Virtual vs Físico. A luta não existente

Virtual vs Físico. A luta não existente

Ontem, e em boa hora, participei no colóquio digital do ICOM Portugal que tinha o sugestivo título “Como sentir (na web) o peso do ar e da pedra?” e foi suscitado pelo texto provocatório da Patrícia do Vale com o seguinte título “Tudo será ainda instagramável? O museu por reinventar”. No debate fiquei ainda mais certo daquilo que tenho dito, em diversos locais, sobre esta dicotomia do Virtual vs Físico e da inexistência de uma luta titânica entre estes dois aspectos das nossas vidas.

Colóquio Digital ICOM PT

São vários os pontos que abordei durante o debate, mas tal como lá, vou aqui organizá-los em 5 pontos (lá foram 4 na intervenção inicial e depois acrescentei mais um durante o debate):

  • Políticas e Gestão
  • Conteúdos
  • Formação
  • Acessibilidade
  • Avaliação

Políticas e Gestão

Uma declaração primeira que nada tem a ver com o digital, mas que me irritou durante este tempo de confinamento. Não é possível compreender que instituições de referência, por causa de dois ou três meses de confinamento, coloquem em causa o trabalho de um conjunto de profissionais que lhes têm valido reconhecimento e louvores aos anos. Neste caso não é luta do digital vs físico, mas sim uma luta de valores e missão.

Relativamente à gestão a pergunta que se deve fazer é: que museus tinham pensado numa estratégia digital antes do COVID-19? Sem grande risco, julgo que é seguro dizer que muito poucos o tinham feito, certo? Ou seja, durante esta quarentena, os museus não responderam com um instrumento pensado previamente, sendo pró-activos antecipadamente, mas sim de forma reactiva a (vários e grandes) problemas que foram colocados aos museus. Na reacção notamos as diferenças entre museus. Especialmente nos recursos (financeiros e humanos) que têm à sua disposição, mas também nas assimetrias que o país não tem conseguido resolver. A tal luta entre Virtual vs Físico que digo não existir, deve ser vista como uma luta em integrar o digital naquilo que já existia antes, ou seja, o museu físico, as suas colecções e a relação entre estes e as suas audiências.

Conteúdos

Aqui a luta entre Virtual vs Físico é sempre mais polémica. A constituição de colecções digitais, representativas das físicas, tem levantado um conjunto de questões ao longo dos anos que entendia no passado, mas que agora me parecem cada vez menos admissíveis. O objecto digital não pretende substituir o físico, é uma impossibilidade! No entanto, o meio digital dá aos museus a oportunidade de produzir informação e conhecimento, ou melhor, de deixar produzir conhecimento a todos os que possam ter acesso, em cima do conhecimento que os museus detêm.

Além disto, como também mencionou a Laura Castro, a linearidade com que os produzimos, em tudo semelhante aos processos que herdamos da transmissão do conhecimento em suportes físicos, precisa de ser repensada tendo em consideração as diferentes valências que o meio (mencionado e bem pela Isabel Victor) proporciona.

Formação

Este é, sem qualquer dúvida, um dos calcanhares de Aquiles nos museus portugueses (e não só). A formação existente na área dos museus não abrange a complexidade do universo digital em que estamos inseridos. Nas diferentes áreas (documentação, conservação, gestão, mediação, comunicação, etc.) de actuação do museu há um conjunto de desafios que são colocados diariamente aos museus pela crescente actualização tecnológica, pela obsolescência constante, pela procura do “trendy”, pela novidade do tema ou simplesmente pela necessidade que embatem de frente com a ausência de competências digitais apropriadas nos profissionais de museus.

Este é um problema que o ICOM Portugal procurou enfrentar, participando no projecto Mu.SA, desenvolvendo com um conjunto de parceiros europeus um caminho de formação (MOOC e Curso de Especialização com Estágios em museus), focado na aquisição destas competências para 4 perfis profissionais emergentes na área digital. Sobre a ausência das competências digitais sentida nos museus e seus profissionais, os mais de 5000 inscritos no MOOC falam por si só.

Acessibilidade

O acesso é o maior argumento para quem é ainda relutante a juntar-se à luta de integração do virtual no mundo físico (espero que a este ponto já se tenham esquecido da luta Virtual vs Físico). Com as colecções digitais podemos dar acesso a quem está (literalmente) do outro lado do mundo. No entanto, importa não esquecer que não resolve tudo. A exclusão aqui mantém-se e deve ser um problema a colocar em cima da mesa sempre. Não só a infoexclusão (que per si é um grande problema ainda), mas também a exclusão económica e social que experimentamos neste período da pandemia com uma quantidade considerável de estudantes, que se viram privados de continuar a escola por não terem um computador disponível, por exemplo.

