Uma pandemia no Museu

Uma pandemia no Museu

Se estão a pensar que o título deste post é uma referência à série “Uma aventura” da Ana Maria Magalhães e da Isabel Alçada, acertaram em cheio! Uma pandemia nos museus, uma pandemia na escola, uma pandemia no teatro, uma pandemia no café, uma pandemia na mercearia, e por aí fora, poderia motivar uma das melhores séries para o tempo em que vivemos. Uma pandemia no Museu, procura, sem o arrojo de me aproximar da qualidade das autoras acima mencionadas, ser o mote para a reflexão que tenho feito sobre o que será o Museu neste tempo e no futuro.

O Museu Nelson-Atkins recebeu alguns visitantes inusitados: pinguins.
Imagem daqui.

Nestes últimos meses em Portugal, na Europa e no restante mundo, assistimos a um surto pandémico de um vírus que tem uma forma (ou formas) de contágio que permitiram uma propagação como nunca visto à escala mundial. A pandemia meteu-nos a todos dentro de casa (vá quase todos que há sempre quem ache que isto é uma gripezinha) e tem espalhado o caos em todos os sectores de actividade. Aviões parados, hotéis fechados, fábricas sem produção, teatros sem espectadores, museus sem público e uma lista que não acaba!

Podem dizer o que quiserem, mas não vejo, muito sinceramente, como é que alguém se prepara para uma situação destas. Não me parece também que a poderíamos, apesar dos avisos de Hollywood, esperar ou prever. Vivemos numa época em que as condições sanitárias e de saúde com que contamos normalmente na maior parte dos países desenvolvidos deveriam bastar para conter, ou mitigar pelo menos, a evolução desta situação, mas a realidade é sempre capaz de nos mostrar que, ainda assim, não somos deuses, que a condição humana é frágil.

Cultura e a crise

Para a Cultura, em geral, a situação é muito grave. Por muito esforço que façamos, é difícil encontrar uma área deste sector que não dependa de um contacto direto com o público (ou entre o público). Museus, Bibliotecas, Arquivos, Arte, Teatro, Música, Cinema, Festivais, Dança, Circo e por aí adiante, não vivem sem esse contacto de proximidade que agora lhes é negado pelo COVID-19.

Apesar da gravidade ser transversal a todo o sector, é notório que as diferentes áreas merecem (e tiveram) diferentes respostas. Sei que os teatros ainda não estão abertos, que não teremos festivais ou que não iremos ao cinema da mesma forma que faziamos a.C (antes do COVID), enquanto que, no momento em que escrevo, já alguns museus abriram as portas e começaram a retomar, ainda que muito condicionados, a sua actividade. Por isso mesmo, neste texto apenas falarei da realidade dos museus que poderá ser mais fácil do que outras realidades.

Assim que fomos confrontados com o crescendo da pandemia e o governo, juntamente com as autoridades sanitárias, declarou o estado de emergência (o mais grave dos estados de alerta) os museus fecharam. No entanto, ao ler a definição de Museu do ICOM, percebemos que o museu é uma “instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público…”! Ou seja, fechado é o oposto da essência do museu e fechados dificilmente conseguem cumprir a missão a que se propõem.

Claro que todos sabemos que o tempo é extraordinário e que fechar museus (instituições culturais no geral) foi uma medida extraordinária e, de resto, temporária como se tinha previsto. No entanto, gostaria de salientar alguns pontos que me parecem importantes na reação dos museus e sector nesta fase.

Duas velocidades ou mais

O primeiro é que o país tem vários andamentos, várias velocidades, no que diz respeito à resposta que os museus podem dar em situações extremas.

Há museus que respondem de forma interessante, como aconteceu com o Museu de Lisboa, reforçando a sua presença nas redes sociais e utilizando um conjunto de recursos interessante como as visitas virtuais, as histórias dos bastidores e das suas equipas, a criação de quizzes para os seus públicos, entre outras. Nesta linha, tivemos também uma boa série de vídeos do MNAA sobre objectos da colecção e ainda, numa resposta ao aumento da procura do digital, outros museus que publicaram as suas colecções online, como o MUDE, por exemplo, e outros que as actualizaram como o Museu Municipal Santos Rocha.

