciencias u objetos cualesquiera, abriéndose a nuevas verdades de apreciación, esforzando al pensamiento por medio de sugerencias y sugestividades, estimulando disposición receptiva y la memoria de significación e interpretación de la colección.

 

Destaco este paso inicial del Registro en la gestión referida, pues la asignación de significaciones comienza desde el momento en que el objeto de la colección es registrado, dando lugar a su catalogación y relación con los demás objetos de la misma. La mediación, detonación, estímulo y construcción de narrativas curatoriales potenciales ya referidas, y que también cito de Barrios, comienza acá.

En la actualidad se discuten terminologías de investigación y su relevancia para los sistemas de Documentación y Registro en los museos. Dentro de esas estrategias terminológicas se encuentran los términos de entrada o Referencias que forman parte indispensable de los Contenidos. El museólogo francés François Mairesse (a quien en líneas atrás referí) anda tratando el asunto, y así lo planteó en la reciente Conferencia General del ICOFOM celebrada en Río de Janeiro en este mes de agosto. Un porvenir optimista y de gran utilidad museística y social le espera a lo que planteamos en estas líneas.


[1] En otros escritos y cursos basados en mi experiencia profesional, desarrollo la noción de las Referencias y del Registrador Pre-Curador, que responde a las consideraciones referidas al comienzo de estas líneas, y a otras más extensas cuya extensión escapa a los alcances de este artículo.

Fernando Almarza Rísquez – Licenciado y MSc en Historia y Teoría del arte, más cursos de postgrado en Museología y Epistemología. Experiencia museistica desde 1986, como Registrador de colecciones, y asesor para esta área desde 1993. Docente universitario y articulista sobre temas museológicos. Profesor en el INSTITUTO LATINOAMERICANO DE MUSEOS de San José, Costa Rica, y Editor de la sección “Conversemos sobre…” de su website.

Co-fundador y co-editor del blog multilingüe Registrador Trek La Nueva Generación.
A distância que os separa – Maria Vlachou

A distância que os separa – Maria Vlachou

O Rijksmuseum disponibiliza 125.000 imagens de alta resolução de obras da sua colecção no Rijksstudio, uma secção interactiva no seu website que permite a qualquer pessoa descarregar estas imagens de grande qualidade para os fins que entender. O objectivo do Museu é adicionar todos os anos 40 mil novas imagens até disponibilizar online a colecção inteira. Lê-se num artigo no New York Times que, consciente da cada vez maior dificuldade em controlar a circulação e uso de imagens na Internet, o Museu, em vez de se agarrar a práticas, exigências e controlos de uma era que passou, considera de maior importância adaptar-se à nova realidade e procurar garantir a qualidade das imagens em circulação. Considera ainda que esta é mais uma forma de relacionamento entre as pessoas e a colecção. O Rijksmuseum pede aos utilizadores para se absterem do uso comercial das imagens, disponibilizando para compra fotografias com uma resolução ainda melhor. Através do mesmo artigo no New York Times, ficamos a saber que a National Gallery e o Smithsonian Institution seguem o mesmo caminho do Rijksmuseum.

Em França, a total proibição da fotografia no Musée d´Orsay (por razões questionáveis, como se poderá ver aqui) levou à criação de um movimento cívico, chamado Orsay Commons, que, através de acções que contrariam as regras instituídas, procura afirmar a oposição dos cidadãos perante a posição de um museu público que impede o acesso à colecção e pretende “ensinar” ao visitante a forma “aceitável” de se olhar para uma obra de arte.