Avaliação

Por último, o ponto que introduzi no debate apenas, suscitado por outras intervenções, a avaliação. Ou melhor, uma reflexão que é necessária fazer sobre a avaliação para não continuarmos a insistir no número de visitantes para premiar os museus (agora temos mesmo que pensar noutras formas), mas também para não continuarmos a avaliar o universo digital pela relevância dada por cliques, por um bom SEO, por algoritmo Google, etc., mas sim por indicadores que tenham em consideração a qualidade com primazia sobre a quantidade.

E daqui em diante. Que museu queremos reinventar?

Temo, muito sinceramente, que não o queiramos reinventar. Temo que o esforço e as reflexões que tivemos durante este período caiam no esquecimento após o levantamento total das restrições. Temo que voltemos a visitar “em bando” e aos magotes o Louvre, o British, o Prado, o MNAA, etc., e que celebremos de novo as exposições e salas cheias de gente (e eu gosto de ver os museus cheios de gente, não me interpretem mal). Mas temo, acima de tudo, que nos esqueçamos que este susto enorme é uma das melhores oportunidades que tivemos para mudar o rumo das coisas e repensar o museu que queremos ter no século XXI.

Uma linda oportunidade que, em meu entender, poderíamos ter aproveitado para o efeito com a abertura dos concursos dos museus e palácios nacionais (que têm a boa notícia de pedir profissionais com formação em museologia), mas que, em boa parte, desperdiçamos. Um outro assunto, que se interliga, mas que terá texto próprio.

Museus: Não há autonomia sem financiamento – Luís Monteiro

Museus: Não há autonomia sem financiamento – Luís Monteiro

Durante o ano de 2018, o então Ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes, comunicou que era vontade do Governo abrir um dossier importante: o tão esperado regime de autonomia dos museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos.

Autonomia, Gestão Central, Financiamento

O debate é sobre o futuro, mas convém recuar um pouco no tempo. Aquando da “intervenção externa” da Troika, o Governo de então sentiu-se duplamente legitimado para reduzir ao máximo o investimento público. As áreas mais afetadas são sempre as historicamente mais vulneráveis, como é o caso da Cultura. O modelo era simples e eficaz, do ponto de vista financeiro: estrangulava-se liberdade de gestão aos museus e centralizavam-se todos os serviços centrais do Estado na área do Património num organismo que se veio a provar ineficaz e burocrático: a Direção Geral de Património Cultural (DGPC). Impõe-se a pergunta: será isso que o país precisa para garantir a salvaguarda e a divulgação do seu património cultural e artístico? Há vida para além da contração orçamental? Tem de haver.

Luís Monteiro deputado do BE © Shifter
Luís Monteiro © Shifter

Uma coisa é certa: tanto o Governo como os vários responsáveis no terreno admitem que a DGPC não responde aos problemas. Uma simples autorização para resolver um problema de canalização demora semanas. Não há inundação que aguente. O problema é que o documento provisório do Governo não apresenta qualquer alteração de fundo na máquina administrativa central, limitando-se a criar um regime de delegação de competências entre a DGPC e as várias entidades que dela dependem.

Um dos flagelos que hoje este setor vive é claramente a falta de profissionais em cada um destes sítios. Todos conhecemos casos de diretores que fazem horas de bilheteira e técnicos de conservação que servem como vigilantes em horas de almoço dos seus colegas. O cenário é negro e este diploma não almeja alterar nada a esse aspeto. Fará ou não sentido que o diploma objetivasse um rácio de pessoal para cada um dos espaços? A resposta a essa pergunta deslinda um problema que se colocará mais à frente: afinal, de que tipo de autonomia estamos nós a falar? Autonomia total na contratação? Com que recursos? É elementar que o Governo responda ao que ainda não respondeu.

O último fator que deve merecer a nossa atenção é a ideia da criação das unidades compósitas. Parece que o Governo já desistiu da ideia, até porque se apresentou como absurda logo à partida. A ideia de descentralizar a gestão da DGPC para, no mesmo momento, fazer uma fusão entre instituições que têm um histórico de independência não faz sentido. Isto cria outro problema ainda pouco discutido: os sítios arqueológicos precisam urgentemente de uma figura jurídica que lhes dê corpo e alma e a solução das unidades compósitas atirá-los-ia, novamente, para a dependência de outra entidade e, subsequentemente, para o esquecimento.