Anísio Franco, subdirector do Museu Nacional de Arte Antiga (à esquerda), e Joaquim Caetano, director, têm filmado todos os dias um vídeo que divulgam na Internet
©Publico

Por outro lado há museus que ficaram completamente restringidos na sua acção. Museus que reduziram as suas equipas e as colocaram em layoff, museus que não tinham/têm os recursos, meios ou competências para abraçar de repente o digital, museus cujos os públicos são maioritariamente escolas e comunidade local que ficaram em confinamento ou restringidos à tele-escola, museus ainda que não tiveram capacidade de reacção, porque simplesmente têm uma equipa de uma pessoa que agora está em casa, a acompanhar os seus filhos.

Estes dois lados já bastavam para percebermos que temos diferentes velocidades no sector dos museus, mas há ainda um, talvez o mais dramático, que é o caso dos museus que tiveram uma reacção absurda e que convém registar para memória futura, como aconteceu com o caso conhecido das dispensas em Serralves que motivou uma resposta à altura por parte da comunidade de profissionais de museus.

E uma política cultural…

O segundo é que Portugal carece, desde há muitos anos, de uma verdadeira política para a área da Cultura, pensada a médio e longo prazo, que possa ser conciliada/estruturada/pensada (e sei lá bem mais o quê) com outras áreas como a Educação, o Turismo, o Ambiente e a Economia, mas que seja verdadeiramente autónoma e emanada da Ajuda e não das Necessidades, do Terreiro do Paço ou da Horta Seca. A ausência de uma política cultural séria e pensada a longo prazo é um erro que muitos têm apontado aos últimos governos portugueses. Uma denúncia de erro com que concordo e que nos tem fragilizado em relação a outros países europeus, nomeadamente com a Espanha, aqui ao lado. Mas acima de tudo é um problema que expõe, em alturas de crise como esta, as deficiências na resposta a crises repentinas. Para dar apenas um exemplo, recordo que o primeiro apoio que o Ministério anunciou para responder à crise e às dificuldades dos profissionais do sector, foram de menor valor (cerca de um milhão de euros) do que o que a Câmara Municipal de Lisboa concedeu. E isto ao mesmo tempo de um anúncio de apoio de 15 milhões de euros ao sector da comunicação (o mais beneficiado da área de governação).

Casal mascarado de “Bonnie e Clyde” dá cabaz alimentar e 151 euros à ministra da Cultura
© TVI

Digital vs Físico – uma luta falsa

Um último ponto prende-se com uma outra pandemia, que pensava já ter sido ultrapassada, mas ainda parece estar a assustar muitos a acreditar no que vou lendo em blogs, jornais, redes sociais e afins. A eterna luta (inexistente a meu ver) entre o físico e o virtual, o real e o digital, que agora foi trazida à baila em alguns debates e que, em meu entender, é absurda!

Parece óbvio a todos nós (pelo menos a mim) que o que evitou uma ausência total dos museus nas nossas vidas nestes últimos dois meses, foi a existência do digital. A existência de conteúdos digitais que nos chegam às mãos por telemóvel, tablet ou computador foi, em muitos casos, um recurso precioso para o ócio, aprendizagem, pesquisa e outros fins bem interessantes. Julgo que com esta amostra ficamos todos ainda com mais vontade de retomar as visitas aos museus, não? Eu fiquei e começarei, assim que puder ir aos que mais me chamaram a atenção neste período.

