Virtual vs Físico. A luta não existente

Virtual vs Físico. A luta não existente

Ontem, e em boa hora, participei no colóquio digital do ICOM Portugal que tinha o sugestivo título “Como sentir (na web) o peso do ar e da pedra?” e foi suscitado pelo texto provocatório da Patrícia do Vale com o seguinte título “Tudo será ainda instagramável? O museu por reinventar”. No debate fiquei ainda mais certo daquilo que tenho dito, em diversos locais, sobre esta dicotomia do Virtual vs Físico e da inexistência de uma luta titânica entre estes dois aspectos das nossas vidas.

Colóquio Digital ICOM PT

São vários os pontos que abordei durante o debate, mas tal como lá, vou aqui organizá-los em 5 pontos (lá foram 4 na intervenção inicial e depois acrescentei mais um durante o debate):

  • Políticas e Gestão
  • Conteúdos
  • Formação
  • Acessibilidade
  • Avaliação

Políticas e Gestão

Uma declaração primeira que nada tem a ver com o digital, mas que me irritou durante este tempo de confinamento. Não é possível compreender que instituições de referência, por causa de dois ou três meses de confinamento, coloquem em causa o trabalho de um conjunto de profissionais que lhes têm valido reconhecimento e louvores aos anos. Neste caso não é luta do digital vs físico, mas sim uma luta de valores e missão.

Relativamente à gestão a pergunta que se deve fazer é: que museus tinham pensado numa estratégia digital antes do COVID-19? Sem grande risco, julgo que é seguro dizer que muito poucos o tinham feito, certo? Ou seja, durante esta quarentena, os museus não responderam com um instrumento pensado previamente, sendo pró-activos antecipadamente, mas sim de forma reactiva a (vários e grandes) problemas que foram colocados aos museus. Na reacção notamos as diferenças entre museus. Especialmente nos recursos (financeiros e humanos) que têm à sua disposição, mas também nas assimetrias que o país não tem conseguido resolver. A tal luta entre Virtual vs Físico que digo não existir, deve ser vista como uma luta em integrar o digital naquilo que já existia antes, ou seja, o museu físico, as suas colecções e a relação entre estes e as suas audiências.

Conteúdos

Aqui a luta entre Virtual vs Físico é sempre mais polémica. A constituição de colecções digitais, representativas das físicas, tem levantado um conjunto de questões ao longo dos anos que entendia no passado, mas que agora me parecem cada vez menos admissíveis. O objecto digital não pretende substituir o físico, é uma impossibilidade! No entanto, o meio digital dá aos museus a oportunidade de produzir informação e conhecimento, ou melhor, de deixar produzir conhecimento a todos os que possam ter acesso, em cima do conhecimento que os museus detêm.

Além disto, como também mencionou a Laura Castro, a linearidade com que os produzimos, em tudo semelhante aos processos que herdamos da transmissão do conhecimento em suportes físicos, precisa de ser repensada tendo em consideração as diferentes valências que o meio (mencionado e bem pela Isabel Victor) proporciona.

Formação

Este é, sem qualquer dúvida, um dos calcanhares de Aquiles nos museus portugueses (e não só). A formação existente na área dos museus não abrange a complexidade do universo digital em que estamos inseridos. Nas diferentes áreas (documentação, conservação, gestão, mediação, comunicação, etc.) de actuação do museu há um conjunto de desafios que são colocados diariamente aos museus pela crescente actualização tecnológica, pela obsolescência constante, pela procura do “trendy”, pela novidade do tema ou simplesmente pela necessidade que embatem de frente com a ausência de competências digitais apropriadas nos profissionais de museus.

Este é um problema que o ICOM Portugal procurou enfrentar, participando no projecto Mu.SA, desenvolvendo com um conjunto de parceiros europeus um caminho de formação (MOOC e Curso de Especialização com Estágios em museus), focado na aquisição destas competências para 4 perfis profissionais emergentes na área digital. Sobre a ausência das competências digitais sentida nos museus e seus profissionais, os mais de 5000 inscritos no MOOC falam por si só.

Acessibilidade

O acesso é o maior argumento para quem é ainda relutante a juntar-se à luta de integração do virtual no mundo físico (espero que a este ponto já se tenham esquecido da luta Virtual vs Físico). Com as colecções digitais podemos dar acesso a quem está (literalmente) do outro lado do mundo. No entanto, importa não esquecer que não resolve tudo. A exclusão aqui mantém-se e deve ser um problema a colocar em cima da mesa sempre. Não só a infoexclusão (que per si é um grande problema ainda), mas também a exclusão económica e social que experimentamos neste período da pandemia com uma quantidade considerável de estudantes, que se viram privados de continuar a escola por não terem um computador disponível, por exemplo.