Vendo de outro prisma, o Governo pretende alterar algumas matérias fundamentais para a transparência e para a democracia interna das instituições. A passagem de um sistema de concurso público internacional com um júri altamente qualificado para a escolha dos diretores é um avanço significativo. Outros dos aspetos a salientar prende-se com o facto da implementação de planos plurianuais de financiamento, que criam uma maior previsibilidade para as direções. Preciso de ser acompanhado com uma dotação digna, senão trata-se de um presente envenenado.

O processo legislativo

Até ao momento, o que existe é apenas uma intenção do Governo. Ainda que existam várias versões (pelo menos, duas) de um anteprojeto legislativo produzido pela tutela, formalmente nem o Conselho de Ministros nem a Assembleia da República discutiram nem votaram nenhum documento. Que passos pode o Governo e a Assembleia da República dar?

Em primeiro lugar, como disse, cabe ao Ministério da Cultura consensualizar um documento junto dos responsáveis do setor e aprovar, em Conselho de Ministros, uma de duas coisas: Decreto-Lei ou Proposta de Lei. Se o Governo optar por um Decreto-Lei, isso significa que o documento só poderá ser alterado na Assembleia da República se um ou mais grupos parlamentares derem entrada de uma apreciação parlamentar. Pessoalmente, parece-me que vários partidos políticos estão com vontade de o fazer, o que é normal em processos como estes. Se o Governo optar por uma Proposta de Lei, isso significa que o documento é, obrigatoriamente discutido na Assembleia da República e todos os grupos parlamentares terão um período regimental para apresentar propostas de alteração ou até mesmo apresentar um documento alternativo ao do Governo.

Em suma: as intenções do Governo são razoáveis mas curtas no seu âmbito de atuação. Pretende imprimir um novo regime de funcionamento gestionário dos museus sem fazer alterações na DGPC. Apresenta algumas soluções mais democráticas e transparentes na decisão das diretorias das entidades, mas não responde como garantirá que esta nova autonomia pode ser posta em prática num quadro de subfinanciamento crónico. Não existe Autonomia sem Financiamento. A par destas alterações, o Governo tem de se apresentar pronto para um compromisso político em nome do financiamento público da Cultura.

 Luís Monteiro

Mestre em Museologia

Deputado à Assembleia da República pelo Bloco de Esquerda

Mais informação

Cultura precária e cultura da precariedade – como sair daqui?

Cultura precária e cultura da precariedade – como sair daqui?

Amanhã retomo as voltas que costumo fazer pelos museus do país com quem trabalho. Serão três dias com colegas de diversos museus algarvios para falar sobre a documentação das colecções, o inventário, necessidades dos seus sistemas de informação, novas potencialidades, novos projectos, entre outros assuntos que sobre sistemas de informação dos museus que certamente serão tratados.

Estas minhas andanças têm se revelado, ao longo dos anos, uma excelente forma de tomar o pulso à situação dos museus e dos colegas que aí trabalham e permitem-me também construir uma espécie de indicador (nada científico) do estado da museologia portuguesa. Vejo-o como uma espécie de quadro geral sobre a saúde dos museus e, na minha cabeça, os diversos estados são representados por “smileys” ou “emojis” que vão do famoso contente, até ao zangado, passando por diversos estados.

Este indicador têm sofrido uma queda constante nos últimos anos. Recordo com saudade os idos anos da criação do IPM e da Rede Portuguesa de Museologia, da junção do IPM com o IPCR no IMC, da publicação da Lei-quadro de Museus e da sensação, penso que generalizada, que teríamos os instrumentos necessários para não voltar atrás e as condições para o desenvolvimento da museologia e museus portugueses. No entanto, e ao contrário da maior parte das previsões e vontade de muitos colegas, hoje estamos, no tal indíce, com um “emoji” completamente triste e deprimido. Então e como chegamos aqui? O que falhou? Onde falhamos?

Cultura da precariedade

Este texto foi motivado, devo dizer, pelo texto publicado no Facebook por Helena Miranda, uma colega que trabalha no Museu da Música há 10 anos e que mantém com o museu uma relação profissional de completa precariedade. Coloco aqui o texto para que o possam ler com os vossos olhos.