Estamos a passar para uma segunda fase. Já abrimos os museus, os teatros irão reabrir, o cinema também, precisamos de ter os cuidados indicados pelas autoridades de saúde e temos que nos adaptar a esta nova situação (que é estúpido pensar como um novo normal), mas assim que conseguirmos pensar noutra coisa que não a reacção e as medidas de mitigação das situações difíceis que a crise criou, e são muitas, espero que exista, de uma vez por todas, a vontade de nos sentarmos e discutir o que tem que mudar na Cultura, nos Museus, para que deixemos de ter o pandemónio que temos há tantos anos. Que seja breve esta Pandemia nos museus.

Teletrabalho e tele-escola

Teletrabalho e tele-escola

Parte do meu trabalho é muito digital e pode, sem grandes dificuldades, ser feito à distância, excepção feita para as sessões de formação ou algumas reuniões muito específicas. É uma sorte, bem sei, mas é importante que se diga que o teletrabalho não é só replicar em casa o que se faz no gabinete da empresa. Há um conjunto grande de outras variáveis a ter em conta. Uma delas é juntar teletrabalho e tele-escola tudo ao mesmo tempo! Como é que a coisa resulta? E resulta para quem?

De onde vos escrevo, o meu escritório na cave de minha casa, tenho um ecrã que trouxe da empresa, ao qual tenho ligado o bendito MacBook Pro que agora me acompanha, tenho uma impressora e scanner, secretária com espaço, ferramentas necessárias para que o teletrabalho seja simples e eficiente e, acima de tudo, tive formação, muitas horas de formação, em diversas ferramentas e áreas que preciso para o trabalho (isto vai desde coisas mais “tech” como SQL e .NET, por exemplo, a coisas elaboradas como gestão de dados, estruturas de dados, desenvolvimento de aplicações, até chegar à utilização destas novas coisas que agora toda a gente tem que são os teams desta vida. Para me ligar à maravilhosa equipa da Sistemas do Futuro (e outras equipas com quem trabalho) tenho uma rede das boas. Tenho ainda a felicidade de ter à frente e atrás de mim duas estantes carregadas com bons livros.

A minha mulher, em teletrabalho também, tem computador fornecido também pela empresa onde trabalha, tem a seu cargo uma catrafada de papéis e leis e regulamentações e excepções às leis pelo estado de emergência em que vivemos. Partilhamos a impressora, a boa rede que temos em casa e as demais coisas que facilitam esta nova fase.

Tenho dois filhos que estão em tele-escola. Um no 6.º ano e outra no 3.º ano. Cada um deles tem um tablet e têm ao dispor, quando precisam, os computadores velhinhos do pai (que os guarda e trata bem). Têm um espaço em que podem estar isolados, atentos às aulas online. Têm, caso for necessário, a possibilidade de ver e rever (assim precisem), através da TV por cabo, as aulas da nova tele-escola do novo e muito útil programa #estudoemcasa. Têm professores, na sua larga maioria, excelentes que deram o seu melhor para que em 15 dias, repito 15 dias, pudessemos mudar a escola como ela não tinha sido mudada desde há muitos anos. Têm pai e mãe com capacidade e tempo para lhes dedicar atenção, com a compreensão das entidades onde trabalham. Têm, para orgulho sincero do pai e mãe, uma autonomia que me espanta constantemente. Têm livros.

Estas, meus caros amigos, são as condições ideais (não poderei dizer as mínimas, mas apetecia-me) que permitem, aqui em casa, juntar teletrabalho e tele-escola! Temos conseguido repartir a atenção entre tudo e ainda tivemos tempo para algumas pinturas nos muros do jardim (sim que ainda temos um espaço ao ar livre para arejar as ideias).

A questão é que estas condições só existem para alguns de nós, os mais afortunados, os que têm conseguido para si mesmos com maior ou menor esforço, as condições de vida e trabalho que permitem encarar tempos como este com relativa calma. Para muitas famílias este momento não é fácil. É, talvez, um dos maiores desafios que terão que enfrentar.

