Definir “Museu”

Definir “Museu”

Há já algum tempo que a definição de museu de lá de casa está fixada. É o local onde o pai, ou melhor, para onde o pai trabalha. Além disso é o local onde vamos para aprender (ou pelo menos tentar), para nos divertir e para conhecer objectos e, através destes, a História, o nosso passado comum e, acima de tudo, pensar um pouco sobre os nossos dias.

Lá em casa, como imagino que em grande parte das casas por esse país fora, a definição de museu é algo que não é verdadeiramente importante. Perdoem-me os meus colegas de profissão, mas é assim que vemos as coisas. O que é realmente importante é o que são na realidade os museus que visitamos, as histórias que nos contam, a forma como nos fazem pensar em assuntos importantes, a ajuda que podem ser, para mim e para a prole, no desenvolvimento dos nossos conhecimento, espírito crítico e consciência social.

Japão

Sei, no entanto, que a definição de museu, tal como a definição de um outro termo qualquer, é importante em diversos casos, dos mais práticos, aos mais académicos, e merece a atenção de todos, em especial, dos que neles trabalham e a que a eles se dedicam de qualquer forma.

Uma nova definição e uma velha definição

o ICOM decidiu, na conferência trienal de 2016 em Milão, criar um grupo de trabalho para estudar e propor uma nova definição de museu. Deu-lhe um prazo de três anos, findos os quais seria levada uma definição nova a Kyoto, este ano, para ser votada em Assembleia Geral. O processo, liderado pela equipa de Jette Sandhall, foi aberto, inclusivo e teve o mérito de “ouvir” todos os que gostariam de propor uma nova definição. Foram feitos debates em quase todo o mundo, Portugal incluído, onde todos os que se interessavam pelo tema, poderam ser ouvidos e debater a necessidade, ou não, de mudar uma definição que carrega o peso da História e cuja necessidade de mudança, relembro, foi votada (se bem me lembro por grande maioria) favoravelmente em Milão.

A definição de museu (ainda actual) que se propunha substituir é:

O museu é uma instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite.

A definição de museu proposta pela equipa de Jette Sandhall foi a seguinte (tradução da página do ICOM Portugal):

Os Museus são espaços democratizantes, inclusivos e polifónicos, orientados para o diálogo crítico sobre os passados e os futuros. Reconhecendo e lidando com os conflitos e desafios do presente, detêm, em nome da sociedade, a custódia de artefactos e espécimes, por ela preservam memórias diversas para as gerações futuras, garantindo a igualdade de direitos e de acesso ao património a todas as pessoas.

Os museus não têm fins lucrativos. São participativos e transparentes; trabalham em parceria activa com e para comunidades diversas na recolha, conservação, investigação, interpretação, exposição e aprofundamento dos vários entendimentos do mundo, com o objectivo de contribuir para a dignidade humana e para a justiça social, a igualdade global e o bem-estar planetário.

Confrontados com esta proposta de definição, como seria de esperar, a discussão gerou-se. Desde a simples, talvez simplista demais, crítica a uma posição política/ideológica entrelaçada nas palavras da proposta, até às mais sectoriais, como a inexistência da palavra “educação”, chegando às mais processuais, onde se apontava a falta de tempo existente para a discussão desta nova proposta, foram muitos os críticos a este novo texto. E, pese embora a existência de apoio por parte de alguns comités à nova definição, era claro (bastava ter participado nas várias sessões em que o assunto se discutiu em Kyoto) que a proposta apresentada à votação não era consensual e que os comités (Nacionais e Internacionais) preferiam adiar a sua votação.

Museu numa destilaria de Sake – Kyoto, Japão

Eu concordo, devo desde já dizer, com o adiamento da votação. Não porque ache que a proposta é “ideológica”, com alguma agenda escondida (certamente ingenuidade minha), ou não concorde com a visão expressa naquele texto sobre o que os museus devem perseguir, mas sim porque o acho mais do que uma definição de “museu” e, assim sendo, é importante (na discussão de uma definição) não esquecer a definição de “definição”:

de·fi·ni·ção
(latim definitio, -onis)
substantivo feminino

  1. Explicação clara e breve.
  2. Decisão em matéria duvidosa.
  3. [Retórica] Exposição dos diversos lados pelos quais se pode encarar um assunto.
    “definição”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/defini%C3%A7%C3%A3o [consultado em 13-09-2019].