O testemunho de Helena Miranda, que tem sido partilhado por diversos colegas desde que foi publicado, é um de tantos que vou ouvindo, mas reafirma (no caso com uma boa dose de coragem que saúdo) a continuidade de uma situação que eu vivi no final dos anos 90 e que, desde então, se tem mantido em diversas entidades públicas, apesar dos contínuos anúncios de medidas por diversos responsáveis de diferentes governos que visam, segundo os próprios, dar dignidade ao sector e resolver de uma vez por todas esta matéria. Apesar dessas boas intenções, o resultado que temos agora é péssimo. Temos uma Rede Portuguesa de Museus que é inoperante, uma direcção geral de património que está asfixiada, uma Lei-quadro de museus que não é cumprida ou respeitada pelos diversos governos, museus que fecham, museus que não têm quadro de pessoal (ou que está todo a caminho da reforma sem a necessária renovação das equipas), museus que se mantêm abertos com o esforço de um, vá dois técnicos, descontinuidade de programas de proximidade com as comunidades, colecções sem as condições devidas, enfim… um conjunto de situações de que vou tomando conhecimento e que são motivo para a frustação e desmotivação que sinto entre os profissionais de museus.

Cultura precária

A manutenção desta situação e as consequências que daí advêm são fáceis de prever. Se continuarmos este jogo de empurrar com a barriga os diversos problemas do sector cultural e dos museus em particular, teremos, num futuro não muito distante, deixado um legado miserável a quem nos suceder. É mais do que tempo de deixar para trás a situação de Cultura precária em que nos temos vindo a afundar e aproveitar uma das melhores e mais bem formadas gerações de profissionais na área dos museus, com provas dadas a nível internacional, dando-lhes a oportunidade de contribuir activamente para o desenvolvimento dos museus no nosso país.

Tenho a certeza que são muitos os profissionais de museus com qualificações para levar por diante esta tarefa de retomar o bom caminho, mas para tal é necessária uma verdadeira vontade e um compromisso sério por parte dos responsáveis políticos do sector.

Um compromisso que veja a cultura e os museus não apenas através da quantificação dos visitantes aos museus, mas como um investimento que dá retorno através do turismo, que veja a importante ligação entre museus e escolas, onde os primeiros devem ser encarados como lugares de complementariedade dos programas escolares, que veja os museus como um fórum de discussão e debate participativo e não como instrumento político de propaganda, que veja no museu um papel activo na transformação da sociedade actual e não meramente o espelho do seu passado “glorioso”, enfim um compromisso que permita deixar para o futuro uma situação condicente com os excelentes profissionais que temos.

Nos próximos dias terei certamente a oportunidade de falar sobre este e outros assuntos com vários colegas algarvios, mas acho que é necessário criar as condições para que a nossa voz e a voz das associações que nos representam voltem a ser atentamente ouvidas. Algumas destas questões têm sido levantadas pelo ICOM Portugal nos locais próprios, mas a sensação é que os interlocutores têm “ouvidos de mercador”. Como tal é importante que todos possam contibuir para discutir estes assuntos e, em breve, teremos uma assembleia geral do ICOM Portugal onde estes assuntos podem e devem ser discutidos amplamente. Acho que seria uma excelente oportunidade para tentar colocar estes problemas na agenda mediática.

O Lugar dos Jovens nos Museus – Marta Ornelas

O Lugar dos Jovens nos Museus – Marta Ornelas

O debate “Museus Hoje e Amanhã: Qual o Lugar dos Jovens?” teve lugar na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva no passado dia 30 de Novembro de 2014 e foi organizado pelo colectivo de jovens FAZ 15-25.

Neste debate, para além de ouvirmos o testemunho dos jovens implicados neste colectivo, ouvimos também as propostas do Colectivo Tempos de Vista, do Programa de Estágios Jovens Animadores do Museu da Eletricidade, do Carpe Diem Arte e Pesquisa, da Escola Superior de Educação de Lisboa, do Professor Ricardo Bak Gordon e da artista Ana Vidigal. Todas estas pessoas e grupos explicaram-nos como é valioso trabalhar em conjunto com jovens, potenciando uma relação empática e engrenada entre estes e os museus. Para estes jovens foi possível desmistificar a ideia do artista como génio e do museu como espaço sacralizado, convertendo, tanto os artistas como os museus, em algo acessível e humanizado.

No espaço de debate concluímos que existem constrangimentos à frequência de jovens nos museus muito semelhantes aos das décadas de 60, 70 e 80, tal como nos contaram os adultos que nessa época eram jovens, nomeadamente a acessibilidade geográfica e intelectual, numa sociedade social e economicamente segregada. Relevou-se, no entanto, o importante papel da Sociedade Nacional de Belas Artes e da Fundação Gulbenkian, nos anos 70, na mudança de mentalidades e na criação de condições para a acessibilidade dos jovens ao mundo artístico. Referiu-se ainda que na década de 70 não existiam museus de arte contemporânea em Portugal.

