Expliquem-me como se eu fosse muito…

Que se calhar até sou. Então, a acreditar no que é dito nesta notícia do Expresso, o Ministério da Cultura (MC) e o Instituto de Museus e Conservação (IMC) não são tidos nem achados no processo de contrução do novo Museu dos Coches? Como não? Então qual é a tutela do Museu dos Coches? E deixando de lado as tutelas, para que raio é que existe um governo com diversos ministros, se os homens não falam entre si de projectos comuns?

Dizem-me que é um projecto pago pelo dinheiro das verbas do jogo do Casino de Lisboa e por isso é dinheiro do Ministério da Economia (ME), mas confesso que me parece uma desculpa esfarrapada. Em Espinho e noutras cidades com Casino há verbas que são geridas pelas próprias autarquias e o ME não vai lá dizer como gastar o dinheiro, nem quem deve ser escolhido para projectar as obras. E se vai é mau sinal, não é? E mesmo que o dinheiro seja gerido pelo ME, qual a razão de não incluir o MC no desenvolvimento do projecto? Para que serve então o MC e o IMC? Não será este último o organismo indicado para liderar o processo de construção de um novo Museu dos Coches? Está lindo, está!

Mas não é só. Reparem que na mesma notícia o Ministro da Cultura ainda faz o seguinte voto: "Desejo ao ministro Manuel Pinho as maiores felicidades e que o novo espaço seja um sucesso". WHAT!? Mas então o Museu dos Coches vai mudar de tutela? Qual dos dois andará a faltar às reuniões do Conselho de Ministros? Confesso que fico boquiaberto com todo este processo. Mesmo sendo a favor da construção de um novo Museu dos Coches (desde que complementado com o actual espaço reconvertido para Picadeiro Nacional), porque acho que a sua colecção poderia ser muito melhor explorada com outras condições, não me parece que a melhor forma de o fazer, seja excluíndo as entidades e pessoas que têm conhecimento técnico e científico para o fazer.

Em todo o caso registo com agrado o facto de já existir uma (proposta?)solução para a Biblioteca do IPA e para o CNAS, à qual estarei atento para ver se a concretizam.

Collecting the new – Susan Pearce (Reitoria da UP)

São raras as vezes que temos a oportunidade de assistir a uma conferência de uma professora tão importante para a museologia na actualidade. Não foi surpresa nenhuma para mim, só o seria se nunca tivesse lido nada sobre a Prof. Pearce ou sobre os assuntos que tem abordado ao longo da sua, já longa e muito profícua, carreira académica.

Ontem tivemos (eu e mais umas dezenas de pessoas) esse privilégio, graças à Universidade do Porto e à Prof. Alice Semedo que, em boa hora, convidaram Susan Pearce para abordar o tema das colecções construídas actualmente por indivíduos com as mais diversas motivações e a sua futura e hipotética relação com os museus. "We usually consider them as Trash" para utilizar (ainda que de forma não precisa) o termo empregue por Susan Pearce quando se referia a colecções de sacos de enjôo dos aviões*, um dos muitos exemplos utilizados.

A questão é, pelo que pudemos perceber, permente em Inglaterra. Trata-se de pensar com alguma antecipação os problemas futuros (algo pouco comum por cá) e de tentar perceber quais as melhores formas de abordar esta questão de um ponto de vista do trabalho comum nos museus. Afinal terão os museus capacidade para receber estas colecções? Deverão recebê-las? Será que são importantes? Como podemos trabalhar estas colecções do ponto de vista científico? Estas e outras questões foram levantadas e discutidas.

Um bom tema para explorar em Portugal, digo eu.

*Sim, meus caros, ao que parece muita gente colecciona sacos de enjôo.

O Avião de Lisboa

Apanhei hoje no Público esta notícia. Confesso que desde que fui a Lisboa pela primeira vez com o meu pai e avistei o avião da 2ª Circular que fiquei fascinado. Há um fascínio inexplicável que os aviões geram em mim. Certamente está associado a uma grande vontade de andar sempre a viajar, não sei.

Saber que ele tinha sido desmantelado causou-me alguma tristeza, mas pensava eu que nada havia a fazer. Era uma lata velha, ligada a um problema de rixas da noite, que certamente teria que ser desmantelado por um motivo justo. No entanto, depois de ler a notícia do Público não pude deixar de ficar ainda mais triste. Afinal este avião daria uma excelente peça de museu, com História, melhor com muitas histórias, mesmo as mais recentes. Era um dos ícones (pelo menos para mim) da capital, a única cidade que conheço com um avião ao lado do Aeroporto e que serviu de restaurante e de bar de striptease. Para além disso foi concebido por um dos maiores nomes da aviação comercial do mundo, o Howard Hughes (recordados dele no filme "O Aviador"?) e, ao momento, (mais uma vez segundo o Público) existem apenas 8 modelos Convair 880 (o nono era o da segunda circular).

Parece-me que era uma excelente peça para um Museu da TAP, não vos parece? Não digo para o Museu do Ar, porque é um Museu Militar e (segundo penso) tem maior interesse na aviação militar, mas o Museu da TAP bem que poderia ter agarrado esta oportunidade e recuperar o avião para fazer dele uma peça emblemática de um possível projecto museológico muito aliciante.

