Francisco Barbedo. In memoriam – Maria José de Almeida

Francisco Barbedo. In memoriam – Maria José de Almeida

Um dia recebi um email assinado por alguém que não conhecia e se identificava como técnica superior da DGLAB. Tinha lido um artigo que eu tinha publicado e queria saber mais sobre a forma como aplicava o modelo de dados CIDOC-CRM à informação arqueológica.

A primeira reação que tive foi a óbvia: mas alguém lê a literatura cinzenta que nós escrevemos?! Depois, respondi a medo: talvez o texto tivesse dado uma dimensão à coisa que ela não tinha, tratava-se singelamente da metodologia que estava a aplicar no meu trabalho de doutoramento, um assunto muito específico, ainda por cima não integrado em nenhum projeto para além do académico e sem qualquer enquadramento institucional. Mas ficava muito contente com o interesse da DGALB na aplicação da ontologia e, sobretudo, na valorização da normalização no tratamento de informação de índole cultural. Enviei a resposta com a certeza de que o assunto ficava fechado. Não ficou. Pouco tempo depois tenho na caixa de correio uma nova mensagem, da mesma pessoa, a dizer que sim, tinham percebido tudo o que eu dizia, mas gostavam de conversar comigo para a profundar o tema, se eu tivesse disponibilidade de me deslocar ao edifício da Torre do Tombo até podíamos marcar uma reunião.

Acho que estava de férias, ou a usufruir da jornada contínua ao abrigo do estatuto de trabalhador estudante, e lá fui numa tarde qualquer. Fui recebida pela pessoa que me tinha enviado o email, pelo chefe dela e por um outro elemento da equipa. A conversa foi animada, interessante, há muito tempo que não falava com pessoas que entendiam tão bem a forma como eu acho que se deve tratar a informação. Quando saí, a caminho do metro, telefonei ao Alexandre: “Ó pá, isto foi muito estranho, eles queriam mesmo saber o que eu penso, queriam mesmo discutir a aplicação do CIDOC-CRM! Juro que não percebi nada do que acabou de acontecer…”

Demorei um bocadinho a perceber. Houve mais trocas de emails, de bibliografia, conversas, até ao momento em que eu disse ao Francisco Barbedo: mas o que é que vocês precisam? Uma instituição ou uma pessoa? É que se precisam de uma instituição eu não vos posso ajudar, não represento coisa nenhuma; se precisam de uma pessoa, esta pessoa é funcionária pública e está disponível para vir trabalhar convosco se quiserem iniciar um processo de mobilidade. Nesta altura o Francisco já tinha nome, já não era “o chefe da pessoa que me mandou um email”. E foi só quando o Francisco passou a ser o meu chefe é que eu percebi o que se passava na Direção de Serviços de Inovação e Administração Eletrónica (DSIAE) da DGLAB.

Imagem: Cecília Henriques

É engraçado que quando cheguei à DGLAB, em Outubro de 2016, já levava 20 anos de administração pública e uma boa dose de diferentes chefias. E nunca me referi a elas como “o meu chefe”, achava até um bocadinho parola a expressão. Talvez porque a nenhuma das minhas chefias eu reconheci capacidade de liderança, nunca achei que fizessem alguma coisa que qualquer outra pessoa não soubesse fazer e, infelizmente em alguns casos, provavelmente melhor. Mas não era esse o caso do Francisco. Ele foi o meu chefe no melhor sentido que a palavra pode ter. Aliás, no único sentido: se não for nesse, não se deve usá-la. Não é uma questão de parolice, é rigor semântico.

Aquilo que eu achei estranho no contacto inicial que tive com a DSIAE percebi muito bem depois. O Francisco era assim. Mas sobre isso eu não sei nada!… Então mas não há ninguém a trabalhar isso? Há uns tipos do sítio tal, mas… Veja lá isso, investigue, pergunte-lhes se for preciso. Nunca eu tinha tido uma chefia que me mandasse estudar. Estudei, aprendi. E muito mais que conhecimento técnico. Aprendi como se pode respeitar profundamente uma equipa de trabalho de uma forma subtil e eficaz. Aprendi o comprometimento com a coisa pública no sentido mais nobre que pode haver: porque sim, porque é para fazer bem porque é para todos. Tão simples quanto isso.

Como se isso não bastasse, o Francisco tinha sentido de humor. E é uma bênção trabalhar com alguém com sentido de humor. Humor também subtil, o que levava frequentemente o interlocutor à dúvida da seriedade da conversa e aumentava a saudável gargalhada quando se desfazia o equívoco. Nos primeiros tempos na DGLAB, o Francisco sugeriu-me que eu passasse uns dias em cada serviço, dos que estão sediados na Torre do Tombo, para perceber o seu funcionamento e aquilo que cada um deles precisava dos sistemas de informação. Aceitei com entusiasmo, também nunca tinha sido recebida assim nas muitas mudanças que fiz. Sempre que me apresentava em cada sítio, toda a gente, ansiosa que estava (está?) pela integração de um técnico superior de informática, achava que era essa a minha especialidade. Não é nada informática, é arqueóloga, esclarecia ele. E havia ali um momento absurdo em que eu continuava a ser interrogada como técnica de informática, porque os outros achavam que isso era uma piada, eu tentava explicar que não era, com a atrapalhação dos primeiros dias, e o Francisco continuava lançar achas para a fogueira da confusão, a divertir-se tanto com a minha atrapalhação como com a incredulidade dos interlocutores.

Mas é mesmo verdade: eu sou a arqueóloga que o Francisco trouxe para a DGLAB. E tenho um orgulho imenso nisso. Tenho um orgulho imenso em trabalhar numa das poucas entidades da administração pública portuguesa que levou o PGTIC a sério e em participar no processo de transição tecnológica para aplicações de código aberto. E na preservação digital, e no novo modelo de dados e em tantas outras coisas em que o Francisco se emprenhou e deixou uma marca indelével.

O dia 4 de Setembro foi o meu último dia de trabalho antes de um longo período de férias, marcadas em pleno confinamento a imaginar que este mês de Setembro podia ser muita coisa que não foi. Passei pelo gabinete do Francisco ao fim da tarde. Sobretudo para lhe dizer que não esperasse por mim para marcar as reuniões com os serviços que me calhavam nos testes das interfaces do novo sistema; àquela distância não tinha nenhum compromisso previsível e era importante começar a sincronizar as atarefadas agendas de toda a gente em Outubro. Como habitualmente, o Francisco disse para não me preocupar, que fosse de férias e gozou com o meu relógio de enfermeira. Perguntou-me se ia para fora, expliquei que tinha desistido de ir a Itália com receio de ficar presa em trânsito por qualquer alteração de regras de circulação entre países e que ia para a região do Alentejo que pior conheço, o litoral. Mas não vai escavar, pois não?, atirou-me com uma gargalhada. Não, claro que não, já me deixei disso há muito tempo, vou passear na praia e nas arribas. Muito bem, muito bem.