Tal como nas décadas anteriores, hoje ainda se assiste a a uma forte presença de públicos jovens nos museus estrangeiros, ao contrário do que acontece em Portugal, onde as visitas de jovens a museus são pautadas pela intervenção da escola. A escola, no entanto, apresenta hoje muitas dificuldades em levar os estudantes aos museus, sobretudo por questões económicas relacionadas, não tanto com o custo da entrada nos museus, mas mais com o custo do transporte necessário para lá chegar. Estes constrangimentos implicam, muitas vezes, que as deslocações de escolas em visitas de estudo combinem a ida a vários museus no mesmo dia, algo que se torna cansativo para os jovens (tal como acontece com muitas outras pessoas não jovens que se submetem a este tipo de experiência), que acabam por ter um desfrute pautado pelo cansaço e consequente desinteresse.

Os participantes adultos no debate contaram-nos como na década de 80 os visitantes eram acarinhados nos museus estrangeiros, tendo tido, por isso, a possibilidade, enquanto jovens, de usufruir de experiências mais interessantes fora do país.

Relevou-se a importância dos Serviços Educativos para uma maior abertura dos museus aos jovens, salientando-se ainda o facto de os museus públicos contarem com verbas menores do que as dos museus privados para o sector educativo. Assim, este factor compromete a qualidade da resposta que os museus públicos podem oferecer, sobretudo pela escassez de recursos humanos.

Houve ainda vozes que se manifestaram pela importância do papel das universidades como instituições formadoras que deveriam ser mais activas e ter um papel mais relevante na relação com as comunidades, nomeadamente com as instituições culturais.

Referiu-se ainda o desinvestimento governamental que nos últimos anos tem sido feito na Educação Artística, facto que compromete a acessibilidade de todos os jovens, deixando lugar a que apenas aqueles cujas famílias valorizam as componentes artísticas da sociedade e que possuem situações económicas sustentáveis possam, de forma regular, participar em actividades artísticas, seja nos museus ou noutras instituições que trabalham com pressupostos artísticos.

Ainda que, neste contexto, haja poucos jovens com interesse em áreas culturais e artísticas, salienta-se o esforço de muitos educadores que continuam a levar os seus alunos aos museus, algo que deve ser um trabalho contínuo, tanto quanto possível.

Foi também referido que muitos museus não têm sensibilidade para atrair os jovens, na medida em que continuam a optar por modelos tradicionais de visita guiada, em regime de fala-escuta unilateral, muitas vezes em tom monocórdico e sem lugar à participação colectiva. Referiu-se o termo “visita mediada” como algo diferente e mais aliciante. Por outro lado, o projecto expositivo tradicional do “quadro na parede” também parece não ser muito atractivo para os jovens, requerendo-se também novas ideias para expor.

Apesar de haver algumas opiniões contra a ideia de que o museu possa expor em locais públicos, como por exemplo em centros comerciais, os jovens referiram que este tipo de inicativas é positivo, pois o museu deve ser levado “à praça pública”.

Concluímos também que a importância dada à participação dos jovens na programação dos museus é, em Portugal, ainda um pouco negada, embora estes projectos pontuais possam ser o motor de iniciação a novas práticas, implicando os jovens de forma a que valorizem as áreas culturais e artísticas, atribuindo-lhe um papel emancipador e transformador.

Colectivos, plataformas artísticas, serviços educativos, residências, redes e parcerias parecem ser palavras-chave para atrair os jovens aos museus. Os museus devem, então, manifestar interesse numa abertura a novas propostas que considerem, valorizem e integrem o pensamento dos jovens.

Os organizadores deste debate fazem parte do FAZ 15-25, um colectivo de jovens entre os 15 e os 25 anos com formação em áreas diversas que estão envolvidos na programação da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Possibilitando uma flexibilidade no grau de envolvimento de cada membro do colectivo, o FAZ 15-25 tem como objectivo dar oportunidades aos jovens para se implicarem na concepção e prática de actividades que lhes permitam desenvolver competências artísticas, de organização, de comunicação e de empreendedorismo. O colectivo trabalha directamente com profissionais de várias áreas artísticas e convive com os visitantes do museu. Desenvolve ainda redes sociais, blogs e apps, também com o intuito de chamar ao museu outros jovens.

A participação dos jovens na programação do museu parece ser uma importante mais-valia do FAZ 15-25. A coordenadora deste interessante projecto, Filipa Alves de Sousa, explica-nos a importância de uma metodologia para o programa que implica, por um lado, ter as necessidades e interesses dos jovens como ponto de partida para a programação, e por outro lado, a responsabilização dos membros envolvidos. O programa tem que ser flexível, aberto e com uma dinâmica social, ao mesmo tempo disciplinado, estruturado e com estratégias bem definidas. O seu papel como coordenadora é ser a mediadora entre o grupo e o Museu e fazer com que as coisas aconteçam. Para isso, é necessária uma mentoria próxima com os membros do colectivo, bem como a preparação de conteúdos atractivos. Um dos principais objectivos do projecto é também proporcionar momentos de encontro e conversa informal entre profissionais inspiradores, já que os jovens são muitas vezes movidos por pessoas com histórias reais que quebrem barreiras sociais e hierárquicas e lhes apresentem possibilidades de percursos pessoais e profissionais.