Começo pelas coisas mais fúteis, as materiais. Nem todos os alunos, agora em casa, têm sequer um computador para dividir com os pais, nem todos os pais têm as competências digitais necessárias para ajudar os filhos, uma impressora é algo que não existe na maior parte das casas, o acesso à net, com as condições mínimas, não é ainda universal (aliás este é um problema estrutural para a igualdade e acesso à informação que temos por resolver), a secretária e o espaço disponível também não são, estou certo, uma realidade em muitos lares por todo o país e, por fim, em quantas casas haverá livros?

No entanto, as que mais importam, são as mais complicadas de resolver. Quantos pais têm sequer a possibilidade de ter tempo para acompanhar os filhos? Quantos não estão preocupados com os seus empregos? Quantos têm agora que sair à procura de novos empregos? Quantos têm filhos que começaram este ano as aulas e não têm ainda uma autonomia mínima? E os que têm filhos com necessidades especiais de aprendizagem? E os pais e avós que não têm, apesar de todo o esforço, a capacidade de ajudar os filhos com determinadas matérias? E os que não têm professores à altura das circunstâncias excepcionais em que vivemos? E os que estudam em escolas que não têm disponíveis todas as ferramentas digitais necessárias nestes dias? Ou que não conseguiram, apesar do esforço, preparar esta mudança em tão curto espaço de tempo?

A mudança ou transformação digital de que tanto agora se fala é uma revolução bem mais ampla do que dar computadores e ligações à internet em larga escala. Implica bem mais do que estas condições materiais, essenciais como instrumentos, é certo, que todos mencionam, mas sim uma reflexão profunda sobre as condições básicas de vida e sobre o modelo de sociedade (e de trabalho, de escola, de cultura, etc.) que queremos para o nosso futuro. É uma questão ideológica que deve encontrar um debate político profundo, à escala europeia e universal, sem donos antecipados da verdade e debates infrutíferos entre a esquerda e direita democrática que só fazem crescer o populismo das suas franjas anti-democráticas.

Captura de ecrã do site Estudo em Casa
#estudoemcasa

Enquanto ainda estamos assoberbados pela realidade destes dias e não discutimos ainda esta mudança que por aí vem, gostaria de destacar um excelente exemplo do que de bom se fez neste muito curto período. Falo do #estudoemcasa. Um programa* que reativou a antiga Tele-escola (que ainda vi) para de forma democrática, em sinal aberto na RTP Memória, fazer chegar conteúdos e aulas a todos os que não têm as condições necessárias para acompanhar a escola pós COVID-19. Um enorme projecto que gostaria de agradecer a todos os que foram responsáveis por o erguer em tão curto espaço de tempo!

*Sim, aquilo pode ter erros, pode ter conteúdos a melhorar, mas foram 15 dias, senhores! Quinze!

Museus e crianças (são secas ou não)

Museus e crianças (são secas ou não)

Ando preguiçoso para escrever. Aliás, não é bem preguiça, são um conjunto de tarefas que me ocupam largo tempo e afectam a capacidade de pensar em museus para além do horário de trabalho. No entanto, hoje ao ler este artigo, partilhado pelo Luís Raposo no Facebook há uns tempos atrás, lembrei-me que queria escrever sobre a última visita que fiz com as crianças a dois museus da capital do Reino. Museus e crianças, uma seca valente ou uma oportunidade!?

O pretexto para visitar Lisboa, nas férias com os pais, foi a promessa de uma ida ao estádio para ver o Glorioso. Dessa “visita” poderei falar um pouco numa outra oportunidade, mas devo dizer que a concorrência é muito forte se pensarmos que isto é uma luta entre “outros entretenimentos” (leia-se bola ou parques aquáticos, por exemplo) e museus. A ida ao museu ficou para a manhã seguinte à bola e escolhemos, por sugestão minha, que queria há muito lá ir, o MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia. Se não agradasse, teríamos sempre um passeio à beira Tejo com a luz fabulosa de um dia de verão.