Foi uma boa conversa de despedida, vou guardá-la assim, com a gargalhada e os sorrisos. Não podíamos saber que não voltaríamos a estar juntos na mesma sala, acho que isso é uma coisa boa, ainda que a ausência me continue a doer. Aquele chavão do “não há ninguém insubstituível” não é verdade. O Francisco não se substitui. Tive um dos maiores privilégios na vida ao conhecê-lo. Agora só posso honrar-lhe a memória e tentar fazer como ele fazia. O que implica ser melhor profissional do que alguma vez fui. Devo-lhe isso.

E agora – Inês Fialho Brandão

E agora – Inês Fialho Brandão

Isto é difícil. 

Para quem trabalha em museus por vocação, a ordem de fechar portas imediatamente por um período indeterminado, mesmo se antecipada, é um choque emocional. Para a maioria de nós esta é a primeira vez que uma emergência destas acontece. 

Não temos escolha senão recompormo-nos rapidamente porque o encerramento sine die de uma instituição que existe porque há objetos a cuidar para os poder mostrar aos outros da melhor maneira que sabemos requer um sem fim de ações para acautelar a segurança e conservação de bens, instalações e equipas.  (Bendito plano de emergência).

A mim, a ordem chegou na sexta-feira ao principio da tarde. Como o nosso museu/centro de investigação é fisicamente pequeno – e como temos um plano de emergência – foi relativamente rápido. Esvaziar vitrines. Guardar stock de loja. Certificar-nos que não ficam lixos orgânicos para trás. E os outros procedimentos que não devem ser detalhados aqui. 

O esvaziar de vitrine foi o mais difícil – o coração fica apertado porque é tão contra-natura, retirar os objetos, e as histórias, que mais representam aquilo que temos para contar. E que vão ficar guardados, sozinhos, longe do olhar, durante sabe Deus quanto tempo. Porque de algum modo os objetos, e as histórias, que contamos deixam de existir, ou pelo menos de ser relevantes, se as nossas portas encerram.

Estantes vazias

No meu caso particular, a rapidez de decisão e de execução, bem como a impermanência das decisões lembraram-me os dias a seguir ao 11 de setembro, quando as politicas públicas mudavam de hora a hora, de acordo com a informação mais atualizada. E é mesmo assim. Por mais emocionalmente destabilizante que seja este viver em fluxo, é mesmo assim, porque o que sabemos muda rapidamente. 

Vitrine vazia

E agora? Agora que as salas estão fechadas, que as luzes estão no ‘modo segurança’, que os alarmes estão ativados. O que fazemos? Qual é o nosso ‘novo normal’, para nós que trabalhamos nos museus por vocação?

Nas próximas semanas, uns vão estar em teletrabalho, outros de baixa parental a 66%, ou a 33% dos recibos verdes, ou nas instalações fechadas ao público. O tempo vai ter uma qualidade diferente – abrem-se as possibilidades enquanto simultaneamente um nó na garganta (no meu caso, uma vontade absurda de ir correr pelo meio da rua a gritar ‘vamos todos morrer!’, que controlo a escrever textos como este), um nó na garganta, dizia, nos vai minando a vontade de fazer qualquer coisa com significado com este tempo diferente que agora temos nas mãos.

CUIDAR

Cuidar as equipas. 

Enquanto técnica superior com funções de coordenação (a bom entendedor…) eu dou o exemplo. Por isso, contacto regular com a equipa, actualizando a informação que recebo. Seja por SMS (que prefiro) ou por grupo de whatsapp. Distribuir tarefas, projetos e/ou leituras para quem está em teletrabalho, adaptado às suas funções e aptidões.  Acima de tudo, estar presente, acompanhar e ouvir as equipas, as suas inquietações, transmitir-lhes esperança e uma atitude criativa e o mais positiva possível. 

E esperar pouco, porque as minhas prioridades não têm necessariamente que ser as deles. 

Cuidar a comunidade.

O museu tem visitantes regulares? Alguns mais velhos? Estão bem? Têm companhia? Precisam de alguma coisa?

No equipamento que coordeno temos a sorte – e o privilégio – de contar com um público regular, que, em muitos casos, conhecemos pelo primeiro nome. Por isso, um simples mail pessoal, a dar conta da nossa disponibilidade para ajudar com uma ida ao supermercado ou à farmácia, deixa-me mais tranquila e renova junto dos nossos visitantes que eles são importantes para nós. 

Aqui, ninguém fica para trás. A não ser que queira, claro. 

Cuidar-se a si. 

O isolamento social não é pêra doce. Desenvolve-se aquilo a que se chama ‘febre de cabine’. É fácil ficar obcecado com o museu, o cuidado, as coleções, os protocolos que funcionaram bem ou mal, os outros que fizeram ou não. Por isso, limite nas horas em frente ao computador, limite nos emails e grupos de whatsapp a discutir o que não interessa e só nos aumenta a ansiedade. 

Comer bem, ao longo do dia. Dançar o Father Figure de roupa interior ‘na privacidade do lar’. Estar gratos porque, bem vistas as coisas, somos uns sortudos na lotaria da vida. E DORMIR – à noite e, se possível, a sesta. 

Tenho sorte, porque tenho um petiz que não me deixa ficar a moer nada sozinha durante muito tempo. Há brincadeiras a ter, beijinhos a dar, cócegas a fazer (e birras a gerir). E como ele se levanta tempranillo, não tenho escolha senão deitar-me e dormir o mínimo para conseguir funcionar no dia seguinte. 

INVESTIGAR

Agora é que é! 

Sem as pequenas – ou grandes – interrupções do quotidiano de um museu, este é o momento para começar aquele projeto de investigação tão adiado – a história de um objeto, o estudo de visitantes, os possíveis mecenas, os planos de comunicação… 

Melhor ainda é fechar os artigos, livros, recensões pendurados desde sabe-se lá quando. Para quando voltarmos ao trabalho, virmos com o caderno de encargos um bocadinho mais leve. (A minha listinha é longa: guião de exposição, perfis biográficos, artigo para a Revista Museus, e fechar artigo sobre Karl Buchholz). 