Ora de forma clara e breve, não é assim que se descreve o que é um museu. Não arrisco dar aqui, porque acho que é um trabalho que deve ser feito em equipa, com base em leituras várias (que reconheço não ter feito e que mesmo que tivesse, não arriscaria numa interpretação a solo), a ouvir os profissionais, mas também quem nos visita e utiliza os nossos recursos (sejam eles investigadores, escolas, visitantes, políticos, etc.) de uma forma aberta, sem receios injustificados e com um processo tão inclusivo quanto possível.

Não me interpretem mal. Eu acho que o processo que o ICOM seguiu teve os seus méritos e as suas falhas, mas perguntem aos vossos filhos, aos vossos familiares, a amigos que não trabalhem em museus, ao senhor do pão e ao mecânico, quantos deles ouviram sequer que discutimos, nos últimos tempos, o que é a definição de museu? Sou capaz de apostar que poucos saberão, mas posso estar errado. Não seria interessante chamar a sociedade a esta discussão? Não teríamos aqui uma oportunidade para que nos olhassem com maior atenção? Uma atenção que poderia dar frutos no futuro, sabendo as pessoas o que é, na realidade, um museu?

Para alguns, bem sei, esta é uma discussão técnica. Não deve ser tida fora daqueles que conhecem o museu no seu âmago, as suas entranhas e a indiscutível necessidade da sua existência como instituições permanentes que têm como maior propósito levar aos seguintes, o que os anteriores nos deixaram. Entre esses, como é óbvio, também eu estou, mas não posso esquecer nunca que o que nos deixaram os nossos antepassados pode, aliás deve sempre, permitir que questionemos o nosso passado e presente e, desta forma, abrir horizontes para um futuro melhor. Não utilizar as colecções dos museus para nos questionarmos, é negar o que grande parte dessa enorme herança significa em termos da construção da sociedade ocidental, democrática e plural.

Museu Nacional do Manga – Kyoto, Japão

Não arrisco, como disse atrás, uma nova definição, mas sei, com certeza, que museu quero para os mim e para os meus filhos. Quero um museu que me faça pensar, que me permita admirar, que me ajude a criar, que me faça chorar, que tenha locais para ler e conviver com amigos e família, que seja pro-activo e não reactivo, quero um museu aberto e inclusivo, quero um museu que me queira, que queira os meus e faça tudo o possível para os chamar a conhecer as colecções e a pensar com elas o passado e o presente.

Isto não tem nada a ver com a definição de museu. Tem a ver com aquilo que cada museu realmente é ou quer ser.

MBA em Gestão de Museus SP

MBA em Gestão de Museus SP

A Associação Brasileira de Gestão Cultural, a Universidade Cândido Mendes e a Expomus organizam, com o apoio do Museu da Imigração do Estado de São Paulo e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo o MBA em Gestão de Museus SP.

De acordo com a documentação sobre o curso que me foi enviada, este MBA é um curso de especialização em Museologia com foco curricular em Gestão e Comunicação de museus, que tem como propósito preencher a crescente lacuna deste campo profissional no mercado de trabalho, especificamente nas áreas de gestão, planeamento e sustentabilidade económica dos museus.

O curso pretende formar profissionais para “actuar de forma reflexiva e empreendedora no universo dos museus no Brasil, qualificando-os para exercer funções múltiplas na administração pública e privada, capacitando-os ainda para o aprimoramento e atualização junto aos universos técnicos e de conteúdos da museologia contemporânea, com ênfase na dinamização das instituições museológicas”.

Os organizadores justificam esta iniciativa com o elevado número de museus com a necessidade de preparar os profissionais de museus para os novos desafios que actualmente lhes são colocados nas áreas da comunicação, segurança, preservação, desenvolvimento de novas audiências, desempenho do seu papel social e como eixo fundamental do desenvolvimento local e regional nas mais diversas áreas económicas.