Entradas e atendimento

Não vejam este texto como uma descrição da visita ao museu. O foco será a experiência com os meus pequenos, mas não posso deixar de expressar o meu contentamento por dois motivos:

  1. os membros do ICOM são isentos de pagamento no MAAT (o que nem sempre acontece em museus privados);
  2. os pequenos não pagam até aos 12 anos!

Além disso não fui corrido com um “ICOM? O que é isso?” como me aconteceu no início do ano numa outra visita a um outro museu português. Além dos descontos que tivemos, é importante salientar também a simpatia da menina que estava na recepção e a eficiência com que nos recebeu e respondeu às nossas questões sobre o museu e a visita integrada aos dois edifícios (a Central Tejo pode também ser visitada e nós optámos por o fazer).

O MAAT

Uma primeira nota. A famosa onda sobre o Tejo é bonita! Eu e a família gostamos dela, do “rooftop” e da ligação ao rio. A entrada no museu foi divertida. Demos de caras, na galeria oval, com a exposição de Tomás Saraceno e confesso, sem qualquer participação nossa, deixamos as crianças disfrutar o jogo de sombras e luz, as dimensões das obras, a sua disposição, as cores, as suas sombras. Passamos a sala só presos nas brincadeiras e na curiosidade que manifestaram. Certamente seria bom ter alguém, que não eu, a tentar explicar-lhes a exposição, mas para quê? Pergunto eu! Será necessário ou imperativo que lhes expliquemos. Não terão tempo para outras leituras? Não é o contacto com a arte essencial, mesmo sem compreensão imediata?

Exposição MAAT

Exposição MAAT

Após a brincadeira seguimos para a exposição seguinte: Eco-visionários. Aqui a loiça foi outra. Muitos destes conceitos sobre ecologia e a noção do nosso impacto no mundo são ideias que abordamos em casa e na escola. A exposição é muito interessante do ponto de vista criativo e da forma como é desenhada, com um ritmo cativante e que fez com que crianças de 10 e 7 anos a percorressem com quase o mesmo interesse que o pai e a mãe. Uma única nota para a dificuldade que tem uma criança de 7 anos a ler legendas dos vídeos que estavam a passar!

Por fim, chegamos à Pan African Unity Mural de Ângela Ferreira, presente no Project Room e que lhes estimulou os sentidos pela cor. Julgo que foi onde demoramos menos tempo, mas nesta altura já eles (e a mãe) se queixavam do frio nas instalações do museu. Eu estava confortável, mas na realidade estava fresco o ambiente e fez-me lembrar a discussão entre o confronto das obras e o nosso que algumas vezes temos com colegas da conservação.

Acabada a visita ao novo MAAT, seguimos para a “velha” Central Tejo. Já lá não ia há muitos anos e para mim foi um regresso feliz, devo dizer.

A Central Tejo

Interior Central Tejo

Interior Central Tejo

É um dos museus de Lisboa que sempre gostei. Não o disse à família antes da visita para não influenciar ninguém. A oportunidade do bilhete único para os dois museus da EDP deu o mote e lá fomos. A visita faz-se entrando para a enorme sala das caldeiras que estava naqueles dias com uma instalação (com luzes e sons) que não foi muito do agrado do meu filho mais velho. O barulho era perturbador para ele. Eu confesso que gostei, mas tivemos que fazer um esforço para tornar a situação confortável para os meus filhos.

A Central Tejo não precisa de muito para nos cativar. A cada momento imaginamos o que fariam as pessoas que lá trabalhavam, as dificuldades que passavam, os conhecimentos que necessitavam de ter, a capacidade física (em alguns casos), a resistência e, por outro lado, as doenças que uma instalação daquelas provocou, certamente, em muitos dos seus trabalhadores. No entanto, seria bom ter mais alguma informação para ler, ver, consultar de alguma forma sobre o edifício, as máquinas, as salas, etc. junto a cada sala/máquina/objecto. Sei que o temos, em animações multimédia, mas numa parte específica da Central Tejo e, não queria pedir muito, mas se pudesse ter a mesma informação numa aplicação, seria excelente e poderia ter um maior grau de interactividade do que um ecrã com um vídeo animado a passar em loop. Fica a sugestão.