Avaliação

Por último, o ponto que introduzi no debate apenas, suscitado por outras intervenções, a avaliação. Ou melhor, uma reflexão que é necessária fazer sobre a avaliação para não continuarmos a insistir no número de visitantes para premiar os museus (agora temos mesmo que pensar noutras formas), mas também para não continuarmos a avaliar o universo digital pela relevância dada por cliques, por um bom SEO, por algoritmo Google, etc., mas sim por indicadores que tenham em consideração a qualidade com primazia sobre a quantidade.

E daqui em diante. Que museu queremos reinventar?

Temo, muito sinceramente, que não o queiramos reinventar. Temo que o esforço e as reflexões que tivemos durante este período caiam no esquecimento após o levantamento total das restrições. Temo que voltemos a visitar “em bando” e aos magotes o Louvre, o British, o Prado, o MNAA, etc., e que celebremos de novo as exposições e salas cheias de gente (e eu gosto de ver os museus cheios de gente, não me interpretem mal). Mas temo, acima de tudo, que nos esqueçamos que este susto enorme é uma das melhores oportunidades que tivemos para mudar o rumo das coisas e repensar o museu que queremos ter no século XXI.

Uma linda oportunidade que, em meu entender, poderíamos ter aproveitado para o efeito com a abertura dos concursos dos museus e palácios nacionais (que têm a boa notícia de pedir profissionais com formação em museologia), mas que, em boa parte, desperdiçamos. Um outro assunto, que se interliga, mas que terá texto próprio.

Acesso Aberto – Debate e Conferência da Acesso Cultura

Acesso Aberto – Debate e Conferência da Acesso Cultura

Toda a gente sabe que uma maldade nunca vem só! Quer dizer, por vezes vem, mas não é o caso. A Acesso Cultura organiza este ano alguns eventos dedicados a um tema que me é caro: o acesso aberto! Vai daí resolvem convidar-me para ser moderador duas vezes para mal dos vossos pecados! Uma primeira que acontece já a 20 de Junho e uma segunda que acontecerá em Outubro. Vejam lá bem o azar de quem não quer perder a oportunidade de debater estas questões.

Debate Acesso Cultura - Acesso AbertoA primeira vez em que irei moderar um debate será no próximo dia 20 de Junho. Nesta têm alguma sorte. Podem escolher dar um salto a Lisboa, Évora ou Olhão e particpar num dos debates simultâneos que a AC organiza também naquelas cidades. No entanto, se quiserem participar no do Porto, podem (e devem) dar um salto ao nosso Museu Nacional Soares dos Reis e juntar-se a mim, à Ângela Carvalho (Centro Português De Fotografia), à Manuela Barreto Nunes (Biblioteca Geral da Universidade Portucalense), à Olinda Cardoso (Arquivo Distrital do Porto) e ao Pedro Príncipe (Universidade do Minho) pelas 18:30h para discutir este tema. A AC colocou-nos o seguinte mote:

A digitalização de colecções museológicas e de outros acervos culturais alcançou uma escala sem precedentes. De que forma as instituições culturais portuguesas enfrentam esta nova realidade? O que é que está a ser feito no sentido de criar condições de acesso aberto? A quem se destinam estes recursos digitais e para que servem? Que dúvidas persistem? Que preocupações?

Conferência Acesso Cultura - Acesso AbertoA segunda vez que irei moderar será uma mesa redonda da conferência da Acesso Cultura (será em Lisboa, a 16 de Outubro). É logo a seguir à conferência de abertura pela Merete Sanderhoff (Statens Museum for Kunst – Danish National Gallery) e terá a participação da Merete Sanderhoff (National Gallery Denmark), do David Santos (Direcção-Geral do Património Cultural), do Eloy Rodrigues (Universidade do Minho) e do Silvestre Lacerda (Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas) e será uma excelente oportunidade para debater e aprender com estes excelentes profissionais sobre acesso aberto.

Eu julgo que seria bom, numa e noutra oportundiade, discutir a questão sob duas perspectivas (mas digam-me vocês se concordam): Política e Técnica.

Na primeira uma abordagem sobre os caminhos e tendências que o Acesso Aberto segue nas instituições de referência, na visão estratégica de governos ou Comissão Europeia, por exemplo e na segunda abordar as condições, tecnologia, questões legais (embora estas possam também se ligar à primeira questão das políticas), etc. que devem ser tidas em conta pelas instituições que procuram informação de caracter mais prático sobre este assunto. Que vos parece? Estou aberto a outras perspectivas interessantes.