O MBA, como não poderia deixar de ser, é dirigido a profissionais de museus, estudantes com o objectivo de desenvolver carreira nesta área, outros profissionais na área do património cultural ou quaisquer outros interessados num curso que conta com uma estrutura curricular muito completa e bem organizada e com um quadro de professores com vasto conhecimento e experiência em diversos sectores da actividade museológica, entre os quais estará, a convite da organização, este vosso amigo (para destoar um bocadinho).

Museu da Imigração – São Paulo

O curso terá lugar em São Paulo, no (fabuloso) Museu da Imigração, o que impede grande parte dos meus amigos portugueses de participar, e tem as inscrições abertas neste momento para a turma de 2019/2020. A coordenação académica é da Kátia de Marco e a coordenação de conteúdos é da Maria Ignez Mantovani Franco, o que, por si, garante a elevada qualidade dos conteúdos e formação que se pretende oferecer neste MBA. Poderia falar melhor sobre o curso, mas a Maria Ignez trata disso com a clareza necessária no vídeo abaixo.

Imagino, do conhecimento que tenho da situação no Brasil, que o valor do MBA será um esforço significativo para muitos dos colegas brasileiros, mas diz-me a minha própria experiência, relativamente ao valor que me custou a minha pós-graduação em museologia, que o retorno, para quem gosta de trabalhar com/em/para museus é enorme. Mesmo sabendo que são em alturas e contextos diferentes, estou certo que acontecerá o mesmo neste caso face à qualidade da coordenação e dos professores.

Por último, não posso deixar de agradecer à organização do curso, especialmente à Maria Ignez, pela confiança depositada em mim, juntando-me a um conjunto de colegas e amigos cujo trabalho muito admiro e sigo com atenção.

Toda as informações sobre o curso podem ser encontradas neste site ou neste PDF.

Museus e crianças (são secas ou não)

Museus e crianças (são secas ou não)

Ando preguiçoso para escrever. Aliás, não é bem preguiça, são um conjunto de tarefas que me ocupam largo tempo e afectam a capacidade de pensar em museus para além do horário de trabalho. No entanto, hoje ao ler este artigo, partilhado pelo Luís Raposo no Facebook há uns tempos atrás, lembrei-me que queria escrever sobre a última visita que fiz com as crianças a dois museus da capital do Reino. Museus e crianças, uma seca valente ou uma oportunidade!?

O pretexto para visitar Lisboa, nas férias com os pais, foi a promessa de uma ida ao estádio para ver o Glorioso. Dessa “visita” poderei falar um pouco numa outra oportunidade, mas devo dizer que a concorrência é muito forte se pensarmos que isto é uma luta entre “outros entretenimentos” (leia-se bola ou parques aquáticos, por exemplo) e museus. A ida ao museu ficou para a manhã seguinte à bola e escolhemos, por sugestão minha, que queria há muito lá ir, o MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia. Se não agradasse, teríamos sempre um passeio à beira Tejo com a luz fabulosa de um dia de verão.

Entradas e atendimento

Não vejam este texto como uma descrição da visita ao museu. O foco será a experiência com os meus pequenos, mas não posso deixar de expressar o meu contentamento por dois motivos:

  1. os membros do ICOM são isentos de pagamento no MAAT (o que nem sempre acontece em museus privados);
  2. os pequenos não pagam até aos 12 anos!

Além disso não fui corrido com um “ICOM? O que é isso?” como me aconteceu no início do ano numa outra visita a um outro museu português. Além dos descontos que tivemos, é importante salientar também a simpatia da menina que estava na recepção e a eficiência com que nos recebeu e respondeu às nossas questões sobre o museu e a visita integrada aos dois edifícios (a Central Tejo pode também ser visitada e nós optámos por o fazer).

O MAAT

Uma primeira nota. A famosa onda sobre o Tejo é bonita! Eu e a família gostamos dela, do “rooftop” e da ligação ao rio. A entrada no museu foi divertida. Demos de caras, na galeria oval, com a exposição de Tomás Saraceno e confesso, sem qualquer participação nossa, deixamos as crianças disfrutar o jogo de sombras e luz, as dimensões das obras, a sua disposição, as cores, as suas sombras. Passamos a sala só presos nas brincadeiras e na curiosidade que manifestaram. Certamente seria bom ter alguém, que não eu, a tentar explicar-lhes a exposição, mas para quê? Pergunto eu! Será necessário ou imperativo que lhes expliquemos. Não terão tempo para outras leituras? Não é o contacto com a arte essencial, mesmo sem compreensão imediata?