Neste ambiente de debate aceso, a nível internacional, sobre a prática da fotografia nos museus, um debate que é exigido pela emergência de uma nova realidade, em constante desenvolvimento, no ciberespaço, à qual é preciso (urgente mesmo) os museus adaptarem-se, o Secretário de Estado da Cultura português apresenta-nos o Despacho nº 6891/2013, de 28 de Maio, relativo ao Regulamento de Utilização de Imagens de Museus, Monumentos, e outros Imóveis afectos à Direcção-Geral do Património Cultural. E assim, lê-se no despacho que “O presente Regulamento aplica-se a toda e qualquer utilização de imagens relativas aos edifícios e acervos dos Museus, Monumentos e outros imóveis afectos á DGPC, independentemente dos respectivos objecto, suporte e correspondentes formatos, finalidades e contextos de utilização.” (1.1); que “Os pedidos de cedência de imagens, captação de imagens e de filmagens devem ser formulados com uma antecedência não inferior a 15 dias.” (2.1), o que inclui “Os pedidos de captação de imagens (fotografias e/ou filmagem) para fins estritos de divulgação, sem fins comerciais…” (2.1.2); somos ainda informados (‘avisados’, diria) que “Qualquer utilização de imagens diversa da prevista no presente Regulamento, configura desrespeito pela legislação de enquadramento, designadamente o Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, sendo passível de acção cível por parte da DGPC.” (3.7).

Uma das primeiras dúvidas que se me levantou foi o que é que se entenderá por “divulgação” neste despacho. Estaremos todos nós, que em websites, blogs e redes sociais, escrevemos sobre museus, partilhamos notícias sobre actividades e iniciativas, falamos de experiências vividas em âmbito profissional ou privado, fazemos críticas e comentários, todos nós que damos formação a profissionais da área, a prejudicar o Estado? Estaremos a prejudicar o cumprimento da missão da DGPC em particular, ao fazermos o que estamos a fazer e ao usarmos as nossas próprias imagens ou outras amplamente disponíveis na Internet, como no Google Art Project, onde já se encontram dois museus portugueses, ou no Wikimedia Commons? Estaremos nós a cometer um acto ilícito de divulgação à luz deste despacho; e, ao promovermos “ideias, princípios, iniciativas ou instituições”,  um acto ilícito de publicidade (14.1, nota 1)?

Uma dúvida maior ainda do que estas impõe-se: de que forma o actual debate a nível internacional sobre a prática da fotografia nos museus, e desenvolvimentos como os descritos no início deste texto, foram tomados em consideração na redacção do despacho assinado pelo Secretário de Estado da Cultura no passado dia 28 de Maio? Qual a visão que se tem para os museus portugueses no século XXI? Em que patamar é que a tutela os quer posicionar? Que relações se querem criar com as pessoas (os chamados “públicos”) e até que ponto foram considerados actuais hábitos e práticas na experiência de visitar um museu, literal e virtualmente? De que forma este despacho serve os museus e os cidadãos? Porque é que terei ficado com a sensação que nada disto foi tomado em consideração e que a distância que separa a tutela da realidade é mesmo muito grande?

Dean Mouhtaropoulos/Getty Images (via The New York Times)

Mais leituras
Carolina Miranda (2013), Why Can’t We Take Pictures in Art Museums?, in ARTnews.

Maria Vlachou (2013), Digam “Click!”, in blog Musing on Culture.

© imagem: Dean Mouhtaropoulos/Getty Images (via The New York Times)

Maria Vlachou é consultora em Gestão e Comunicação Cultural. Autora do blog bilingue Musing on Culture, onde escreve sobre cultura, as artes, museus, gestão cultural, marketing e comunicação, públicos. O livro Musing on Culture foi editado pela BYPASS Editions em Março 2013. Foi Directora de Comunicação do São Luiz Teatro Municipal (2006-2012) e Responsável de Comunicação do Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva (2001-2006). Membro dos Corpos Gerentes do ICOM Portugal desde 2005 e editora do boletim trimestral Informação ICOM.PT. Membro fundador do GAM – Grupo para a Acessibilidade nos Museus. Foi coordenadora geral do primeiro estudo em Portugal sobre museus e público sénior. É Fellow no Summer International Fellowship Program em Arts Management do Kennedy Center for the Performing Arts (Washington, EUA; 2011-2013); é Mestre em Museologia (University College London,1994) e licenciada em História e Arqueologia (Universidade de Ioannina, Grécia, 1992).
Madrid: uma cidade de museus ou uma cidade de pessoas que vão a museus? – Maria José de Almeida

Madrid: uma cidade de museus ou uma cidade de pessoas que vão a museus? – Maria José de Almeida

Recentemente, enquanto bolseira do Deutsches Archäologisches Institut, vivi quatro semanas em Madrid. A escolha do verbo é propositada. Já tinha estado em Madrid várias vezes, mas nunca tinha vivido na cidade. E, no caso de Madrid, isso fez toda a diferença.