Alguns jovens deram-nos o seu testemunho, que aqui reproduzimos:

“Para mim, o mais importante tem sido o trabalho em equipa. Eu ando há muito habituado a trabalhar sozinho, individualmente, e não gostava tanto de trabalhar em equipa. O FAZ incutiu-me o gosto de trabalhar em equipa, em colectivo. Tudo o que fazemos é em grupo. O trabalho individual é, aqui, um conceito estranho. As experiências, além de contínuas, são intensas e destacam-se pela partilha de conhecimentos e a fluidez das ideias. Descontraidamente dedicados, trabalhamos.” (Pedro, 25 anos – Licenciado e Pós-graduado em Antropologia)

“A mais-valia tem sido a oportunidade de desenvolver trabalho na dinamização cultural num contexto. Aprendemos uns com os outros, há uma inter-ajuda. É a possibilidade de ser num contexto e não sozinhos e ter esse apoio tem sido um factor diferenciador.” (Sofia, 21 anos – Estudante de Design de Equipamento)

“Eu estou aqui há pouco tempo, há um mês. Mas aquilo que eu procuro no FAZ, e que tenho encontrado até agora, é ter espaço para expormos as nossas ideias. Nós borbulhamos ideias todos os dias. Aqui podemos partilhá-las e ter um espaço para desenvolvê-las, sermos ouvidos e fazermos coisas. Tornarmo-nos activos, tornar essas ideias em realidade, em coisas concretas.” (Rebeca, 24 anos – Licenciada em Jornalismo e com um Curso Profissional de Fotografia)

“O que mais me tem feito sentir realizada por estar no FAZ foi poder tomar consciência de competências que eu já tinha, mas que tinham sido pouco desenvolvidas, como é o caso da competência para falar em público, através da realização de visitas guiadas. Fazer visitas guiadas no Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva foi uma forma de eu perceber que era, de facto, capaz de falar em frente a uma assistência. Isso foi muito importante para mim, perceber que competências é que eu tenho a dar ao grupo e ao Museu, para além daquilo que eu tenho a aprender com colegas de outras áreas, como por exemplo dos audiovisuais, ou colegas mais novos, como a Beatriz C. e a Daniela, cuja cultura geral, entusiasmo e maturidade me supreenderam muito.” (Inês, 24 anos – Mestre em História de Arte)

“Aquilo que considero fulcral no FAZ é a bagagem que nos dá, não só a nível de responsabilidade, pois temos de contactar com o público, mas também ao nível do trabalho em grupo, que não é uma coisa a que esteja propriamente habituada. Para além destes factores, foi muito bom encontrar pessoas com os mesmos interesses que eu e com vontade de mudar aquilo que são os museus em Portugal actualmente. O FAZ trouxe mais à minha vida do que eu esperava, para além da vontade de fazer coisas diferentes no âmbito museológico, trouxe-me amigos.” (Margarida, 22 anos – Mestranda em Museologia)

“O que me fez vir para o FAZ foi poder colaborar com um museu de que gosto, e poder fazê-lo entre amigos. Comecei por ir a uma sessão Conversa com Eles com uma amiga após a qual os actuais colegas foram carinhosamente chatos com o ”vem vem”! Quanto às mais-valias do projecto, acima de tudo experiência, a diferentes níveis, e oportunidades de formação gratuita ou com desconto associadas ao networking no mundo artístico.” (Paula, 24 anos – Licenciada em História de Arte)

“Juntei-me ao FAZ por sugestão de uma amiga e o que me prendeu desde logo foram as reuniões. Nas Conversas com Eles temos oportunidade de falar com pessoas da área cultural e artística e há uma enorme partilha de experiências e aprendizagem do mundo real, entre aspas. Eu sou da área das Humanidades e das Artes e o FAZ complementa a minha formação, porque nos põe em contacto directo com o Museu. Acaba por ser uma parte prática que a faculdade não me dá. Aqui temos a liberdade para elaborar projectos relacionados com os nossos interesses e temos contacto com o público. É um grupo que, apesar das várias áreas de formação, temos todos o mesmo interesse e acho que isso se sente cada vez mais na união do colectivo. Nós somos um grupo de jovens que quer mudar e dinamizar esta ideia de Museu que há em Portugal e aqui nós temos um sítio onde somos ouvidos e apoiados nas nossas ideias. O Museu acaba por ganhar com isso, já que nós fazemos de tudo para atrair todos os tipos de públicos, principalmente os jovens como nós.” (Teresa, 22 anos – Estudante de Licenciatura em Estudos Artísticos)