APRENDER

Que se aproveite este tempo suspenso para aprender qualquer coisa (levante a mão quem sabe criar uma tabela dinâmica no Excel). Não faltam cursos online e gratuitos para ganhar aptidões desejadas – seja na prática museológica, ou nas competências de apoio que nunca nos apetece aprender. 

Os documentários e podcasts, também eles gratuitos e online,  debruçam-se sobre temas específicos da pratica museológica de hoje – o que nos move? De que é feito o futuro dos museus? Dos Museopunks ao Lugar da Mediação, são muitos os profissionais de museus que param para repensar o que fazem e como o fazem. 

PARTILHAR

museu fechado aviso

Estamos encerrados, não ausentes. Por isso, há que manter a existência do museu, da sua colecção, das suas histórias, da sua identidade, no quotidiano colectivo. A partilha online de conteúdos – imagens, vídeos, textos, sons – nas plataformas à nossa disposição é uma oportunidade. De mantermos o contacto com os públicos que já são nossos, mas também de os alargarmos e, no melhor dos cenários, diversificamos. 

Inspiremo-nos no que os nossos colegas das artes performativas já estão a fazer, e programemos online – conferências, cursos, testemunhos, apresentações. Conteúdos formais e informais. 

Para que os públicos tenham saudades do museu – das coleções e das pessoas – e regressem, quando este normal voltar à anormalidade, com expectativa, curiosidade, voltar de ver ao vivo aqueles e aquilo que ficaram a conhecer um pouco melhor durante o isolamento. 

GIZAR

No quotidiano da vida de museu, falta muitas vezes o tempo para avaliar, repensar, abandonar caminhos e construir estratégias. Pois que seja este esse tempo, de tudo reavaliar. O que é que eu posso fazer de significativo e útil? Que lixo – burocrático, procedimental, emocional – é que não quero continuar arrastar comigo quando regressar? Quais são os valores essenciais e não-negociáveis naquilo que fazemos?

E agora, claro, o disclaimer: nada disto é obrigatório. Nenhum profissional de museus tem que passar as próximas semanas a repensar tudo isto. E nada de mal virá ao mundo se não o fizer. 

Consigo já ouvir algumas vozes – ‘não sou pag@ para isso!’. Sim, sim, eu também não.  

Mas, como disse, este texto é para o pessoal da vocação. E entre andar pela rua em pânico e aos gritos ou fazer uma lista de boas intenções, concretizando apenas algumas, escolho a segunda hipótese. 

Há umas semanas li uma definição sobre o que é a vida, de que gostei muito. (não me lembro da fonte, para mal dos meus pecados). 

A vida é  saber quem somos, ajudarmos os outros, e não sermos parvalhões.

 Inês Fialho Brandão

Inês Fialho Brandão coordena um pequeno museu na área da Grande Lisboa. Investiga as biografias de refugiados em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, a proveniência de obras de arte durante a era Nazi, e as questões de ética que estão subjacentes a estes temas, sobre os quais é palestrante convidada em universidades e escolas secundárias. Trabalhou extensivamente enquanto profissional de museus e curadora. Os seus projetos relevantes incluem ‘Olhares Cruzados sobre Arte e Islão’ (2008); ‘Colecionar para a Res Publica’ (2011); e ‘O Legado Judaico em Portugal, exposição em Cascais’ (2018).

É licenciada em Historia e Historia de Arte pela Universidade de Edimburgo, mestre em Estudos Islâmicos e Museologia pela Universidade de Nova Iorque, e doutoranda em Historia pela Universidade Nacional da Irlanda. Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, e da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

O porta-chaves do meu pai e o paradoxo do Museu da Acrópole – Maria José de Almeida

O porta-chaves do meu pai e o paradoxo do Museu da Acrópole – Maria José de Almeida

O meu pai usou sempre o mesmo porta-chaves. Daqueles de bolso, em cabedal, que se fecham com duas molas e lá dentro têm um suporte metálico para vários ganchos, dispostos lado a lado. Sabem a que me estou a referir, sobretudo se forem da minha ou da geração anterior.

Lembro-me muito bem dos gestos do meu pai associados a esse porta-chaves. Ao aproximar-se da porta, tirava-o do bolso, abria, escolhia a chave pretendida e puxava o respetivo gancho na vertical para a  destacar das outras. Enfiava a chave na fechadura, rodava e, já do outro lado da porta, repetia os mesmos passos por ordem inversa. Mas com variantes nos gestos: para voltar a colocar a chave no sítio, o meu pai dava um pequeno golpe de pulso e a chave saltava para a posição original, batendo nas outras e nos ganchos metálicos com um som muito característico. Só depois pressionava as molas, com um pequeno estalido, para fechar e guardar novamente no bolso. Esta é uma memória visual mas também auditiva. O som do porta-chaves do meu pai era muito diferente do som do grande molho de chaves da minha mãe (presas todas à mesma argola) a ser atirado para cima da arca do hall de entrada. Não precisava de ver, bastava ouvir o som das chaves para saber quem tinha chegado a casa.

Quando os meus pais morreram, no doloroso processo de “desmanchar a casa”, dei com o porta-chaves do meu pai e resolvi ficar com ele. Pus-lhe as minhas chaves e uso-o todos os dias. E todos os dias repito os gestos e os sons do meu pai ao usar aquele objeto.

Porta chaves do Pai da Zé
Porta chaves do Pai da Zé

Acontece que já passou algum tempo, a fadiga dos materiais não perdoa e o porta-chaves está a desfazer-se.

Quando dei conta dos primeiros sinais de degradação (além de me lembrar do conceito de fadiga dos materiais, que certamente aprendi com o meu pai) fiquei triste e comecei a pensar como podia travar o processo ou reparar os danos. Mas trata-se de um objeto de uso quotidiano e os fenómenos físicos são inevitáveis: o porta-chaves, mais tarde ou mais cedo, vai desfazer-se. Outra das coisas que aprendi com o meu pai foi a analisar problemas e encontrar soluções. Este problema tem uma solução simples: vou comprar um porta-chaves novo.

Um porta-chaves de bolso, em cabedal, que se fecha com duas molas e tem lá dentro tem um suporte metálico para vários ganchos, dispostos lado a lado. Um porta-chaves que vou continuar a usar com os mesmos gestos e os mesmos sons e, por isso, o objeto novo vai continuar a ser o porta-chaves do meu pai. Aliás, revendo o que escrevi no primeiro parágrafo, o meu pai não “usou sempre o mesmo porta-chaves”:  aquele que eu tenho agora dificilmente será o mesmo objeto ao qual associo as minhas memórias de infância. O objeto que guardei foi o só o último que ele usou.