As vezes em que estive em Madrid deixaram-me a sensação de que não gostava da cidade. É fácil, como turista, não gostar de Madrid. Temos que convir que o centro histórico não tem muito interesse comparado com o de (tantas) outras cidades espanholas. A própria noção de centro histórico é difusa, sobretudo se pensarmos que o núcleo histórico de Madrid é… Toledo. A catedral de Almudena é provavelmente a catedral mais feia da Europa, coisa que só não afirmo com certeza porque não conheço todas. E, a juntar a isto, há um óbvio problema de escala: Madrid é muito grande. Se o turista não se afasta do núcleo Plaza Mayor-Sol-Cibeles, é como tentar ver um Rambrandt a 20 cm de distância da tela. Não se percebe nada.

E depois há os museus. Que também são uns se os vemos como turistas e outros se lá vamos como quem vive na cidade. O privilégio de ter vivido em Madrid durante um mês (também) foi esse.

Fui aos museus como qualquer madrileño vai: à tarde, no fim de um dia de trabalho, ao fim de semana com a família. Podemos então começar por aqui. Os museus estão cheios de gente que vive na cidade.

Claro que isto é uma afirmação completamente empírica. Não me estou a basear em estatísticas de visitantes, em perfis de públicos, nem em qualquer instrumento de análise digno desse nome. E, provavelmente, estou a meter neste saco muito turismo interno espanhol: o meu ouvido não distingue o castelhano de Madrid daquele que se fala em Valência ou Saragoça, por exemplo.

Mas não é apenas por quase só ter ouvido falar espanhol à minha volta nos museus que digo isto. Sobretudo ao fim de tarde, sobretudo nas exposições temporárias, os visitantes pareciam gente que terminou o dia de trabalho e, com um compañero ou compañera, antes de ir para casa, passou pelo museu. Como um dia depois, se calhar, passaram pelo bar de tapas ou, no dia anterior, tinham ido às compras. Fragmentos de conversas ouvidas aqui e a ali ajudaram a compor esta impressão. As visitas guiadas também. No museu Thyssen, no Reina Sofia, integrei-me em animados grupos castelhano-falantes que, se não eram maioritariamente constituídos por madrileños, disfarçavam bem. Ainda que alguns pudessem ser, como eu e outros estudantes estrangeiros, madrileños temporários. A procura deste tipo de actividades é, aparentemente, grande: em quatro semanas não consegui lugar nas “visitas fora do horário” do museu Lazaro Galdiano.

Muitas vezes, noutras cidades e até na minha, os museus sentem-se como um corpo separado do quotidiano dos que nela habitam. E, atenção, não digo isto com um sentido negativo: pode ser muito interessante que os museus se assumam na cidade com um carácter excepcional e único, algo que se procura e valoriza por isso mesmo. Em Madrid, contudo, a sensação que tive foi outra: os museus fazem parte do quotidiano da cidade e isso é, igualmente, muito interessante.

Regressada a Lisboa, fiz o mesmo: no fim de um dia de trabalho, passei pelo museu. Fui ver a exposição As idades do mar na Fundação Gulbenkian. Diferenças em relação aos museus de Madrid? Só(?) as pessoas que lá estavam dentro.

É verdade que há uma grande evolução no público dos museus portugueses nas últimas décadas. Lembro-me, nos idos de 70 e 80, de ir a museus com a minha mãe e os meus irmãos e sermos os únicos portugueses no meio de turistas. Neste fim de tarde de dia de semana na Gulbenkian já não foi assim. Havia mais portugueses e, sem grande margem de erro, todos lisboetas (turismo interno, como dizia o outro… não temos). Mas eram os “suspeitos do costume”: gente ligada ao ensino nos seus vários graus (alunos e professores universitários, professores do básico e secundário), gente com profissões ligadas, se não às artes e espectáculos, pelo menos, às humanidades. Como os portugueses falam (muito) menos que os espanhóis, isto é uma impressão, literalmente, a olho. Além disso, todos pareciam ter ido ao museu com a consciência da singularidade, e seriedade, do acto.

Haverá certamente muitas razões culturais, sociais e económicas que explicam isto.