A varanda sobre o Tejo

Para finalizar a visita subimos à nova varanda sobre o Tejo. A cobertura do MAAT é, sinceramente, um local fabuloso para quem gosta da Luz de Lisboa. É admirável como aquela zona de Lisboa foi transformada e como é usufruida por turistas e lisboetas (os que ainda podem lá viver). Nós lá tiramos a selfie familiar, a foto da ponte e Cristo Rei e seguimos para o almoço satisfeitos.

E então, são seca ou não?

Museus e CriançasOs meus filhos gostaram. Tenho a noção que, enquanto pais, fazemos o que podemos para introduzir nos seus hábitos algumas actividades culturais como visitas a museus, monumentos, etc., idas a concertos, ao teatro, entre outros. Sabemos também que podiamos, se calhar devíamos, fazer mais, mas há também um espaço que deve ser, desde cedo, deles, vindo da sua cabeça, uma decisão própria, um pedido expresso para uma dessas actividades! E esse pedido já o conseguimos de ambos.

Sei bem que não há fórmulas mágicas. Uma resposta específica não serve para resolver todos os problemas desta natureza. No entanto, julgo que o esforço de aproximação entre crianças e museus/teatros/bibliotecas/concertos/”you name it” deve partir, na maioria, da relação familiar. O museu pode e deve fazer a sua parte. Tornar-se atractivo e pensar nos diversos públicos na sua programação, mas também não o podemos julgar por todos os males e resistências que tem no público infanto-juvenil.

Uma outra análise que também seria interessante fazer, prende-se com a forma como os museus são apresentados à maioria das crianças nas visitas escolares. Eu tenho uma breve, muito pouco fundada opinião sobre o assunto, que decorre da experiência de há alguns anos atrás no Museu de Aveiro e da experiência que vou tendo como pai que autoriza os pequenos nas visitas escolares, mas gostava de ler/ouvir alguém mais conhecedor do que eu! Alguém para um texto no speaker’s corner?

Por fim, importa dizer que das visitas que temos feito com eles, não me parece que os museus sejam uma seca para os meus filhos. Em alguns deles temos diversão, noutros reflexão, noutros ainda fascinação, mas na grande maioria deles aprendemos! Nem que seja uma pequena curiosidade revelada pelo mais insignificante dos objectos. E é isso que na realidade importa.

 

Almada, museu e a criançada

Almada, museu e a criançada

No fim de semana passado tive um inesperado, mas muito bom, pedido da minha filha mais nova. Queria ir ao museu, a um museu! Sem que tivesse saído da nossa cabeça qualquer sugestão! Excelente, não é? Ora como um pedido destes não se recusa, toca de escolher o museu para pegar na criançada e passar um bom tempo de qualidade com eles!

A escolha recaiu no Museu Nacional Soares dos Reis. Já todos lá fomos (e temos muitos por perto que eles não conhecem), mas estava de olho na exposição “José de Almada Negreiros: desenho em movimento” e, além disso, estes hábitos de repetição de museus são bons para a criançada. Ficam mais próximos com toda a certeza! Vou contar-vos a experiência em três actos: antes, durante e depois!

O antes

 

A ida ao MNSR foi decidida com uma consulta na web (onde vi a informação sobre a exposição), mas se não fosse o Facebook do MNSR e a informação da Gulbenkian, não tinha encontrado nada no site do Museu (onde aliás fui direccionado para o FB do mesmo). Em todo o caso, várias notícias falavam sobre a exposição na breve pesquisa que fiz. Apenas deixo esta nota, porque vejo que o site precisa de acompanhar o enorme esforço de comunicação que o museu faz.