Vem o porta-chaves a propósito do necessário debate sobre a restituição de património cultural deslocado, que voltou a ser tema no final de 2018 depois da divulgação de um relatório encomendado pelo presidente francês. Por razões óbvias, este é um tema que não pode ser ignorado pelos museus portugueses e que, também pelas mesmas razões óbvias, se presta a servir de arma de arremesso entre grupos ideologicamente distintos. Naturalmente que neste debate não podemos fazer de conta que somos imunes à ideologia, e muito menos ao contexto sócio-cultural em que vivemos, mas acho que temos obrigação profissional de refletir para além da ideologia.

E, nesse sentido, a minha proposta é começar o debate com uma pergunta: “o que é que valorizamos nos objetos?” Ou, se preferirem, “porque é que é tão importante para mim ter este objeto?” Porque é isso que está em causa quando se discute a posse e, consequentemente, o lugar onde se guarda – e expõe e interpreta – o património de alguém ou de uma comunidade de alguéns.

Podia escolher muitos exemplos para fazer o exercício que me leva à resposta a esta pergunta. Podia escolher a arte africana trazida para Portugal durante o período colonial ou a arte portuguesa levada para o Brasil e para França durante o período das invasões napoleónicas. Se quisesse ficar no universo português. Mas não quero. Vou escolher um caso, literalmente, clássico: os frisos do Pártenon. Até porque, também recentemente, o diretor do Museu Britânico juntou à discussão um novo argumento no mínimo… criativo, vamos-lhe chamar assim.

Vi os frisos do Pártenon  duas vezes: no Museu Britânico em Londres há muitos anos (demasiados!, tenho que voltar) e no verão passado no Museu da Acrópole em Atenas. Para ser rigorosa, vi duas partes distintas de um conjunto que já não existe. E também visitei o local onde o conjunto estava quando existia.

São três experiências muito distintas. A que mais dificuldade tenho em reconstituir é a do Museu Britânico mas, mesmo que a recordasse como se fosse ontem… não foi ontem. Quem viu os frisos do Pártenon em Londres também é uma pessoa que já não existe. Como me lembro pouco, resolvi explorar as ferramentas que hoje estão ao meu dispor para avivar a memória. As imagens correspondem ao que no fundo da memória tinha guardado: espaços amplos e despojados onde as esculturas são valorizadas na sua dimensão estética. Na altura em que visitei o Museu Britânico duvido que desse grande atenção ao contexto, mas se o fizesse agora e quisesse ter essa informação, a história toda está lá explicada. Contudo, quando lá voltar, parece-me que vou novamente ficar mais esmagada pelo impacto visual das peças e do espaço em que estão expostas do que pela história e contexto da coleção.

No Museu da Acrópole a dimensão visual das esculturas e do espaço em que estão expostas voltou a ser um fator determinante na experiência de visita. É um museu do meu tempo, da minha estética, do meu discurso sobre o espaço e o tempo (mais do que me recordo do Museu Britânico). É também, e sobretudo, um museu de sítio. Contaram-me a história da Acrópole, que tem muito mais que se lhe diga que a deslocação dos frisos, e eu gostei muito. Ter visitado o museu no mesmo dia que visitei a Acrópole não foi indiferente: foi mesmo determinante no impacto da visita. Cheguei cedo à Acrópole, à hora da luz bonita, passeei devagar entre as ruínas, senti o vento e o cheiro, ouvi os sons da cidade lá em baixo e dos outros turistas à minha volta. E de lá vi o edifício do museu, que se destaca de uma forma impressionante na malha urbana. Umas horas mais tarde, almocei na cafetaria do museu com vista para a Acrópole, que se destaca de uma forma impressionante na malha urbana.

A minha experiência no Museu da Acrópole teria sido muito diferente se lá estivessem os 47% de friso que estão no Museu Britânico? Provavelmente não. Teria sido muito diferente se o museu fosse noutro lugar? Garantidamente sim.

No Museu da Acrópole o que eu valorizei nos objetos expostos, das esculturas ao modelo da Acrópole em peças de Lego que estava(á?) junto da cafetaria, passando pelos objetos arqueológicos sob o chão de vidro da galeria de entrada, foi muito para além da materialidade dos mesmos. Sim, fiquei arrebatada pela qualidade visual das esculturas mas o que eu gostei mesmo foi de percorrer aquelas galerias de betão a ver o friso como nenhum grego antigo o viu, ao nível dos olhos. E isso até podia ter sido conseguido com uma réplica integral, se calhar com vantagem porque assim podia acrescentar à experiência visual a do tato, passando as mãos por cima daquilo tudo (e garanto que me apeteceu!). Mas a alternância dos originais com as réplicas também me contou uma história – a dos interesses britânicos no mediterrâneo oriental no séc. XIX – assim como a cariátide incompleta montada sobre um suporte de betão me contou outra – a dos violentos confrontos entre gregos e turcos sobre os quais se funda boa parte da identidade grega contemporânea.

Já a deslocalização do museu para outro local transformaria completamente a experiência. O vento, a luz, o cheiro, o som, a textura dos materiais de um sítio não são os mesmos de um outro. A quantidade de fatores que compõem essa materialidade é tão vasta que dificilmente se consegue, noutro local, repetir a combinação que os define. E, definitivamente, a história da Acrópole contada na base da colina da Acrópole fica mais bem contada ali do que noutro lugar. Porque é contada a quem acabou de sentir o vento, a luz, o cheiro, o som, a textura dos materiais… da colina da Acrópole.

O Museu da Acrópole encerra em si um paradoxo: é um projeto do governo grego para acabar de vez com o argumento que os frisos que estão em Londres não podiam regressar a Atenas por não haver condições dignas de exposição e interpretação; ao mesmo tempo, a execução do projeto mostra que os frisos “em falta” não fazem falta para expor e interpretar a história da Acrópole em excelentes condições. Ou pelo menos assim eu achei.

A deslocação de parte dos frisos do Pártenon e a sua integração em diferentes coleções de arte (além do Museu Britânico há outras partes do conjunto original em Paris, no Vaticano, em Copenhaga, Viena,  Würzburg e Munique) é um episódio da história europeia que não desaparece com a devolução e merece ser contado. Está contado no Museu da Acrópole e no Museu Britânico, pelo menos, e a história não fica mais completa nem melhor contada se houver devolução à Grécia dos objetos: a acontecer é mais um episódio que também merece ser contado e, sobretudo, contextualizado. Como os objetos mas também para além deles.