Eu sei que o tema é vasto e, ao que tenho ouvido, ainda pouco explorado entre nós. Por isso gostava que se procurassem respostas (mesmo sabendo que não há respostas definitivas) a questões como: O que é isso do Acesso Aberto? Que questões legais se levantam? Que políticas deve a minha instituição definir sobre esta matéria? Que materiais/informação deve/pode ter acesso aberto? Como mudar o panorama actual de acesso restrito em áreas fundamentais como a investigação científica? Que política(s) de financiamento devemos definir para esta matéria? Qual a diferença entre Acesso Aberto e Software Livre? O que precisamos para dar acesso livre à informação gerida por museus, bibliotecas e arquivos?

Se quiserem podem deixar abaixo (nos comentários) perguntas ou levantar temas para o debate e para a mesa redonda. Prometo que irei, dentro dos limites de tempo que teremos, levar comigo as vossas sugestões.

E já agora respirem fundo e participem. É um tema importante e interessante para todos nós!

Os custos da digitalização do património e a normalização

Os custos da digitalização do património e a normalização

A digitalização do património cultural é um tema que me interessa muito. Já o tinha abordado, embora sobre diferentes perspectivas, aqui, aqui e aqui. Hoje retomo o tema tendo como pretexto a leitura do excelente artigo de Martin Doerr e de Dominic Oldman, intitulado “The Costs of Cultural Heritage Data Services: The CIDOC CRM or Aggregator formats?“, publicado no blog de Dominic Oldman (que recomendo vivamente). Martin Doerr é um investigador com muita experiência nesta matéria (façam uma pequena pesquisa no google e perceberão) e Dominic Oldman é “Deputy Head of Information Systems” no British Museum e é o investigador principal no projecto Researchspace onde procura desenvolver um ambiente colaborativo de investigação online através da utilização de conjuntos de dados ricos semanticamente. Algo que perceberão melhor depois da leitura deste post (e para os com mais conhecimentos técnicos passarem por aqui) e de assistirem a estes vídeos:

http://youtu.be/HCnwgq6ebAs&w=500

http://youtu.be/HbYgaxctGV8&w=500

Voltando então ao artigo sobre os custos da digitalização do património e os custos associados, gostava que pudessem reflectir no seguinte excerto do mesmo onde os autores mencionam a necessidade de uma representação do contexto adequada, em substituição da tradicional disponibilização de dados “principais” e descontextualizados sobre os diversos objectos, como datas, medidas, autores, informação de conservação, etc., indo de encontro ao pedido por cada um dos modelos de dados dos agregadores de informação (ver como exemplo o EDM da Europeana).

The institution actually curating content must document it so that it will be not only found, but understood in the future. It therefore needs an adequate [1] representation of the context, content and objects come from and their meaning. This representation already has some disciplinary focus, and ultimately allows for integrating the more specialized author knowledge or lab data. For instance, chronological data curves from a carbon dating (C14) lab should be integrated at a museum level (2) by exact reference to the excavation event and records, but on an aggregator level (3) may be described just by a creation date.

Na opinião dos autores, com a qual eu concordo absolutamente, o custo da digitalização do património cultural poderia ser consideravelmente reduzido, se as instituições que providenciam os dados aos diferentes agregadores (museus, arquivos e bibliotecas) centrassem a sua atenção e esforços na criação de dados de acordo com o definido no CIDOC CRM (ISO 21127:2006). A principal razão para o fazerem prende-se com o facto de o CIDOC CRM possibilitar a definição de uma estrutura semântica de referência que possibilita, segundo os autores, a exportação da informação para qualquer tipo de modelo de dados definido pelos agregadores, tendo como vantagem, no futuro, a possibilidade de criar melhores sistemas de pesquisa e de investigação colaborativa na área do património cultural. Sendo uma possibilidade que nos agradará a todos (imagino eu), esta interessante ideia é concretizada (com as limitações tecnológicas actuais) na ferramenta que os vídeos atrás demonstram, no entanto, a questão principal mantém-se: será que os museus (e já agora os arquivos e bibliotecas) percebem que o trabalho que têm na documentação e gestão das suas colecções pode ser dificilmente reutilizável no futuro, caso não comecem a conhecer e trabalhar de acordo com o definido no CIDOC CRM?

É uma questão importante a ter em conta no planeamento dos projectos de documentação de qualquer colecção, não vos parece? Comentem e partilhem, se acharem o tema interessante.

© imagem: daqui.

Cibermuseologia – Museu de Aveiro (pós seminário)

Cibermuseologia – Museu de Aveiro (pós seminário)

Antes de vos deixar algumas impressões sobre o seminário onde participei ontem, no Museu de Aveiro, sobre o papel das tecnologias nos museus, permitam-me um agradecimento a toda a organização pela forma como fui recebido e pela oportunidade de voltar a “trabalhar” no “meu” museu e rever os grandes amigos e colegas que tenho lá. Foi muito bom.