Ficando só pelas últimas, em Madrid, tipicamente a entrada em museus custou-me 6€ por visita. A entrada na exposição na Gulbenkian custou 5€. Mais caro em Lisboa, portanto. Porque 5€ são cerca de 41% do valor médio da hora de trabalho em Portugal e 6€ representam 29% do mesmo valor em Espanha, se os senhores do Eurostat não se enganaram nas contas. Por outro lado, o leque de descontos e isenções nos museus de Madrid é bastante mais abrangente do que os de Lisboa. Por ser aluna universitária, por exemplo, tive entrada gratuita no museu Reina Sofia e o mesmo acontece com os desempregados em todos os museus que visitei. Por cá, os descontos para estudantes são cada vez mais restritos e a entrada gratuita dos desempregados só se faz desde Março de 2012 nos museus, monumentos e palácios tutelados pela SEC. Curiosamente nas páginas oficiais dos museus tutelados pela SEC (não fui sistemática, por isso posso estar enganada) não encontrei referência a esta isenção, tendo apenas encontrado menção a descontos para desempregados na Cinemateca e nos teatros nacionais D. Maria II e S. Carlos.

Mas não será só o custo do acesso aos museus que contribui para haver menos lisboetas nos museus de Lisboa que madrileños nos museus de Madrid. E certamente não é isso que justifica a diferença de atitude daqueles que vão aos museus nas duas cidades. Pode argumentar-se que o facto dos museus não fazerem parte do quotidiano das cidades portuguesas é só mais um sintoma dos fracos índices de frequência de todos os equipamentos culturais. Talvez. Ou talvez não… conheço muitas cidades portuguesas em que a biblioteca da rede de leitura pública é presença integrante da vida dos seus habitantes. Já a diferença de atitudes… bom, essa dava pano para mangas e eu não serei a pessoa mais habilitada para a explicar. Limito-me a constatar.

Os museus de Madrid são sem dúvida extraordinários nas colecções, na museografia, na programação. Mas não me parece ser isso que os faz uma referência no panorama museológico europeu. Tendo vivido lá durante um mês, eu arriscava dizer que, mais do que uma cidade de museus, Madrid é uma cidade de pessoas que vão a museus.

As pessoas são as cidades que são as pessoas que são as cidades. Nada como uma grande cidade, como Madrid, para perceber isto. Os museus serem parte desta equação é meio caminho andado para nos entusiasmarmos com eles. Mesmo com os fechados. Como o Museo Arqueologico Nacional, que não visitei, e me deixou entusiasmadíssima com a próxima visita. Já estou a salivar, à espera do anúncio da data de reabertura, sabendo que assim que possa ponho-me a caminho de Madrid para ir ao museu. Entusiasmo. Haverá melhor que se possa esperar de um museu? Haverá melhor que se possa esperar de uma cidade?

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(não deixem de ouvir com som, se possível bem alto)

Maria José de Almeida

Maria José de Almeida é licenciada História, variante Arqueologia, pela Universidade de Lisboa, tendo obtido o grau de mestre em Arqueologia Romana na Universidade de Coimbra. Actualmente integra o programa de Doutoramento em Arqueologia e Pré-história da Universidade de Lisboa, na especialidade de Arqueologia. É autora de vários artigos publicados sobre a temática da ocupação romana no território de Augusta Emerita. Entre 1996 e 2002 trabalhou no município de Santarém, desenvolvendo acções de arqueologia urbana em núcleos históricos. Foi responsável pela primeira fase da Carta Arqueológica de Santarém e pela organização da Reserva Municipal de Bens Arqueológicos. Foi comissária da exposição temporária De Scallabis a Santarém (MNA, 2002). Desde 2003 exerce funções na Câmara Municipal de Cascais, onde implementou o Sistema de Informação dos Museus de Cascais e coordenou a elaboração do respectivo Manual de Procedimentos. Ainda em Cascais, dirigiu o Gabinete de Arqueologia e, actualmente, desempenha funções na Divisão de Ordenamento do Território, tendo coordenado a integração do referido sistema de informação com a plataforma SIG da autarquia. Integra os corpos gerentes da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) desde 2002, tendo sendo presidente da direcção no triénio 2007-2009.