Exposição MAAT

Exposição MAAT

Após a brincadeira seguimos para a exposição seguinte: Eco-visionários. Aqui a loiça foi outra. Muitos destes conceitos sobre ecologia e a noção do nosso impacto no mundo são ideias que abordamos em casa e na escola. A exposição é muito interessante do ponto de vista criativo e da forma como é desenhada, com um ritmo cativante e que fez com que crianças de 10 e 7 anos a percorressem com quase o mesmo interesse que o pai e a mãe. Uma única nota para a dificuldade que tem uma criança de 7 anos a ler legendas dos vídeos que estavam a passar!

Por fim, chegamos à Pan African Unity Mural de Ângela Ferreira, presente no Project Room e que lhes estimulou os sentidos pela cor. Julgo que foi onde demoramos menos tempo, mas nesta altura já eles (e a mãe) se queixavam do frio nas instalações do museu. Eu estava confortável, mas na realidade estava fresco o ambiente e fez-me lembrar a discussão entre o confronto das obras e o nosso que algumas vezes temos com colegas da conservação.

Acabada a visita ao novo MAAT, seguimos para a “velha” Central Tejo. Já lá não ia há muitos anos e para mim foi um regresso feliz, devo dizer.

A Central Tejo

Interior Central Tejo

Interior Central Tejo

É um dos museus de Lisboa que sempre gostei. Não o disse à família antes da visita para não influenciar ninguém. A oportunidade do bilhete único para os dois museus da EDP deu o mote e lá fomos. A visita faz-se entrando para a enorme sala das caldeiras que estava naqueles dias com uma instalação (com luzes e sons) que não foi muito do agrado do meu filho mais velho. O barulho era perturbador para ele. Eu confesso que gostei, mas tivemos que fazer um esforço para tornar a situação confortável para os meus filhos.

A Central Tejo não precisa de muito para nos cativar. A cada momento imaginamos o que fariam as pessoas que lá trabalhavam, as dificuldades que passavam, os conhecimentos que necessitavam de ter, a capacidade física (em alguns casos), a resistência e, por outro lado, as doenças que uma instalação daquelas provocou, certamente, em muitos dos seus trabalhadores. No entanto, seria bom ter mais alguma informação para ler, ver, consultar de alguma forma sobre o edifício, as máquinas, as salas, etc. junto a cada sala/máquina/objecto. Sei que o temos, em animações multimédia, mas numa parte específica da Central Tejo e, não queria pedir muito, mas se pudesse ter a mesma informação numa aplicação, seria excelente e poderia ter um maior grau de interactividade do que um ecrã com um vídeo animado a passar em loop. Fica a sugestão.

A varanda sobre o Tejo

Para finalizar a visita subimos à nova varanda sobre o Tejo. A cobertura do MAAT é, sinceramente, um local fabuloso para quem gosta da Luz de Lisboa. É admirável como aquela zona de Lisboa foi transformada e como é usufruida por turistas e lisboetas (os que ainda podem lá viver). Nós lá tiramos a selfie familiar, a foto da ponte e Cristo Rei e seguimos para o almoço satisfeitos.

E então, são seca ou não?

Museus e CriançasOs meus filhos gostaram. Tenho a noção que, enquanto pais, fazemos o que podemos para introduzir nos seus hábitos algumas actividades culturais como visitas a museus, monumentos, etc., idas a concertos, ao teatro, entre outros. Sabemos também que podiamos, se calhar devíamos, fazer mais, mas há também um espaço que deve ser, desde cedo, deles, vindo da sua cabeça, uma decisão própria, um pedido expresso para uma dessas actividades! E esse pedido já o conseguimos de ambos.

Sei bem que não há fórmulas mágicas. Uma resposta específica não serve para resolver todos os problemas desta natureza. No entanto, julgo que o esforço de aproximação entre crianças e museus/teatros/bibliotecas/concertos/”you name it” deve partir, na maioria, da relação familiar. O museu pode e deve fazer a sua parte. Tornar-se atractivo e pensar nos diversos públicos na sua programação, mas também não o podemos julgar por todos os males e resistências que tem no público infanto-juvenil.

