Emendar a mão!?

Na continuação deste assunto parece que ontem se chegou a uma solução (provisória, uma vez mais) que permitirá aos museus a abertura das salas que estavam fechadas por falta de vigilantes.

A Sr.ª Ministra ficou com o crédito de ter encontrado uma solução para um problema que tinha sido, segundo as suas palavras, o IMC a criar ao atrasar o pedido de renovação de contratos (a mim pareceu-me que o IMC estava a esperar que o número de candidatos vindos do quadro da mobilidade fosse maior). No entanto, a ansiada solução estará, segundo ouvi na televisão, numa segunda consulta ao quadro da mobilidade (que resultou em 11 candidatos desta vez) daqui a seis meses. Caso os resultados não sejam os pretendidos, ou seja, não resultar daí nenhuma candidatura, serão feitos mais contratos de tarefa.

Não haja dúvida que há estratégia e planeamento no sector.

Infelizmente mais do mesmo (falta de pessoal)

Chego de manhã ao escritório e nas leituras habituais do RSS do Público deparo-me, uma vez mais, com a notícia da falta de pessoal nos museus tutelados pelo Instituto de Museus e Conservação. Pelo que se lê nesta notícia, os museus de Arte Antiga e de Arqueologia (dois dos mais importantes museus portugueses) tiveram mesmo que encerrar algumas das salas de exposição ao público por questões de segurança relacionadas com a falta de vigilantes. A situação é a mesma desde que eu trabalhei (precariamente também) no antigo IPM nos idos anos de 98 e 99 e, ao que parece, ainda não se encontrou qualquer solução para este cenário.

A situação até poderia ser percebida e recebida com alguma normalidade. Afinal o Estado encontra-se em dificuldades económicas (sendo que alguns ministérios ainda compram carros topo de gama, pelo que ouvi hoje na rádio). Mas será assim tão complicado resolver uma situação que afecta há anos o funcionamento regular dos museus estatais? Qual é o valor que está em causa? Chegaria o valor que o Ministério despendeu com a exposição do Hermitage? Parte do valor que despende com a instalação da Colecção Berardo no CCB? Poderia ser resolvida com outros meios (tecnológicos, por exemplo) que evitassem a contratação de tanto pessoal? Gostava, sinceramente de saber de que valores estamos a falar, para ter uma opinião mais fundamentada.

E afinal, segundo julgo saber, os museus que pretendam obter a certificação junto da Rede Portuguesa de Museus, precisam de apresentar, entre outros requisitos, um quadro de pessoal adequado às suas necessidades, certo? Será que irão ser certificados os museus de Arte Antiga e de Arquelogia?

No entanto, parece-me que a senhora Ministra tem um problema com a água que lhe carrega o capote e a sacode como ninguém. Dizer que o problema resulta de um atraso da participação do problema por um instituto a que ela própria tutela, não é o caminho mais correcto. Mas isto sou eu a pensar, vá!

Dalí no Porto

Fui ver a tão afamada exposição do Dalí no Palácio do Freixo e confesso que fiquei desiludido. A minha reacção é mais ou menos semelhante à de Alexandre Pomar. A sensação com que fiquei no final da visita foi que a publicidade me tinha enganado. Não tanto pelos aspectos que se prendem com o papel de Dalí na arte contemporânea, mas sim pela análise (defeitos de formação ou feitio, como quiserem) da exposição através dos olhos de alguém que trabalha na área da museologia.

Confesso-vos que nunca tinha visto uma exposição tão mal cuidada.

O Palácio do Freixo não é o sítio ideal para se expor semelhante quantidade de obras. Assim ficam umas em cima das outras, com evidente prejuízo de quem pretende ver a coisa com alguma calma e sem ninguém a passar em frente.

O discurso expositivo é estranho. Se em algumas partes se compreende uma lógica, noutras (nas ilustrações da Bíblia, por exemplo) não se percebe qualquer intenção a não ser mostrar todas as ilustrações feitas para aquela encomenda.

Por fim a manutenção. As vitrines foram mal pensadas e pior executadas. O pó entra a rodos e não há o cuidado de as limpar (uma vez por semana, pelo menos, seria o normal). Em alguns paineis feitos para pendurar as obras era notória a ausência de manutenção. Encontravam-se riscados e pintados em alguns sítios (sem que houvesse o cuidado de os limpar) e notei, ainda, a presença de insectos (daqueles que gostam de papel) a passear impunemente por trás dos desenhos, litografias e demais obras expostas.