Curriculum detalhado aqui.

© Imagem: Ministerio de Educación, Cultura y Deporte | Museo Arqueológico Nacional

Mais e novos museus – Joana Sousa Monteiro

Mais e novos museus – Joana Sousa Monteiro

Em resposta ao repto lançado por Alexandre Matos para participar neste Speaker’s Corner a partir do mote lançado no seu recente post, “Queremos novos museus?” optou-se por relacionar o post com o artigo “We Built Way Too Many Cultural Institutions During the Good Years” da autoria de Emily Badger, publicado em Julho passado no site The Atlantic Cities Place matters, com base num estudo efectuado pela Universidade de Chicago. (http://www.theatlanticcities.com/arts-and-lifestyle/2012/07/we-built-way-too-many-cultural-institutions-during-good-years/2456/#.UN8wtEY0HsA.facebook)

O estudo Americano incidiu sobre o recente boom de criação de entidades culturais (museus e outras), o estado do panorama actual e de como a procura se relaciona, ou não, com a oferta. Foram efectuados inquéritos a 725 instituições culturais que foram criadas nos EUA entre 1994 e 2008. Dizem os autores do estudo que o número de instituições criadas ultrapassou em muito a capacidade da procura, causando agora demasiadas situações de escassez financeira e de espaços muito pouco frequentados. Ainda segundo o mesmo relatório é evidente a ausência do factor “procura” em muitos dos projectos iniciados nesse período de mais vastos recursos, que quase sempre incluíram a construção de novos edifícios. “What we concluded is that there’s a lot of short-term thinking going on. A lot of institutions felt very successful, however they weren’t really thinking down the line.” A principal recomendação daquele estudo é o incentivo à racionalidade e à identificação atempada da procura, enfim, ao planeamento a longo prazo que limite decisões irracionais e apaixonadas.

Sabemos que a realidade americana terá pouco em comum com a portuguesa e cremos que uma boa dose de paixão será sempre tão bem vinda quanto necessária à criação e à gestão de projectos culturais e museológicos. No entanto, e no que toca ao universo dos museus públicos, os temas do fervor construtivo de entidades culturais, da falta de planeamento a longo prazo, ou dos projectos de investimento em novos museus que aparentam não ter em conta o panorama museológico pré-existente, talvez não nos sejam assim tão estranhos.

Em tempos em que quase todos os dias se leem notícias sobre diminuição de recursos financeiros e humanos, e mesmo sobre o fecho de museus, como explicar a manutenção da energia propositiva para a criação de novas entidades?

Pergunta o Alexandre Matos – e tantos de nós – para que queremos sempre mais museus? Mas será que os museus são criados porque “nós” queremos?

Como tão bem explicou Stephen Weil, a procura que motiva a criação, ou mesmo a existência de museus, foi sendo deslocada de o museu dever ser “sobre algo”, para dever ser “para alguém”. A razão de ser dos museus está cada vez mais nos públicos e utilizadores (a procura), e menos na imagem espelhada dos seus promotores, coleccionadores ou políticos (criadores da oferta).

Sabe-se que se criam museus para conservar e divulgar colecções consideradas importantes para os seus públicos potenciais e comunidades próximas, e/ ou para os seus promotores; para investigar e melhor representar um território; como também para honrar compromissos políticos de vária ordem.

Também se percebe que se criam museus para evitar males maiores: para “ocupar” edifícios tornados devolutos; para salvar a memória de empresas, fábricas ou sectores económicos em falência e risco de esquecimento, transformando conjunturas deprimidas em oportunidades potencialmente fantásticas de estudo e divulgação de patrimónios.

Criam-se museus, ainda, por interesse financeiro. Para tornar mais atractiva e rentável uma região ou cidade, não só ou não tanto através das receitas de bilheteiras, lojas e concessões, mas sobretudo por meio das externalidades indirectas que os museus podem gerar pelos sectores do alojamento, restauração e outro comércio.

Num cenário ideal, e aparte questões de ordenamento do território museológico que não nos cabe desenvolver, todas as ideias de museu fariam sempre sentido e teriam o seu justo lugar, independentemente da tipologia, dimensão ou tutela, desde que cumpridoras das funções museológicas, tendo em conta que se tratam de exercícios democráticos de expressão, potenciais catalisadores de riqueza cultural.