Este exercício, e o porta-chaves do meu pai, demonstram-me que o que eu valorizo mesmo nos objetos são as sensações e a informação que me transmitem. E isso interceta a sua materialidade mas não se esgota nela. Ou, dito de outra forma, a informação e as sensações não dependem tanto do objeto como do observador e do contexto. Ou, ainda mais uma forma!, o objeto não tem um valor absoluto indissociável da dimensão material.

Voltando a uma das formulações da pergunta inicial – porque é que é tão importante para mim ter este objeto? – só posso mesmo responder que… não é. Ou só é importante se eu depender exclusivamente do objeto para ter certa informação ou sensação. Haverá alguns casos em que isso pode acontecer, mas arrisco afirmar que não é frequente. E certamente não é o caso dos objetos que são alvo das recentes polémicas de restituição que tanta emoção têm causado.

Aqui há uns tempos, a propósito da alteração da definição de museu pelo ICOM, escrevia o meu amigo Luís Raposo que “o museu é o domínio do material”. Pois, como lhe respondi na mesma publicação, para mim os museus são o domínio do conhecimento e das emoções. Fundadas em informação e sensações que, volto a repetir, não se esgotam na materialidade dos objetos que expõem. Mas também admito que não é difícil argumentar em sentido contrário. É essa a natureza dos paradoxos.

Metaphysics: Ship of Theseus

https://www.khanacademy.org/partner-content/wi-phi/wiphi-metaphysics-epistemology/wiphi-metaphysics/v/ship-of-theseus

Conteúdo disponível na Khan Academy online

Museus: Não há autonomia sem financiamento

Museus: Não há autonomia sem financiamento

Durante o ano de 2018, o então Ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes, comunicou que era vontade do Governo abrir um dossier importante: o tão esperado regime de autonomia dos museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos.

Autonomia, Gestão Central, Financiamento

O debate é sobre o futuro, mas convém recuar um pouco no tempo. Aquando da “intervenção externa” da Troika, o Governo de então sentiu-se duplamente legitimado para reduzir ao máximo o investimento público. As áreas mais afetadas são sempre as historicamente mais vulneráveis, como é o caso da Cultura. O modelo era simples e eficaz, do ponto de vista financeiro: estrangulava-se liberdade de gestão aos museus e centralizavam-se todos os serviços centrais do Estado na área do Património num organismo que se veio a provar ineficaz e burocrático: a Direção Geral de Património Cultural (DGPC). Impõe-se a pergunta: será isso que o país precisa para garantir a salvaguarda e a divulgação do seu património cultural e artístico? Há vida para além da contração orçamental? Tem de haver.

Luís Monteiro deputado do BE © Shifter
Luís Monteiro © Shifter

Uma coisa é certa: tanto o Governo como os vários responsáveis no terreno admitem que a DGPC não responde aos problemas. Uma simples autorização para resolver um problema de canalização demora semanas. Não há inundação que aguente. O problema é que o documento provisório do Governo não apresenta qualquer alteração de fundo na máquina administrativa central, limitando-se a criar um regime de delegação de competências entre a DGPC e as várias entidades que dela dependem.

Um dos flagelos que hoje este setor vive é claramente a falta de profissionais em cada um destes sítios. Todos conhecemos casos de diretores que fazem horas de bilheteira e técnicos de conservação que servem como vigilantes em horas de almoço dos seus colegas. O cenário é negro e este diploma não almeja alterar nada a esse aspeto. Fará ou não sentido que o diploma objetivasse um rácio de pessoal para cada um dos espaços? A resposta a essa pergunta deslinda um problema que se colocará mais à frente: afinal, de que tipo de autonomia estamos nós a falar? Autonomia total na contratação? Com que recursos? É elementar que o Governo responda ao que ainda não respondeu.

O último fator que deve merecer a nossa atenção é a ideia da criação das unidades compósitas. Parece que o Governo já desistiu da ideia, até porque se apresentou como absurda logo à partida. A ideia de descentralizar a gestão da DGPC para, no mesmo momento, fazer uma fusão entre instituições que têm um histórico de independência não faz sentido. Isto cria outro problema ainda pouco discutido: os sítios arqueológicos precisam urgentemente de uma figura jurídica que lhes dê corpo e alma e a solução das unidades compósitas atirá-los-ia, novamente, para a dependência de outra entidade e, subsequentemente, para o esquecimento.

Vendo de outro prisma, o Governo pretende alterar algumas matérias fundamentais para a transparência e para a democracia interna das instituições. A passagem de um sistema de concurso público internacional com um júri altamente qualificado para a escolha dos diretores é um avanço significativo. Outros dos aspetos a salientar prende-se com o facto da implementação de planos plurianuais de financiamento, que criam uma maior previsibilidade para as direções. Preciso de ser acompanhado com uma dotação digna, senão trata-se de um presente envenenado.

O processo legislativo

Até ao momento, o que existe é apenas uma intenção do Governo. Ainda que existam várias versões (pelo menos, duas) de um anteprojeto legislativo produzido pela tutela, formalmente nem o Conselho de Ministros nem a Assembleia da República discutiram nem votaram nenhum documento. Que passos pode o Governo e a Assembleia da República dar?

Em primeiro lugar, como disse, cabe ao Ministério da Cultura consensualizar um documento junto dos responsáveis do setor e aprovar, em Conselho de Ministros, uma de duas coisas: Decreto-Lei ou Proposta de Lei. Se o Governo optar por um Decreto-Lei, isso significa que o documento só poderá ser alterado na Assembleia da República se um ou mais grupos parlamentares derem entrada de uma apreciação parlamentar. Pessoalmente, parece-me que vários partidos políticos estão com vontade de o fazer, o que é normal em processos como estes. Se o Governo optar por uma Proposta de Lei, isso significa que o documento é, obrigatoriamente discutido na Assembleia da República e todos os grupos parlamentares terão um período regimental para apresentar propostas de alteração ou até mesmo apresentar um documento alternativo ao do Governo.

Em suma: as intenções do Governo são razoáveis mas curtas no seu âmbito de atuação. Pretende imprimir um novo regime de funcionamento gestionário dos museus sem fazer alterações na DGPC. Apresenta algumas soluções mais democráticas e transparentes na decisão das diretorias das entidades, mas não responde como garantirá que esta nova autonomia pode ser posta em prática num quadro de subfinanciamento crónico. Não existe Autonomia sem Financiamento. A par destas alterações, o Governo tem de se apresentar pronto para um compromisso político em nome do financiamento público da Cultura.

