- Definir e implementar políticas que coloquem o inventário, catalogação, estudo e gestão de colecções como prioridade para os museus (não querendo com isto dizer que se neglicencie o restante, mas não se fazem omeletes sem ovos! Não se comunica bem aquilo que se desconhece ou conhece pela rama*);
- Fazer com que essas políticas permitam implementar planos de documentação em que a normalização de processos, estruturas e terminologias possa contribuir para a disseminação real do conhecimento das colecções;
- Fazer estudos de públicos centrados na expectativa e não na experiência, ou seja, procurar o que pretendem os públicos e não aquilo que eles sentem relativamente à sua visita a determinado museu ou colecção;
- Definir um modelo de documentação de colecções centrado no conceito COPE (Create Once, Publish Everywhere) que permitiria, entre outras questões, a optimização dos recursos despendidos no processo;
- Abraçar novas ferramentas como o “Storytelling“, por exemplo, na planificação da utilização e exposição das colecções (e pensar nelas nos processos de documentação e gestão de colecções também dava jeito, já agora);
- Olhar, seriamente, para aquilo que é o poder da Rede Social que temos à nossa frente (ou no bolso) e utilizar, sem constrangimentos (a não ser os éticos, claro), esse poder em benefício da construção desta nova prática.
Recorrentemente voltamos às questões da comunicação dos Museus (sobre as colecções) com as suas audiências. Seja a comunicação dentro de portas, seja a comunicação com o exterior, física ou virtual (certamente teremos em breve de rever um pouco estes conceitos), o Museu tem assumido, fruto de diversas circunstâncias, o papel de replicador das disciplinas que sustentam a investigação sobre as suas colecções (arte, história, zoologia, botânica, etc.) na forma e conteúdo utilizados para a comunicação das colecções.
É um tema que tem suscitado, ainda que por motivos diferentes, textos muito interessantes da Maria Isabel Roque (aqui e aqui) e da Maria Vlachou (aproveito para destacar este a propósito do livro com as conversas entre Martin Gayford e Philippe de Montebello) e que me é particularmente caro, porque frequentemente estou nos dois lados da barricada: o de quem prepara a documentação sobre as colecções (que deveria sustentar a sua comunicação) e o de quem vai ao museu e procura conhecimento, admiração, reflexão, supresa, etc.
Esta dupla perspectiva é, devo assumir, uma chatice para quem me acompanha. Passo a explicar. Cada vez que visito um museu e vejo informação sobre as colecções, em folhetos, tabelas, etiquetas, folhas de sala, meios multimédia, aplicações, ou outro qualquer meio, o meu primeiro pensamento vai para as circunstâncias da criação, organização e publicação da informação que tenho disponível. Imaginam vocês o que acontece a quem vai a meu lado, quando começo a falar sobre a dificuldade que existe na sistematização dos dados nos museus, a qual é possível identificar, quase sempre, comparando informação básica, por exemplo medidas, ou datas, de dois objectos colocados numa mesma sala. Sim é isso mesmo… um sonoro bocejo!
Quando me apercebo do bocejar da companhia, o que acontece normalmente logo a seguir, tento desligar-me da “visão deturpada” pelos interesses profissionais e académicos (acreditem que é complicado) e procuro contexto, ou seja, e como bem diz a Maria Vlachou, estou “… à procura de algo que possa ter significado para nós, algo que possa deliciar-nos, surpreender-nos, fazer-nos sentir bem ou mais ricos ou mais conscientes de nós mesmos e do mundo”. Procuro retomar o momento em que vi, pela primeira vez, uma pedra lunar na exposição “A Aventura Humana” (apresentada, em 1988, no Museu Nacional de Etnologia) e pensei, na inconsciência própria da idade, “se conseguimos ir à lua, conseguiremos fazer tudo! Isto só tem como correr bem daqui para a frente!”
Devo dizer, antes de mais, que nem tudo depende da informação que o Museu dá a quem o frequenta. Não tenho a certeza se aquela pedra lunar teria mais alguma explicação para além do seu nome e proveniência (se bem me recordo tinha também informação sobre o seu proprietário), mas o projecto da exploração lunar e as séries e filmes de ficção científica (Espaço 1999, Galactica, Guerra das Estrelas, etc.) exerciam, nos anos 80, um fascínio brutal sobre a nossa imaginação e aquela pedra aproximou-me do meu sonho de me tornar num explorador do espaço ou de ser o primeiro espinhense a cursar a academia dos Jedi. No entanto, quantas vezes é que este tipo de situações acontece? Quantas outras não ficamos desiludidos perante um objecto, por não termos o conhecimento, informação, contexto (ou até imaginação) necessários para nos maravilharmos?
Pode o Museu ficar descansado quanto a esta questão?
A resposta é óbvia. Não pode! Mas não é verdade que parece estar descansado? Não continuamos a ver, salvo muito honrosas e boas excepções, um conjunto de informação que não é muito mais do que autor, data de execução, técnicas, dimensões e origem? Não faz muito tempo que visitei uma exposição de um autor que me era (ainda é) completamente desconhecido, mas em nenhum local na exposição encontrei sequer a uma referência sobre a vida (reparem que não disse apenas percurso artístico, disse vida) daquela pessoa e em cada objecto que a exposição me mostrava (impecavelmente exposto), não tinha mais do que técnica, data e título (muitas vezes s/ título). Esteticamente foi um exercício agradável, mas não me fez pensar em mais nada, não acrescentou em mim nada sobre o autor ou sobre a sua obra, não me cativou a procurar mais. Se me tivessem dado um pouco de contexto sobre o autor e a obra (preferindo eu factos em vez de uma avaliação subjectiva da sua obra e vida, devo confessar), não seria mais fácil a aproximação pretendida com a exposição pública dos objectos? Eu, e pelo que li, a Maria Isabel Roque e a Maria Vlachou, concordamos que sim, no entanto, a(s) forma(s) utilizada(s) pelo Museu para o fazer é que são o verdadeiro desafio.