Em alguns sítios li que as obras que se encontram expostas são apenas vulgares, se as compararmos com o melhor que Dalí fez, mas nem sequer quero entrar por este caminho de crítica. Teria que perceber bastante mais de arte contemporânea. No entanto, por tudo o que expus atrás posso afirmar que a exposição foi mesmo uma desilusão.

E para quando um novo MNAA?

Não sendo madrileno, nem sequer espanhol, fiquei contente com esta notícia sobre a ansiada ampliação do Prado que foi hoje de manhã inaugurada.

Ficava ainda mais contente se me dissessem que algo parecido estava para acontecer com o MNAA (e já agora com outros museus em Portugal). Não um novo edifício, nada de muito caro, algo que se poderia fazer com o valor pago pelo Estado para trazer para cá um pólo do Hermitage, por exemplo, para melhorar as condições existentes naquele que é considerado o maior museu português.

Temas de debate – Conhecimento das colecções

Agora que tenho (pouco) mais tempo para dar atenção ao blog, aproveito para lançar uma nova iniciativa do Mouseion, na qual andava a pensar há algum tempo, que visa promover a discussão de alguns temas ligados à museologia e aos museus. Chamar-se-á Temas de debate (original, eu sei!)

O primeiro tema (não podia deixar de ser) é o do conhecimento que os museus têm sobre as suas próprias colecções.

Será que os museus conhecem as suas colecções? De que forma as conhecem? Sabem quantos objectos existem no museu? Em que ano foram incorporados? Que tipo de informação guardam os museus sobre as suas colecções? Que ferramentas utilizam para o fazer? Que formação tem quem o faz? Que meios técnicos existem nos museus para esta tarefa?

Estas e muitas outras questões foram colocadas no âmbito da minha tese de mestrado em Museologia (Os sistemas de informação na gestão de colecções museológicas - Contribuições para a certificação de museus), apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que defendi no passado dia 8.

Em termos gerais (se é que se pode colocar este assunto tão levianamente) os museus têm boas condições de trabalho. A avaliar pela informação recolhida em inquérito, os museus têm meios técnicos suficientes (bases de dados, computadores e recursos tecnológicos) e têm recursos humanos capacitados (se exceptuarmos a inexistência dos técnicos intermédios) para este trabalho. Por outro lado, têm tido apoios diversos dos quadros comunitários e dos programas de qualificação da rede.

No entanto, a informação sobre a totalidade das colecções é escassa, muito escassa, por vezes mesmo inexistente. Do total de objectos que os museus (os 76 que responderam ao nosso inquérito) estimam guardar, apenas 10% estão documentados em base de dados e apenas 19% das colecções estão inventariadas. Reparem que se tratam, na sua maioria, de museus que compõem a RPM.

Penso eu que seria importante promover um debate sério sobre este problema, pois de que forma podem os museus cumprir a sua missão, sem conhecerem minimamente as suas colecções?

Então fico a aguardar algumas reflexões da vossa parte (nos comentários ou por e-mail para alexandrermatos@gmail.com).

Em todo o caso apresentarei aqui, em futuro post, uma proposta de resolução deste problema.

Necessária "luta" de classe

Há uns dias atrás recebi, através da mailing list Museum da UC, um texto do Dr. António Nabais que passo a transcrever:

Existe um sinal positivo na museologia: realizam-se encontros, debates, seminários, cursos de formação...; publicam-se revistas... Por outro lado, sente-se que não existe uma união e coesão forte entre os profissionais de museologia. A união faz a força. Existem em Portugal três associações dos profissionais de museologia: APOM, ICOM e MINOM. Parece que passam ao lado de muitas destas iniciativas. E os políticos (as tutelas)? Onde estão? A museologia portuguesa só mudará se houver mais cooperação entre todos os profissionais de museologia. Existe muito amadorismo e criam-se museus afastados dos interesses das comunidades. É necessário mudar as atitudes perante a realidade museológica portuguesa e realizar um congresso onde todos os profissionais tenham assento e voz e mostrem às tutelas que basta de tanta mediocridade e de nomeações em lugares de grande responsabilidade só por interesses políticos ou compadrios. Basta! Vamos à prática, a novas práticas.

Um grande abraço

António Nabais

Confesso que partilho um pouco da mesma opinião. Não reconheço um sentido de classe, semelhante ao existente nas bibliotecas e arquivos, na museologia portuguesa, mas por mal que pergunte, não foi o Dr. António Nabais presidente da Associação Portuguesa de Museologia? Não deveria ser nesse fórum que se discutiriam as questões que agora coloca (e bem) na mailing list Museum? Porque passa então ao lado dessas iniciativas a APOM? Porque não organizou a APOM este importante congresso de que fala o Dr. António Nabais? São algumas das interrogações que me trespassaram a cabeça... assim de repente!