 Luís Monteiro

Mestre em Museologia

Deputado à Assembleia da República pelo Bloco de Esquerda

Mais informação

O catálogo da biblioteca de Alexandria

O catálogo da biblioteca de Alexandria

A biblioteca de Alexandria era um dos mais importantes centros de conhecimento da antiguidade, guardava mais de meio milhão de livros e a sua destruição súbita pelo fogo representou um enorme retrocesso civilizacional.

Ou talvez não.

Talvez não houvesse só uma biblioteca em Alexandria, mas várias. Talvez meio milhão de obras seja um exagero, considerando o que sabemos e estimamos sobre o número de autores na antiguidade. Talvez o desaparecimento da biblioteca se deva a um processo de decadência com múltiplas causas e não a um único acontecimento catastrófico. Talvez o conteúdo da biblioteca importasse muito pouco para a evolução subsequente do conhecimento e das artes na Europa e no Médio Oriente. Não sabemos. Aquilo que não sabemos sobre a biblioteca de Alexandria é tão grande como os sonhos que tem alimentado.

E se, mesmo sem biblioteca, lhe conhecêssemos o catálogo?

Sabíamos com certeza a extensão da(s) biblioteca(s), sabíamos com mais rigor o número (e identidade) dos autores nela(s) representados. E, sobretudo, mesmo sem termos acesso ao conteúdo dos textos, sabíamos os títulos e os assuntos tratados e talvez isso tivesse sido relevante para a  evolução subsequente do conhecimento e das artes na Europa e no Médio Oriente.

Esta ideia tem estado a martelar-me a cabeça desde o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro. Ouvi a notícia na rádio em sobressalto enquanto tomava o pequeno almoço e, sem muito mais informação, saí de casa a pensar: “é um museu universitário, as bases de dados hão de estar num servidor qualquer no campus, não há de se ter perdido tudo!”. Ao longo do dia fui sabendo que não era assim. Fui lendo apelos vários à partilha de fotos e outros registos do acervo e do espaço expositivo, sempre a pensar: “não pode ser, não podemos estar dependentes disto para saber o que se perdeu, há de haver informação estruturada guardada em algum sítio!”. Um mês depois, na sessão especial dedicada à resposta do ICOM-CIDOC à situação, que teve lugar na sua Conferência Anual, a dimensão do problema atingiu-me em cheio como uma marreta.

Todos os que estávamos naquela sala somos oficiais do mesmo ofício: trabalhamos na gestão de informação e documentação em instituições que pretendem preservar a memória. Essas instituições são todas muito diferentes e estão em países tão díspares como a Austrália ou o Irão, passando por Portugal, pelo Chile, pela Alemanha, pela Nigéria ou os Estados Unidos. O que aconteceu no Museu Nacional, sabemo-lo dolorosamente, aconteceu como consequência de uma série de acontecimentos e (más) decisões que decorrem da atual situação económica, social e política do Brasil. Mas, nos restantes países representados naquela sala em Creta, algum de nós está mesmo livre de uma catástrofe que possa destruir os acervos das nossas instituições de memória?

A resposta é, obviamente, não. E não estou só a referir-me a desastres naturais, estou a referir-me também a este tempo em que vivemos, de tão grande mudança, que não nos dá garantias nenhumas que o país ou a instituição mais sólida e estruturada que conhecemos hoje não possa vir a ter a sua situação completamente alterada ainda antes da próxima geração.

Contudo, se os acervos podem não estar a salvo, a informação sobre os acervos tem que estar a salvo. Eu sei que a informação precisa de suporte e que os problemas que se colocam à preservação dos acervos podem também colocar-se à preservação dos suportes de informação. Mas é mais fácil garantir a cópia e a redundância da metainformação do que a salvaguarda dos objetos de informação. É difícil estruturar e dar sentido aos dados, mas há boa gente a trabalhar nisso há anos – muita dela no ICOM-CIDOC – e contamos com normas e terminologias que nos facilitam a vida. Podemos transferir a informação de um suporte para outro e o mesmo acontece com o formato em que a guardamos. A transmissão de informação é muito mais maleável do que a salvaguarda da materialidade das coisas que a suportam. No limite, como nos ensinou Ray Bradbury, não precisamos mais do que a nossa mente para preservar a memória do que realmente importa.

Perder objetos e perder a informação sobre os objetos é morrer duas vezes. Quando alguém morre afirmamos recorrentemente que essa pessoa não deixa de existir e isso não é só para confortar quem lhe sobrevive: já não há ninguém que precise de ser confortado pela morte do fundador de Alexandria e não temos dúvidas da existência de Alexandre III da Macedónia. Porque não percebemos que acontece o mesmo quando se perde a materialidade das coisas? Porque se todos os meus mortos continuam a existir na memória que eu tenho deles, também as coisas podem continuar a existir na minha memória depois de serem destruídas pelo fogo ou pela incúria dos homens. E podem continuar a existir na memória dos outros, se eu a registar e transmitir.

É essa a nossa obrigação como oficiais deste ofício de documentar e gerir informação. É para isso que devemos trabalhar todos os dias, para que possamos dizer com toda a segurança: se um item aparece nos nossos registos… é porque existe.

https://youtu.be/nsLGyEsute4&w=550

 Maria José de Almeida

Maria José de Almeida é Doutora em Arqueologia pela Universidade de Lisboa.

Até 2016 trabalhou nos municípios de Santarém e Cascais, desenvolvendo ações de arqueologia preventiva e gestão de coleções de bens arqueológicos. Foi responsável pela implementação do Sistema de Informação dos Museus de Cascais e coordenou a integração do mesmo na plataforma de Sistema de Informação Geográfica da autarquia. Fez parte dos corpos gerentes da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) desde 2002, tendo sendo presidente da direção no triénio 2007-2009. É membro do Grupo de Trabalho Sistemas de Informação em Museus da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD).

Atualmente integra a equipa da Direção de Serviços de Inovação e Administração Eletrónica da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

Curriculum detalhado aqui.

Sobre tragédias anunciadas, museus e parques de diversão – Gabriel Moore Bevilacqua

Sobre tragédias anunciadas, museus e parques de diversão – Gabriel Moore Bevilacqua

Não queria ser mais um cidadão ou profissional de cultura a externar indignação sobre a tragédia do Museu Nacional, uma vez que muitos colegas já o fizeram adequadamente. Mas resolvi escrever como forma de compartilhar parte da culpa e da estranheza que continuo a carregar. Inicialmente, tocar fogo no museu mais importante do país no ano de seu bicentenário (sim, nós o fizemos) pode parecer incompreensível, até brutalmente surreal. No entanto, o choque inicial acaba por dar lugar a aceitação de algo anunciado, óbvio, esperado.