Uma outra análise que também seria interessante fazer, prende-se com a forma como os museus são apresentados à maioria das crianças nas visitas escolares. Eu tenho uma breve, muito pouco fundada opinião sobre o assunto, que decorre da experiência de há alguns anos atrás no Museu de Aveiro e da experiência que vou tendo como pai que autoriza os pequenos nas visitas escolares, mas gostava de ler/ouvir alguém mais conhecedor do que eu! Alguém para um texto no speaker’s corner?

Por fim, importa dizer que das visitas que temos feito com eles, não me parece que os museus sejam uma seca para os meus filhos. Em alguns deles temos diversão, noutros reflexão, noutros ainda fascinação, mas na grande maioria deles aprendemos! Nem que seja uma pequena curiosidade revelada pelo mais insignificante dos objectos. E é isso que na realidade importa.

 

Museu das Descobertas – um pequeno contributo

Museu das Descobertas – um pequeno contributo

Museu das Descobertas, Museu da Viagem, Museu da Interculturalidade de Origem Portuguesa, Museu do Achamento, Museu de tudo e mais alguma coisa e de nada ao mesmo tempo. É o tema do momento na nossa área e, ao contrário de outras situações mais inquietantes, ocupa até o tempo à letra de alguns dos mais reconhecidos cronistas da nossa praça, como Miguel Sousa Tavares.

Não me levem a mal este primeiro parágrafo, eu acho que não há nenhum assunto, nenhum mesmo, que não mereça um amplo debate público. Acho até que o debate que é trazido pela proposta da Câmara de Lisboa, prevista pelo que percebi no programa de Fernando Medina, da criação de um Museu das Descobertas ou Museus dos Descobrimentos tem um conjunto de pontos positivos que me agradam muito, começando pela forma elevada com que é travado, apesar das diferenças extremas dos argumentos apresentados e acabando na forma como o debate nos faz pensar criticamente sobre aquilo que nos foi ensinado (e julgo ainda ser) como os Descobrimentos Portugueses ou a Expansão Marítima Portuguesa e que tínhamos como um cadeirão no curso de História.

 

Um breve contexto

Até agora, e salvo algum falha nas diferentes partilhas e fontes, temos os artigos de Matilde Sousa Franco no Observador (aqui o primeiro e aqui o segundo), o texto do Luís Raposo no Público, um post de Luís Filipe Pimentel no Facebook, um post da Maria Vlachou, a mensagem do Pedro Pereira Leite, outro post da Maria Isabel Roque, o artigo do Miguel Sousa Tavares no Expresso (vertido aqui), o artigo do Paulo Jorge Sousa Pinto no Público, um outro artigo do Pedro Lains e, até uma edição do podcast do Observador Conversas à Quinta, com a visão de Jaime Gama e de Jaime Nogueira Pinto, moderados por José Manuel Fernandes, para a qual fui alertado pelo Luís Raposo na Museum já depois de ter começado este post. São muitas opiniões (o que é bom) a que se junta a Carta Aberta, assinada por um conjunto significativo de investigadores, que se opõem ao nome “Museu das Descobertas”.

Em todos eles, sem excepção, encontro argumentos válidos para a utilização ou negação do nome. Em alguns daqueles textos, nomeadamente o do Luís Raposo e da Maria Vlachou, encontro argumentos com que me identifico claramente para questionar a criação de um novo museu (que aliás me parece ser entendido como mais um entreposto turístico do que um museu) numa altura em que os museus portugueses, públicos ou privados, sofrem dificuldades agonizantes para conseguir manter as portas abertas apesar das constantes subidas nas estatísticas de visitantes.

Em todos eles vejo também a preocupação de lidar com os aspectos positivos e negativos de uma época em que Portugal teve um papel de destaque no mundo porque, fruto de um conjunto de circunstâncias muito específicas, se virou para onde percebeu ser possível crescer e competir com as nações europeias mais fortes. Aspectos positivos e negativos que podem muito bem, independentemente do nome de um museu que os pretenda debater e questionar, ser contados sem pudores e usados para tratar dos mesmos temas (principalmente os negativos) que ainda prevalecem no seio da nossa sociedade sem qualquer debate.