O que é um objecto? (continuação)

Sendo assim, para resumir o que eu entendo por objecto museológico, é todo o bem passível de ser transformado em documento que represente e interprete um dado momento e/ou a evolução social, histórica, económica e cultural da sociedade de acordo com a missão e objectivos de cada museu. Quero com isto dizer que o que é objecto museológico para um museu, poderá não ser visto como tal por outro, daí a importância das políticas de incorporação e a definição da missão e objectivos.

A opinião da Patrícia Geraldes (obrigado) era exactamente aquilo que eu esperava dos meus leitores, ou seja, participação.

Mais desenvolvimentos nos comentários do post anterior.

O que é um objecto?

Será que objecto é simples de definir? Vamos passar ao dicionário, para ver a definição da palavra.

objecto

do Lat. objectu, lançado adiante
s. m.,

tudo o que afecta os nossos sentidos;
coisa material;
corpo;
matéria, assunto;
fim;
propósito;
intenção;
desígnio;
agente;
traste;
Filos.,
o elemento correlativo do sujeito no acto de conhecimento;
o que se presta a experiência ou a conhecimento.

Parece simples, certo? Mas será assim tão simples a definição de objecto para um museu? Até pode parecer, mas certamente é diferente a forma como olhamos para uma pintura de Picasso, da forma como vemos um arado. São representações culturais da humanidade. Um ligado ao trabalho agrícola, outro às manifestações artísticas, reflexo do quotidiano e observáveis desde os primórdios da humanidade. O contexto museal de um e outro dignificam-os, mas ainda assim será que existem diferenças abismais entre eles?

Há uma diferença essencial, no meu ponto de vista. Não há um único arado, ou seja um objecto utilizado no revolver das terras que tenha a importância ou relevância que uma pintura específica pode ter. Se repararmos no significado que tem uma pintura como a Guernica, dificilmente a poderemos comparar, em termos de importância per si, a um arado específico que se encontra em exposição num qualquer museu. No entanto, o conceito de arado, isto é, um objecto que facilite a tarefa pesada que é revolver os solos, terá, ou melhor, teve a seu tempo uma relevância e importância aproximados à roda para o desenvolvimento da humanidade. Basta recordar a importância que a agricultura teve na construção da civilização moderna.

No entanto, essa mesma diferença (que me custa colocar em termos de importância), deve ou não de ser colocada na mesa quando se debatem questões com prioridade de tratamentos e restauros, de documentação, de exposição ou de qualquer outra espécie de factor que o museu tenha de ter em consideração para cumprir com a sua missão? Eu penso que deve. Mas concordo também que em alguns museus a exposição de um arado assume uma relevância maior do que qualquer Picasso que o museu possa ter nas suas colecções. O contexto em que esse objecto se insere assume uma importância ainda maior, na minha opinião.

Por outro lado e dada a imensa panóplia de objectos que encontramos nos museus (onde facilmente vemos ânforas, moedas, pinturas, instalações, escultura, alfaias agrícolas, animais empalhados, modelos, máquinas, motores, carros, enfim uma imensidão de hipóteses), há que ter em conta alguns conceitos que têm vindo a ser discutidos e que são importantes no tratamento documental dos objectos nos museus. São eles os conceitos de objecto composto e conjunto de objectos. Um e outro nunca poderão ser dissociados desta análise, mas a seu tempo abordarei aqui os seus significados.

Estes são alguns pontos que pretendia "mandar" para a praça pública com o objectivo de os ver debatidos pelos leitores que se interessem pela matéria (e já agora pelos restantes) e não esgotam, como é óbvio, todas as questões a ter em conta sobre este assunto. Entendam-nos como um ponto de partida que terá continuação.

O que é então um objecto para um museu?

Endinheirados?

Confesso-me um pouco admirado com as notícias que têm vindo a público relacionadas com o investimento nos museus portugueses tutelados pelo ministério da Cultura. A mais recente, a construção de um edifício de raíz para o Museu dos Coches, é alvo de algumas críticas por parte de algumas pessoas com bastante experiência na gestão de museus em Portugal e, numa primeira análise, suscita-me uma dúvida (que poderá ser mesquinha): onde desencantamos dinheiro para este investimento em novos edifícios e museus?

Esta poderá ser a mais mesquinha das perguntas, mas como estamos em contenção orçamental, não posso deixar de o perguntar. Mas há outras dúvidas. O que vai ser o Museu do Mar e da Língua? É o IMC que vai ficar responsável pela sua gestão? O orçamento do instituto chegará para todas as necessidades acrescidas? Se agora não chega para contratar pessoal de guardaria, como fazer quando a necessidade desses recursos aumentar? Há algum estudo de viabilidade para o novo museu? Estudo de públicos por exemplo?

Esta espécie de interface museológico de Belém parece ter uma estratégia por trás. Mas terá mesmo? Há uma ideia fundamentada que funcione como base de sustentação e justificação do investimento público naquela área?

Do que leio são estas as dúvidas que me assaltam... que me dizem?