“Há duas razões maioritárias que me mantêm aqui. Primeiro porque temos acesso a artistas em conversas informais. Por isso, a maneira como falamos e exploramos aquilo que queremos saber é completamente diferente. E segundo, porque participamos em várias coisas no museu. E isso permite-nos ver o que é que está por detrás do pano, o que é que se passa, como é que as coisas acontecem. Isso é muito importante para quem está no mundo das artes. Tem sido fantástico até aqui, estou sempre a aprender! Com a ajuda da Filipa e do museu, damos ideias e fazemos as coisas à nossa maneira. Somos nós que tentamos, ao máximo, contribuir com o nosso trabalho.” (Daniela, 17 anos – Estudante de Artes Visuais no Ensino Secundário)

“As mais-valias deste projecto são para mim a possibilidade de contactarmos com pessoas que à partida estão muito distantes de nós, como por exemplo artistas, curadores, designers… É muito importante perceber os percursos deles e perceber que nem sempre foram percursos lineares. Estar aqui no museu, ter acesso a esta realidade permitiu-me perceber muita coisa. É que a museologia teórica que aprendemos na faculdade é uma coisa, estar aqui é outra completamente diferente. As conversas que nós temos com o público que denominamos Conversas Connosco ensinaram-me muitas coisas, entre elas a ter um maior à-vontade para falar em público. A colaboração com os artistas foi também uma das experiências mais importantes para mim, nomeadamente a participação em performance. Aprendi muito no contacto com os meus colegas, que são maioritariamente das áreas das artes, mas de escolas e cursos diferentes. A multiplicidade de perspectivas no grupo contribui de facto para o enriquecimento dos nossos projectos. São projectos que nós pensamos, estruturamos e gerimos durante as nossas reuniões, mas que só são possíveis com a ajuda do museu.” (Teresa, 24 anos – Estudante de Licenciatura em História de Arte)

Mais informações sobre projecto FAZ 15-25 estão disponíveis na internet através de diversos canais, como o Facebook, o WordPress ou o YouTube. São recursos criados pelo colectivo e que podem ser consultados mediante uma pesquisa simples por “FAZ 15-25” num motor de busca como o Google.

Marta Ornelas é doutoranda em Artes y Educación – Pedagogías Culturales en Museos na Universidade de Barcelona. Foi professora de Artes Visuais no ensino secundário e no ensino superior e tem uma especialização em ensino de artes pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, em Lisboa. É licenciada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa e Mestre em Museologia pela Universidade Nova de Lisboa.

É membro da direcção da APECV (Associação de Professores de Expressão e Comunicação Visual) e membro fundador da Acesso Cultura. É também é membro da InSEA (International Society for Education Through Art), da Rede Ibero-Americana de Educação Artística e do GEM (Group for Education in Museums, UK). Coordenou projectos em escolas com a presença de artistas. Participou no projecto europeu ITEMS (Innovative Teaching for European Museum Strategies), com colegas de Itália, França, Hungria, Letónia e Luxemburgo. Coordenou uma equipa de trabalho para uma publicação sobre projectos escolares com museus, a ser editada pelo Ministério da Educação. Tem publicado artigos e apresentado comunicações no âmbito da educação artística e da educação em museus.

No photo… please! No photo!

No photo… please! No photo!

O título deste post retrata uma história que recordo sempre que o tema da fotografia dos museus vem à baila. É automático, sempre que alguém inicia uma conversa sobre o tema lembro-me sempre da zelosa funcionária do Convento de Cristo em Tomar que “circulava” entre algumas dezenas de visitantes no espaço da Charola sempre a dizer, num tom ameaçador: “No photo! No photo, please!”

Devo dizer que, de certa forma, compreendi a freima daquela senhora. Compreendi porque, tendo alguns conhecimentos de conservação preventiva e sabendo que as pinturas daquele espaço estavam a ser ou tinham sido restauradas, imaginei que as estritas regras em relação à fotografia naquele espaço se deviam a questões de conservação. No entanto, sempre achei que nesses casos (de difícil justificação, segundo alguns estudos), mais valia ter sintética apropriada que pudesse explicar, de forma resumida, os potenciais perigos para o património e fazer com que a funcionária interviesse apenas quando visse alguém a tentar tirar uma fotografia com flash (as sem flash não teriam problemas neste tipo de casos, imagino eu).