O problema está apenas no detalhe dos recursos que, perante a importância e o valor das colecções e dos propósitos educativos e sociais dos museus, deveria mesmo ser só um detalhe. E esse detalhe era suposto ser resolvido pelas instâncias públicas que reconhecem a importância dos museus, ou pelas entidades privadas que têm, felizmente, a ousadia de os criar. E assim foi durante muito tempo, em que os museus eram muito menos, e os recursos pareciam não faltar.

Actualmente, as entidades públicas (portuguesas, europeias, até americanas) têm evidentes dificuldades em manter os museus existentes, e os privados deparam-se com limitações semelhantes, não raras vezes solicitando ajuda das instituições públicas para colmatar a deficiência das suas capacidades de financiamento.

Mais do que numa recessão, parece que estamos num “reinício” económico, social e cultural (McGonagle, 2012, “A Resetting. Not just a recession”). Sabendo que a elasticidade dos recursos financeiros ultrapassou os seus limites e que os modos de viver em sociedade estão mesmo em fase de profunda alteração, resta-nos o planeamento responsável e lúcido.

Deveria, então, depreender-se que a evidência da escassez de recursos teria directas implicações sobre os projectos de criação de novos museus. Essa evidência exigiria, também, atento planeamento a longo prazo incluindo o cálculo da capacidade da procura, não só para poder prever o grau de retorno do investimento (em termos directos ou indirectos não financeiros) que permitisse o funcionamento dinâmico do museu a longo prazo, como também para antecipar a correspondência entre os objectivos dos futuros museus e os seus efeitos junto dos públicos ou comunidades próximas.

É preocupante a ameaça, por vezes concretizada, de extinção e de “fusão” de museus. Não obstante, e quando já se pensava impossível, assiste-se também, com surpresa, a projectos de criação de museus novos, de âmbito central, regional e local. Sinais de esperança e de optimismo, sem dúvida. Mas nem sempre tem sido evidente o respectivo planeamento sobre o detalhe dos recursos, ou sobre o impacto no contexto museológico pré-existente.

É curiosa a força da tentação por criar novos museus. Não tanto de renovar os existentes, de melhorar ou de mudar as suas instalações, de incorporar novas colecções em museus bem geridos, de alterar os seus modos de funcionamento e os seus modelos de gestão, mas sim de criar novos, com tudo novo. De preferência “museus vivos”.

Se ainda houver recursos que sobrem ou que se possam criar para lá da imprescindível orçamentação suficiente para o funcionamento dinâmico dos museus existentes, dê-se prioridade à modernização, remodelação ou ampliação de tantos museus que são, por vezes, menos lembrados e que não deixam de conservar e documentar patrimónios significativos.

Remodelar museus, não só pela óbvia razão do aproveitamento, ainda que parcial, de colecções, espaços e serviços existentes; também pela razão do reconhecimento do valor do trabalho feito, do espírito dos lugares e dos objectos, da investigação e documentação tantas vezes existente mas esquecida ou julgada não aproveitável para uma instituição que se quer moderna e portanto nova, diferente. Exemplos recentes, de Norte a Sul do País, demonstram que é possível remodelar criando a sensação de novidade, tão importante para a atracção de financiamentos e de incorporações.

Nem contra novos museus, nem pela teoria “do ajuste de contas” aritmético, em que por cada museu encerrado ou “fundido” se poderia então criar um novo. Mas mais, no tempo presente, pelo planeamento atento e pelo investimento na renovação e modernização possível dos museus existentes.

Se temos mesmo que escolher, então preferimos a qualidade à quantidade. Museus melhores; e não necessariamente novos museus, talvez seja o que mais queremos, Alexandre.

Joana Sousa Monteiro – Museóloga.

Pós-graduada em Museologia e em Gestão Cultural. Desde 2010 membro do Gabinete da Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, com a coordenação do Grupo de Trabalho para a Criação da Rede de Museus Municipais de Lisboa, entre outras funções. Foi Coordenadora-adjunta da Rede Portuguesa de Museus (Instituto Português de Museus) de 2000 a 2010.