Vejo também, na maior parte deles, ideias excelentes, propostas concretas, visões de museologia contemporânea com que me identifico, nomeadamente a seguinte proposta da Maria Vlachou:

Sei que esta é uma história que se inicia no século XV, cujas consequências, boas e más, chegam aos nossos dias. É o presente e o futuro que se deve debater, olhando para o que foi o passado. É o presente e o futuro que se deve discutir com todos os que se sentem tocados pela história e pela actualidade.

Mas também me revejo, por completo, nesta afirmação da Maria Isabel Roque:

Mais do que a criação de um novo museu e da discussão acerca do nome, importa dar aos museus existentes os meios humanos e financeiros necessários para que possam apresentar e comunicar as respetivas coleções, articulando-se com a investigação académica na elaboração dos discursos; dar-lhes os meios necessários para repensar os modelos de musealização, definir redes e conexões entre espaços museológicos e reabilitar os espólios ignorados ou esquecidos.

E no mesmo sentido, parece-me que a criação deste museu, ou melhor, de um qualquer museu que pretenda, com a melhor das intenções, explorar o contexto dos Descobrimentos é completamente extemporânea. E tenho dois argumentos que me fazem pensar desta forma.

 

Dois argumentos a considerar

O primeiro prende-se com a actual situação dos museus em Portugal. Vivemos, apesar das promessas eleitorais do actual Primeiro Ministro, um dos momentos mais infelizes do sector. Há, apesar do que se vê nas estatísticas de visitantes, um desinteresse completo na resolução dos problemas dos museus. São orçamentos ridículos, quadros de pessoal insuficientes, fechados e envelhecidos, uma lei quadro sem aplicabilidade, a Rede Portuguesa de Museus reduzida a nada e um Ministério da Cultura que não tem, não expressa, nem tem a intenção de criar, muito menos executar, uma Política Museológica Nacional, resumindo-se a tratar de forma esporádica e errática de alguns dossiers mais prementes.

Esclarecendo, ou melhor, definindo esta política poderiamos pensar na criação de museus. Até na criação de um museus dos descobrimentos, da expansão, ou como lhe quiserem chamar, mas poderíamos pensar não num museu municipal (sim que este será um museu da câmara, não é) e sim num museu de âmbito nacional ou mesmo internacional. E já agora, pensar em colocar este museu, não em Lisboa (que já tem museus suficientes na minha opinião), mas sim no Algarve que apesar do esforço de um conjunto de museus municipais muito relevantes, mesmo a nível internacional, e do trabalho notável da Rede de Museus daquela região, não tem qualquer Museu Nacional e tem uma ligação umbilical com o tema.

Desembarque de Cabral em Porto Seguro

Desembarque de Cabral em Porto Seguro (óleo sobre tela), autor: Oscar Pereira da Silva, 1904. Acervo do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.
[Public domain], from Wikimedia Commons

O segundo tem a ver com uma questão mais prática. Assim de momento, para contar a(s) história(s) dos Descobrimentos, precisaríamos de contar com as colecções de um conjunto significativo de instituições. Não só as do MNAA, como o seu director faz questão de lembrar, mas também as que estão na Universidade de Coimbra (no Museu da Ciência), no Museu do Azulejo, no Museu de Lisboa, no  Museu dos Coches, na Torre do Tombo, na Casa do Infante, nos Jerónimos, bem como noutros museus do país e em museus de outros países, desde logo do Brasil, Angola, Moçambique, S. Tomé, e outros da Lusofonia, mas também em museus na Índia, Japão e muitos outros países a que viagem nos levou.

Sem elas, mas também sem o “contemporary collecting”, que a Maria refere e muito bem, isto é, as colecções criadas/coletadas/incorporadas na actualidade que se cruzam com a herança dos descobrimentos, não seria possível contar uma história verdadeiramente global, com diversas visões, a partir de diversas culturas e não só da “portuguesa” (se é que isso ainda possa existir num mundo em que as culturas são tão influenciadas entre si) onde todos os intervenientes pudessem sentir reflectidas as suas conquistas, angústias, derrotas, confrontos, retrocessos, etc. Um museu com lado A e lado B que nos daria a possibilidade de ouvir cada lado e aprender ou acrescentar conhecimento e mais lados, ou seja, não um museu diplomático, mas sim um museu de narrativas. Não de compromissos, mas sim da verdade baseada em factos científicos e provas documentais (as colecções que o suportariam e a sua documentação, lá está).