A conferência resulta de uma parceria que o museu tem com a Universidade de Aveiro e que tem conduzido à criação de projectos de investigação científica que têm como objecto de estudo (ou de aplicação da investigação) o Museu de Aveiro. Uma parceria com tudo para ter sucesso a avaliar pelas apresentações de vários investigadores e professores da UA e pelo interesse demonstrado pelo público (uma sala cheia como merecem as instituições que organizaram o evento) e pela discussão que se gerava em torno das diferentes comunicações.

Eu gostei de conhecer melhor o trabalho da UA nesta área de investigação e fiquei particularmente agradado com o trabalho apresentado pelo Mário Vairinhos sobre interfaces tangíveis em contextos de museus, pela visão do Rui Raposo sobre o ciclo da experiência da visita a um museu, pelos projectos da Carolina Correia, do Rúben Carvalho e da Joana Carvalho e pela reflexão da keytalk de Francisco Providência sobre a imersão dos visitantes na exibição dos museus e a evolução que se verificou nesta matéria ao longo dos tempos.

Pelo que me foi dado a saber é um evento que os responsáveis pretendem repetir (neste ou noutro formato) e, portanto, tenho que os saudar por isso. O papel da tecnologia nos museus é um tema que exige muito conhecimento, reflexão e discussão. Só assim os museus se podem preparar para o futuro.

PS: em breve ficará disponível aqui a minha apresentação.

Cibermuseologia – Seminário

Cibermuseologia – Seminário

No âmbito da comemoração dos 100 anos do Museu de Aveiro (pelo que sei para o encerramento do programa de comemorações) será organizado um seminário sobre a integração e o papel da tecnologia nos museus, denominado Cibermuseologia, que terá lugar no próximo dia 6 de Junho, pelas 10:00h, no Museu de Aveiro.

O programa (abaixo) parece-me, modéstia à parte porque também faço parte dele, muito interessante e com diferentes perspectivas do que a tecnologia pode fazer em prol do museu, das suas colecções e dos seus públicos. Pela minha parte terão uma comunicação centrada no importante papel da digitalização do património cultural e dos vários factores que a influenciam (financeiros, tecnológicos, humanos, etc.). Será a oportunidade de voltar a “trabalhar” debaixo dos telhados do Convento de Jesus e junto de vários amigos e colegas que me ensinaram muito do que sei hoje sobre museus.

aveiro_programa

Quem vai estar presente?

PS: clicar na imagem para aumentar.

Melhores recursos de aprendizagem

Melhores recursos de aprendizagem

É o que a tecnologia nos põe nas mãos e nos olhos: melhores recursos de aprendizagem. Melhores e mais acessíveis, não esquecer.

Infelizmente ainda se vêem poucos exemplos em Portugal de recursos educativos como o SmartHistory, no entanto, apesar da barreira de ser numa língua diferente da nossa, esta ferramenta da Khan Academy pode muito bem ser utilizada por professores e educadores em história e história da arte em Portugal para criar e utilizar ou para reutilizar conteúdos muito mais apelativos do que os tradicionais manuais e recursos de ensino. O SmartHistory baseia-se em conteúdos abertos (ou seja conteúdos com direitos de autor, mas que a utilização é permitida de forma gratuita) e nas palavras dos seus responsáveis é “the leading open educational resource for art history. We make high-quality introductory art history content freely available to anyone, anywhere. Smarthistory is a platform for the discipline where art historians contribute in their areas of expertise and learners come from across the globe. We offer nearly 500 videos and these are being translated into dozens of languages.” Foi criado em 2005 para providenciar “a richer learning experience than was possible with existing resources. Traditional textbooks are prohibitively expensive for many and do not take advantage of the digital technologies that are reshaping education. For example, textbooks often use only a single image to represent a work of art, they speak with an authoritative but impersonal voice, and they rarely incorporate the many valuable resources that universities, libraries and museums make available. We built Smarthistory to emphasize the experience of looking at art by using unscripted conversations recorded in front of the work of art whenever possible, by incorporating numerous images and video, and by curating links to high-quality resources on the web.“.

É uma ferramenta que permite explorar diversos temas da história da arte, utilizando recursos que museus e outras instituições disponibilizam em opensource, organizados por cronologia, estilos, artistas ou temas utilizando o melhor que a tecnologia nos dá. No SmartHistory somos também encorajados a criar os próprios conteúdos em Create & Teach através de um conjunto de recomendações técnicas e pedagógicas que nos auxiliam a estruturar conteúdos e utilizar as ferramentas que permitem bons resultados no “produto” final.

Apenas para que conste é importante salientar que este tipo de projectos só são possíveis depois da digitalização do património cultural. Um processo de custos elevados (humanos e financeiros), mas com um retorno de investimento, na minha opinião, muito compensador a avaliar pela qualidade deste projecto.