Há uns tempos atrás, o ICOM Portugal e a Acesso Cultura motivados pela publicação do despacho que publica a regulamentação para “Utilização de Imagens de Museus, Monumentos, e outros Imóveis afectos à Direcção-Geral do Património Cultural” e por diversas reflexões sobre o tema como a da Maria aqui e no Público (não tenho o link) ou sobre o mesmo tema em países como a França (que podem ser lidas aqui e aqui), decidiram levar o assunto a debate, organizando duas sessões simultâneas em Lisboa e Porto.

As conclusões (poucas devo dizer no caso do Porto) e questões abordadas (muitas devo dizer) no debate já foram entretanto publicadas pela Acesso Cultura e não pretendo com este post falar sobre o debate em si, mas antes deixar apenas a minha opinião sobre o tema, ainda que esta esteja “infectada” com as interessantes intervenções dos convidados.

Em primeiro lugar um ponto que é, na minha opinião, fundamental: quaisquer tipos de direitos (autoria, conexos, propriedade, etc.) devem ser sempre respeitados, sejam eles mais restritos, como me parece ser o caso da maior parte das instituições em Portugal, ou declaradamente abertos, como é o caso, quase sempre mencionado do Rijskmuseum, com a utilização de licenças Creative Commons (uma prática a seguir por cá, digo eu!).

Colocando esse ponto como premissa essencial subsistem outras questões. O que é a utilização comercial de uma fotografia? Implica que haja um proveito direto da sua utilização? O valor pedido em Portugal é exagerado? As regras de acesso são restritivas e demasiado burocráticas? Será que a utilização comercial das imagens das colecções e património edificado é, em si, um negócio rentável? Paga, pelo menos, os recursos que o trabalho de digitalização exige? Eu tenho uma opinião muito relutante sobre este ponto, julgo que não é, pelo menos o modelo de negócio actual, rentável ou capaz, pelo menos, de assegurar os custos com a digitalização do património. No entanto, não tenho uma ideia luminosa para resolver o “problema”! Este é um ponto que não deveria ser debatido (o debate previa apenas a utilização sem fins comerciais), mas foram vários os intervenientes a colocar este ponto em cima da mesa.

Por outro lado, e tendo em conta a discussão internacional sobre este assunto e a crescente disponibilização de imagens das colecções por parte de diversas instituições em “open access” (Getty, Rijksmuseum, etc.), em que ponto ficamos em relação à utilização das imagens das colecções e edifícios para uso privado? Ficamos confusos, a acreditar no que leio no despacho. Em primeiro lugar gostaria de perceber o que se entende por uso privado. Posso utilizar uma foto no “desktop” do meu computador? Posso usar essa foto para ilustrar um post meu aqui no Mouseion? Posso partilhar a foto nas redes sociais? E se lhe quiser colocar um comentário? Posso alterar e ainda assim utilizar essa imagem? A utilização, sem custos, mas ainda assim com autorização, apenas está prevista para os casos de trabalhos científicos e académicos, o que me parece ser um impedimento para a sua utilização, no entanto, alguns dos nossos museus/palácios têm as suas colecções (re)publicadas no Google Art (e bem) e a pergunta que se impõe é: o Google estará a infrigir as regras ao promover a partilha nas redes sociais daquelas imagens? Se partilhar via Art Project não preciso de pedir autorização?

São diversas questões que se levantam quando penso neste assunto e, como é óbvio, julgo que ninguém terá resposta pronta e eficiente para todas as questões, no entanto, e saltando uma questão importante que é a conservação dos bens culturais que me parece apenas uma questão de bom senso e não uma desculpa para proibir as fotografias, a maior questão que este tema levanta para mim relaciona-se com o controlo e avaliação da utilização das fotografias (uma tarefa quase impossível, segundo ouço dizer) de forma ilícita. Questão que se levanta para as políticas mais restritivas e para as mais abertas, mas que está facilitada, no meu entender, no segundo caso, dado que o controlo pode ser mais direccionado para meios que implicam maior qualidade das imagens.

Se eu tivesse a meu cargo a direcção de um museu faria tudo ao meu alcance para que a política de utilização de imagens das colecções e edifício desse museu fossem tão abertas quanto possível, tal como defende Nina Simon. Perderia certamente alguns euros, mas tenho a certeza que teria um retorno bem mais proveitoso na participação e envolvimento da comunidade no quotidiano do museu.

© imagem: Alexandre Matos (tive algum receio de utilizar imagens indevidamente 🙂 )