Ora neste segundo ponto, a grande dificuldade que antevejo, para este Museu das Descobertas, ou lá como o queiram chamar, é a constituição da sua colecção. Como se faria? Seria apenas constituída por representações digitais dos objectos originais, contextualizadas por narrativas digitais construídas pela investigação, ou dadas a construír ao público? Ou passaria por um processo de depósitos, empréstimos, compra e outras formas de incorporação na C. M. de Lisboa? Será que queremos fazer isto? Será que os Museus atrás referenciados e outros, estariam na disponibilidade de “perder” algumas das suas melhores peças para este? Constituiria a CML uma nova colecção com base no “contemporary collecting” atrás referido? E a narrativa histórica contextual? Não é claro para mim como o fazer e por isso este argumento para ser contrário à proposta.

 

A importância do debate

No entanto, julgo que o debate é estimulante e pode trazer para o sector uma visibilidade que há muito não nos é dada, mesmo quando, e insisto no mesmo ponto, alertamos para os efeitos graves dos últimos tempos de governação sem qualquer atenção por parte dos media ou dos “opinion makers” com mais voz.

Acho, concordando com o já dito pelo Luís Raposo, que é tempo de todos nós profissionais do sector, expressarmos de forma audível a nossa opinião relativamente a estes temas. Não ter voz num debate com o impacto que este tem no momento, é contribuir para enfraquecer a qualidade das decisões que virão a ser tomadas, tendo em conta o contributo informado e científico que podemos dar.

+Digital Future: Competences for the Cultural Sector – Projecto Mu.SA

+Digital Future: Competences for the Cultural Sector – Projecto Mu.SA

No próximo dia 18, vai decorrer, no Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Encontro Internacional +Digital Future: Competences for the Cultural Sector, no âmbito do Projecto Mu.SA – Museum Sector Alliance (http://www.project-musa.eu/) no qual o ICOM Portugal é um dos parceiros portugueses juntamente com a Universidade do Porto e a Mapa das Ideias.

Este projecto procura criar um conjunto de ferramentas de formação para debelar a carência de competências digitais nos profissionais de museus que foram identificadas em outros projectos europeus como o eCultSkills. É um projecto ambicioso e participam nele um conjunto de instituições portuguesas, italianas, gregas e belgas que procuram desenvolver o programa para um MOOC e outro tipo de formações que serão testadas nos diferentes países.

Cartaz da Conferência

A conferência que terá lugar no Porto, já no próximo dia 18, terá como convidadas a Conxa Rodà (do Museu Nacional de Arte da Catalunha), a Ana Álvarez Lacambra (do Museu Thyssen), o Francisco Barbedo (da DGLAB), o Luís Sebastian (do Museu de Lamego), a Panagiota Polymeropoulou (da Hellenic Open University) e o Ricardo Queirós (do Politécnico do Porto) que nos darão uma perspectiva internacional sobre este assunto e sobre o que podemos fazer para melhorar as capacidades técnicas dos profissionais de museus. O programa está já disponível e parece-nos que despertará o interesse de muitos colegas e amigos.

Todos os interessados na conferência podem inscrever-se desde já através do site do Encontro. Espero ver todos por lá! Se precisarem de alguma informação adicional sobre o Encontro, entrem em contacto com a organização através dos contactos disponíveis no site da conferência.

Todas as informações do Projecto Mu.SA está disponível em http://www.project-musa.eu/

Almada, museu e a criançada

Almada, museu e a criançada

No fim de semana passado tive um inesperado, mas muito bom, pedido da minha filha mais nova. Queria ir ao museu, a um museu! Sem que tivesse saído da nossa cabeça qualquer sugestão! Excelente, não é? Ora como um pedido destes não se recusa, toca de escolher o museu para pegar na criançada e passar um bom tempo de qualidade com eles!

A escolha recaiu no Museu Nacional Soares dos Reis. Já todos lá fomos (e temos muitos por perto que eles não conhecem), mas estava de olho na exposição “José de Almada Negreiros: desenho em movimento” e, além disso, estes hábitos de repetição de museus são bons para a criançada. Ficam mais próximos com toda a certeza! Vou contar-vos a experiência em três actos: antes, durante e depois!