Desde logo, reafirmando as palavras da Maria Isabel Roque, julgo que “… urge uma reflexão crítica e teoricamente fundamentada acerca da informação pertinente e adequada, bem como acerca do papel inevitável dos recursos da informação digital, dentro e fora do espaço museológico” e acrescento que esta reflexão crítica terá que ser acompanhada com uma mudança urgente da prática e das políticas ou estratégias que a sustentam. Deixo então alguns pontos que poderiam, na minha opinião, contribuir para essa mudança:
Caro Alexandre Matos,
É sempre com imenso prazer que recebo a newsletter Mouseion. Os seus textos leem-se de um só fôlego.
Estou a trabalhar há 3 anos nos serviços de documentação da ANA-Aeroportos de Portugal e este ano fui incluida no grupo de trabalho do nosso museu: ANA Museu.
Assim, queria pedir-lhe que abordasse nos seus “posts” o tema Museus de Empresas, se possível – ainda tenho muito (tudo) a aprender sobre o assunto e gostaria muito de saber a sua opinião e, já agora, se poderia indicar-me alguma biografia que ache essencial.
Desde já lhe agradeço a atenção.
Com os melhores cumprimentos,
Maria João Boaventura
Bom dia Maria João,
Prazer é receber o feedback de quem lê o Mouseoin. Agradeço, portanto, este comentário e irei reflectir um pouco sobre o tema dos museus de empresa para escrever um futuro post. Entretanto não tenho grande bibliografia recolhida sobre o tema, mas vou ver o que se arranja. Recordo-me de ter lido uma tese sobre um museu de empresa, mas preciso de procurar onde tenho essa referência. Assim que tiver envio-lhe por mail, pode ser?
Obrigado uma vez mais!
Excelente, Alexandre.
Agradeço-lhe imenso a atenção.
Fico pois a aguardar os próximos posts.
Atentamente,
Maria João
Subscrevo inteiramente! Os museus devem estudar as suas colecções para que nos possam contar as suas histórias, para nos surpreender, para nos levar à imaginação. Também aprendi muito sobre esse tema com a Marta Lourenço (Historiadora do Museu Nacional da Ciência e de História Natural). É mesmo a primeira coisa a fazer: estudar e documentar bem as colecções.
E depois o público. Bem eu faço parte desse mundo: eu sou público na grande maioria das vezes. E gosto de perceber o que leva o curador a ter escolhido um objecto no meio de tantos outros (ou conjunto de objectos). O que o atraiu? porque o apaixona? é um pormenor? é porque tem uma história curiosa? São essas histórias é que eu quero saber!
Há outras, claro, muitas outras. Ainda para mais somos diferentes. Cada um de nós tem interesses diferentes.
Há muito a mania de ter um discurso expositivo implícito. Sinceramente não percebo o porquê do implícito. Eu acho que, se existe, então deve ser bem explícito. Por que senão só alguns têm acesso à narrativa da exposição… Porque geralmente, “os especialistas” que não querem estas coisas explicitas têm acesso a esta informação, não vão “a zeros”…
É exactamente esse o ponto, Rita! As histórias que estão por trás, mesmo que seja uma simples (às vezes estranha) escolha de um curador! Julgo que ganhamos todos se a conhecermos!
Caro Alexandre, adorei, como de costume, o seu post.
Trabalho com documentação no Museu de Folclore Edison Carneiro e, de uns tempos pra cá, também com exposição. A dificuldade de se desligar do discurso-aula e oferecer também outros discursos, outros olhares- informações acerca dos objetos, é enorme. No caso do museu em que trabalho, que faz parte de um centro de pesquisa, percebo tratar -se de uma via de mão dupla. Do lado da “museologia” a falta de uma documentação mais investigativa, que dê conta de um aprofundamento das várias facetas que um objeto pode proporcionar, para além do correto preenchimento dos campos de uma ficha; e do lado dos pesquisadores a necessidade nem sempre percebida de “demonstração do conhecimento” que conduz ao uso dos objetos como meras ilustrações. Sinto que todos saem perdendo, principalmente o público.
Estamos em processo de elaboração de uma nova exposição de longa duração e essa tem sido uma discussão bastante presente – trazer as várias “verdades” que compõem a coleção, mesclando conhecimento acadêmico à fala de quem faz, de quem doa e, porque não, de quem visita o museu. Não é tarefa fácil, mas estamos caminhando …
Obrigada por compartilhar essas reflexões que nos deixa menos isolados em nossas vivências e reflexões.
Um grande abraço desde o Rio de Janeiro!
Elizabeth Pougy
Elizabeth,
Eu é que agradeço o feedback sobre o vosso trabalho aí no Rio e dizer-lhe que só assim, como diz no seu comentário, é que se pode fazer bom caminho. É mais difícil, mas terão melhores proveitos no futuro.
Abraço desde o Porto!