Por Halley Pacheco de Oliveira [CC BY-SA 3.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], via Wikimedia Commons

Na cidade ou país – o Rio continua sendo a mais maravilhosa das nossas metáforas pátrias – em que se gastam fortunas em novos museus e projetos culturais mirabolantes, enquanto instituições com acervos preciosos permanecem soterradas no descaso e esquecimento, a relação causa e efeito começa a encadear-se em uma lógica perversa e incontornável.Os próprios conceitos colocados na ordem do dia nos parecem confusos e obscuros. Museu é quase qualquer coisa, entidade, espaço ou conceito (perdão pela indiscrição tautológica) que tenha uma programação cultural ou algo que com isso se pareça. Para criá-lo, basta batizá-lo. Acervo é um elemento ultrapassado, custoso, quase desnecessário na nova, revolucionária e sustentável equação museológica cunhada em terras tupiniquins. Para quê conhecer e interpretar o passado se podemos pular o presente e visitar um amanhã cheio de traquitanas e luzes coloridas?

Mais interessante e groundbreaking ainda é inventar os não-museus do amanhã só com um pouquinho de dinheiro público, passar o resultado para os cuidados do Estado corrupto/falido e finalizar colocando a galera global para tomar conta do novo equipamento. Apesar do choramingo eterno pela falta de recursos, dinheiro não foi problema, foi solução. Quem disse que não vemos progresso cultural por essas bandas? Qual a Disneylândia, com uma boa propaganda na telinha e uma ampla fila na entrada, tudo se paga e se justifica. Então, se não conseguimos distinguir o fogo do Museu Nacional do fogo do Museu da Língua Portuguesa ou acervo de cenografia, qual é o problema afinal? Por que tamanha comoção? Não bastaria juntar um troco, mesmo que com certo atraso, para reconstruir a coleção e o museu? Infelizmente, não.

Como bradou nosso distinto Ulpiano Bezerra de Meneses, museu sem acervo é igual mula sem cabeça. Apesar de bonitinho, não passa de folklore. Sim, acervos podem e devem ser digitais se objetivamos documentar a experiência humana recente. Basta reconhecer que cópia digital não é acervo, backup não é política de preservação e atividade museológica não se encerra em umsite ou em uma galeria bem montada com os gadgets do momento. Apesar das inúmeras

iniciativas que continuam a pipocar (mesmo com a ausência de recursos) a mera digitalização aliada à pirotecnia tecnológica jamais substituirá a materialidade dos acervos. Já vociferei antes contra a digitalização selvagem e seus problemas para as instituições de memória, mas reconheço que se ao menos isso tivesse sido feito no Museu Nacional hoje nos restaria mais do que apenas cinzas.

Até podemos chamar um arquiteto famoso e refazer o edifício com ares internacionais pós- modernos a beira mar (a generosa oferta do BNDES daria para rabiscar o desenho), mas recheá- lo a contento seria deveras complicado. Tudo isso para dizer que no país do vale tudo, da fachada e do engodo, museu é curinga, vai de mausoléu a parque de diversões com caça níqueis/público, e conservação é aquela de jardim e condomínio, que vale terceirizar porque é mais em conta.

Dito isto, a tragédia anunciada passaria a fazer sentido, seria até um desdobramento lógico. Só que não…, como diria a geração XYZ, pois as consequências são muito grandes e devastadoras para serem reduzidas a uma cadeia de mera causalidade. Com o incêndio de domingo queimamos não só o resquício material de inúmeros passados, mas a possibilidade de construção de futuras memórias coletivas e individuais. Mutilamos também uma ciência já fragilizada, cuja pesquisa se destacava pela diversidade e preciosidade das coleções do museu. Culturas e espécies já extintas foram dizimadas mais uma vez, talvez definitivamente, agora pelo desaparecimento de seus únicos ou poucos vestígios materiais. Se juntarmos a esse quadro de devastação a situação atual das duas instituições máximas de memória remanescentes (Arquivo Nacional e Biblioteca Nacional) e da vasta maioria dos nossos outros museus, nossa perspectiva enquanto sociedade organizada e Estado de direito torna-se ainda mais débil e duvidosa do que aquela apontada pela eleição que se aproxima.

A violência inicial do ocorrido nos levou a apontar dedos em busca de culpados para dar vazão à nossa justa indignação, mas o abandono das nossas instituições não é de hoje ou de anos, mas sim de décadas ou talvez séculos. O descaso e a incompetência apontam facilmente para o governo, para a universidade e órgãos públicos envolvidos na confusa e burocrática gestão do patrimônio cultural brasileiro. Se o objetivo da reflexão acerca desse imenso trauma é sua superação, essa identificação fácil e imediata, apesar de óbvia e necessária, não nos ajuda a distinguir com clareza a complexidade do problema. Nós, enquanto sociedade, devemos assumir a responsabilidade pela destruição do Museu Nacional em todas as suas instâncias. Enquanto representantes políticos corruptos e gestores incapazes ou incoerentes. Enquanto pesquisadores e profissionais egoístas, incompetentes e passivos. Enquanto cidadãos e eleitores ignorantes e suscetíveis.

Retornando ao objetivo inicial de compartilhar minha culpa e estranhamento, gostaria de desenvolver mais profundamente a questão da responsabilidade enquanto gestor, pesquisador e profissional de museu. Falamos pouco. Gritamos pouco. E fizemos menos ainda. Nosso simbólico abraço foi post mortem. Fomos incapazes de entender a especificidade do museu e priorizar suas demandas mais essenciais. Cometemos inúmeros erros e ignoramos premissas básicas do trabalho museológico. Não existe pesquisa ou exposição se o acervo não estiver documentado ou deixar de existir. Uma ação de difusão nunca pode ter prioridade de recursos se questões cruciais de infraestrutura, conservação, segurança e documentação não estiverem superadas. A difusão pode ser postergada em detrimento da salvaguarda das coleções, jamais o contrário.

Conhecer e documentar aquilo que temos é uma obrigação. A preservação física e a permanência de sentido devem ser reconhecidas como obrigações básicas e elementares. Devemos nos lembrar sempre de que temos um compromisso com as gerações futuras e não respondemos somente a demandas e pressões imediatas. A pesquisa ou a curadoria que fazemos (infelizmente conceitos muito apartados hoje) são apenas algumas das interpretações possíveis, não são as únicas ou as derradeiras. Nosso maior desafio é garantir acesso qualificado para que a sociedade possa construir conhecimento e narrativas a partir do que preservamos e não se dedicar a elaboração de um discurso único ou definitivo a respeito de nossas coleções.