O antes

 

A ida ao MNSR foi decidida com uma consulta na web (onde vi a informação sobre a exposição), mas se não fosse o Facebook do MNSR e a informação da Gulbenkian, não tinha encontrado nada no site do Museu (onde aliás fui direccionado para o FB do mesmo). Em todo o caso, várias notícias falavam sobre a exposição na breve pesquisa que fiz. Apenas deixo esta nota, porque vejo que o site precisa de acompanhar o enorme esforço de comunicação que o museu faz.

Decidido o museu, caminho percorrido de carro, ultrapassadas as dificuldades de estacionamento naquela zona da cidade (mesmo ao domingo é um castigo) com o recurso a um parque pago, somos confrontados com um problema crónico para o MNSR, a “praça” em frente ao museu é tudo menos amigável para quem ali chega! Se bem se recordam, a intervenção feita ali, com a saída do túnel de Ceuta, causou polémica na altura e foi mesmo embargada pela Ministra da Cultura, no entanto, e como bem recordava a Maria João Vasconcelos, já em 2013, o túnel é um perigo para os visitantes e para a colecção do museu. Em tempos de saída da crise seria bom pensar em minimizar aquele problema, pelo menos!

O durante

 

Entrados no museu (a criançada não pagou) e café tomado na cafetaria, seguimos mais ou menos apressados pela exposição permanente (o acesso às temporárias é sempre feito por aí), parando em algumas obras que despertaram o interesse aos mais novos, até que chegamos à galeria de exposições temporárias.

Visita ao MNSR

Eu desci as escadas, mas eles seguiram, como seria de esperar, pela rampa de acesso em correria desenfreada (nada como uma rampa para lhes despertar a vontade). Vai daí, pai em alerta e o pessoal do museu, alertado pelo barulho da correria, a ver discretamente o que vinha por ali. Um ponto a favor do MNSR nesta situação. Atentos, mas sem qualquer chamada de atenção à criançada, porque perceberam a atenção dos pais e o local onde estavam a brincar (a rampa não tinha qualquer obra exposta).

Mais do que a minha opinião sobre a exposição (bastante positiva, devo dizer), queria aqui deixar-vos a deles. Interessados nos desenhos do Almada, atentos a diferentes pormenores das obras (a museografia permitia que as apreciassem, embora com alguma dificuldade para as obras em vitrines horizontais), interessados na técnica de desenho (principalmente o mais velho), nas formas geométricas, nas histórias contadas pelo Almada, entre outros aspectos, acabaram a visita a dizer que tinham gostado muito da ida ao museu. Estiveram com a mãe sentados durante um bom tempo a ouvir a gravação da Gulbenkian de uma obra escrita por um artista que não me recordo agora, ilustrada por Almada na sua passagem por Madrid (se não estou enganado) e cujas ilustrações estavam a ser projectadas em frente! Divertidos com a bruxa e o gato.

Saídos da exposição do Almada, tivemos ainda tempo para percorrer as restantes salas do MNSR vagarosamente, procurando algumas histórias na excelente colecção do museu, inventando outras, esperando que a curiosidade seja sempre uma das suas qualidades mais preciosas e apreciadas. A mãe documentou dois olhares deles que ilustram isso e deixo-os aqui para memória futura.

 

À saída e em resposta à questão: Então, gostaram? Tivemos um “Sim… gostamos muito!” Sincero que a criançada não mente!

O depois

 

Não fosse o pedido da princesa lá de casa, teria passado umas boas horas de brincadeira caseira com eles, mas entre isso e umas boas horas de brincadeira e aprendizagem no museu (ou outro sítio interessante), tenho cada vez mais certeza, teremos que escolher sempre a segunda. Mesmo que o conforto da nossa casa, o chamamento do sofá, nos tente de forma diabólica a passar a tarde de domingo chuvosa em casa, temos que nos lembrar sempre que sair, conhecer outros locais, ver obras de arte, questionar, suscitar a curiosidade, etc.

Este passeio valeu aos pais um obrigado após a visita, mas, em boa verdade, quem lhes devia agradecer era eu.