O acervo não pertence a um pesquisador ou funcionário específico, mas sim à instituição que tem por obrigação garantir seu acesso à sociedade. A exposição não deve ser mais a única forma ou a estratégia prioritária de difusão de acervos. A desproporção, via de regra, entre a capacidade e alcance expositivo e o tamanho dos acervos aponta, obrigatoriamente, para a priorização de instrumentos digitais de acesso e pesquisa. No entanto, é fundamental também reconhecer o papel central e preponderante da conservação preventiva e do profissional de conservação nas instituições de memória. Costumamos brincar, não sem um gigantesco fundo de verdade, que se a palavra final não é do conservador, a instituição não pode ser séria.

O jeitinho, o improviso e o personalismo devem dar lugar ao trabalho embasado em conhecimentos e procedimentos técnicos consolidados e validados pelas comunidades profissionais especializadas. A nossa ética enquanto profissionais de memória/preservação deve ser mais forte do que os interesses, relações e rixas pessoais, do que a insatisfação com o trabalho ou com o salário, ou a ausência de condições que consideramos básicas. Devemos nos manifestar sempre, e relatar tudo que julgamos inadequado ou fora do lugar. Não devemos nos calar. Nossa postura precisa ser menos reativa e imensamente mais proativa. Temos o direito de conhecer as condições e obter informações a respeito do nosso patrimônio cultural. A ausência de recursos materiais não pode ser uma justificativa para a inação e a acomodação. Esperar não é mais saber.

Só vemos comentários de reitores e professores. Onde estão os conservadores, museólogos, arquivistas e bibliotecários do museu? É preciso reconhecer que o trabalho no museu é técnico e especializado. Sua gestão não é atividade secundária ou hobby de docente, pesquisador ou curador. Muito infelizmente, o curador no sentido clássico enquanto “cuidador” de acervos quase que inexiste hoje. Já a prioridade do docente é sua produção científica e a formação de seus alunos e orientandos. E se não for isso, algo está muito errado na universidade brasileira. O quão revelador e triste é a dependência da contribuição de pesquisadores e visitantes para tentar reconstituir qualquer representação do acervo que se foi. Onde estão os sistemas de documentação das coleções do museu? Será que o Museu Nacional já foi algo mais do que um mero repositório de fontes e espécimes para a pesquisa científica realizada na universidade? Quanto desse antes massivo e inesgotável acervo (nacional e não meramente universitário ou da UFRJ) mereceu atenção dos pesquisadores da universidade? O que foi feito do restante? Museu não é feudo e curador não deveria ser senhor de nenhuma coleção. Acervos públicos pertencem a sociedade e os funcionários das instituições que os preservam têm por obrigação não só garantir sua conservação, mas também seu acesso e transparência em relação a sua gestão e situação patrimonial.

Tragédia Museu Nacional

Por Felipe Milanez (Sent by the photographer — OTRS-sent) [CC BY-SA 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)], via Wikimedia Commons

As associações profissionais devem trabalhar pelos interesses de seus campos profissionais e de suas instituições e não pela suposta garantia medíocre de emprego vislumbrado pela carteirinha de profissional reconhecido por uma legislação torta e antiquada, mas continuamente ignorado e maltratado pelo mercado de trabalho e pelas próprias instituições as quais dedica sua vida. Já nos perguntamos quanto ganha (ou deveria ganhar) um museólogo, bibliotecário, arquivista ou conservador no Brasil? Precisamos de mais profissionais e menos de empregados. Trabalhar em um museu precisa ser mais do que fazer exposições para os nossos pares juntando obras em torno de textos herméticos e insípidos, que ao final dizem mais sobre o curador e a disfuncionalidade das instituições do que sobre as obras. Precisamos de diagnósticos, indicadores e metas próprios para avaliar o que está acontecendo em nossas instituições de memória. O valor de um museu é muito mais amplo do que a quantidade de público que ele supostamente recebe e maior ainda do que a cobertura de uma imprensa supostamente especializada, que jamais se deu ao trabalho de entender o objeto de sua nota antes de definir, avaliar, julgar ou corroborar. O evento, a notícia e a visibilidade são, quase sempre, vazios e fugazes.

Restou algo dos milhões e milhões investidos nas exposições blockbusters com sobras de acervos de museus gringos? Mas é fundamental para a formação do olhar culto dos brasileiros, diriam uns. Mas e quanto ao nosso British Museum e Natural History Museum, que se foi da noite para o dia, sem ao menos sabermos o que guardava? Nem os inventários e catálogos das coleções que se foram conseguimos acessar? Será que existem? Queremos ser MoMA, Louvre e Metropolitan, mas sequer conseguimos dizer o que temos e para onde estamos indo. Reconhecemos facilmente as obras primas dos outros, mas as nossas merecem pouca atenção, se formos capazes de identificá-las. Nossos milionários, nossa magnânima elite ilustrada gosta de investir em museus estadunidenses, mas tem receio das nossas instituições. A síndrome do vira-latismo tropical continua a nos assombrar.

Precisamos rever e reposicionar o lugar de nossos museus e acervos. A resposta não é criar novos museus, seja do zero ou a partir de escombros e ruínas. Vamos cuidar do que sobrou, daquilo que já (ainda) existe e continuamos a desconhecer. Vamos dar nome aos bois. Devemos reconhecer o que é museu e qual é o seu negócio, ou core business, como insistem outros. Precisamos seguir os códigos de ética que nós mesmo inventamos. Museu é coisa séria. Se a intenção é brincar de qualquer outra coisa, que ao menos tenhamos a coragem de nomear a contento. Palavra também é coisa séria.

Assim quem sabe concentramos melhor o quase nada em algum lugar digno de investimento. A opção, como diriam alguns colegas, seria arrendar tudo para algum país sério de clima temperado ou para um canal televisivo qualquer, e singrar de vento em popa a transformação (já em andamento) do Rio-Brasil na nação cenográfica que tanto estimamos. Futebol, carnaval, copas, olimpíadas, caipirinhas, favelas, fio dental e belas paisagens. O turismo, a indústria cultural e os companheiros que podem se mudar para Miami ou Portugal agradecem.

10 de setembro de 2018. (Oito dias após a hecatombe da memória cultural e científica brasileira)

Gabriel Moore Forell Bevilacqua
Cidadão e profissional de museus e arquivos envergonhado