Decidido o museu, caminho percorrido de carro, ultrapassadas as dificuldades de estacionamento naquela zona da cidade (mesmo ao domingo é um castigo) com o recurso a um parque pago, somos confrontados com um problema crónico para o MNSR, a “praça” em frente ao museu é tudo menos amigável para quem ali chega! Se bem se recordam, a intervenção feita ali, com a saída do túnel de Ceuta, causou polémica na altura e foi mesmo embargada pela Ministra da Cultura, no entanto, e como bem recordava a Maria João Vasconcelos, já em 2013, o túnel é um perigo para os visitantes e para a colecção do museu. Em tempos de saída da crise seria bom pensar em minimizar aquele problema, pelo menos!

O durante

 

Entrados no museu (a criançada não pagou) e café tomado na cafetaria, seguimos mais ou menos apressados pela exposição permanente (o acesso às temporárias é sempre feito por aí), parando em algumas obras que despertaram o interesse aos mais novos, até que chegamos à galeria de exposições temporárias.

Visita ao MNSR

Eu desci as escadas, mas eles seguiram, como seria de esperar, pela rampa de acesso em correria desenfreada (nada como uma rampa para lhes despertar a vontade). Vai daí, pai em alerta e o pessoal do museu, alertado pelo barulho da correria, a ver discretamente o que vinha por ali. Um ponto a favor do MNSR nesta situação. Atentos, mas sem qualquer chamada de atenção à criançada, porque perceberam a atenção dos pais e o local onde estavam a brincar (a rampa não tinha qualquer obra exposta).

Mais do que a minha opinião sobre a exposição (bastante positiva, devo dizer), queria aqui deixar-vos a deles. Interessados nos desenhos do Almada, atentos a diferentes pormenores das obras (a museografia permitia que as apreciassem, embora com alguma dificuldade para as obras em vitrines horizontais), interessados na técnica de desenho (principalmente o mais velho), nas formas geométricas, nas histórias contadas pelo Almada, entre outros aspectos, acabaram a visita a dizer que tinham gostado muito da ida ao museu. Estiveram com a mãe sentados durante um bom tempo a ouvir a gravação da Gulbenkian de uma obra escrita por um artista que não me recordo agora, ilustrada por Almada na sua passagem por Madrid (se não estou enganado) e cujas ilustrações estavam a ser projectadas em frente! Divertidos com a bruxa e o gato.

Saídos da exposição do Almada, tivemos ainda tempo para percorrer as restantes salas do MNSR vagarosamente, procurando algumas histórias na excelente colecção do museu, inventando outras, esperando que a curiosidade seja sempre uma das suas qualidades mais preciosas e apreciadas. A mãe documentou dois olhares deles que ilustram isso e deixo-os aqui para memória futura.

 

À saída e em resposta à questão: Então, gostaram? Tivemos um “Sim… gostamos muito!” Sincero que a criançada não mente!

O depois

 

Não fosse o pedido da princesa lá de casa, teria passado umas boas horas de brincadeira caseira com eles, mas entre isso e umas boas horas de brincadeira e aprendizagem no museu (ou outro sítio interessante), tenho cada vez mais certeza, teremos que escolher sempre a segunda. Mesmo que o conforto da nossa casa, o chamamento do sofá, nos tente de forma diabólica a passar a tarde de domingo chuvosa em casa, temos que nos lembrar sempre que sair, conhecer outros locais, ver obras de arte, questionar, suscitar a curiosidade, etc.

Este passeio valeu aos pais um obrigado após a visita, mas, em boa verdade, quem lhes devia agradecer era eu.

Da “mercantilização da Cultura” (ou dos jantares no Panteão)

Da “mercantilização da Cultura” (ou dos jantares no Panteão)

A velocidade das reacções, nos dias que vivemos, é marcada quase exclusivamente pela necessidade de afirmação da voz própria num mundo de milhões de vozes que a net propicia. É desavisada para alguns, mas ainda assim insistem continuamente no erro mostrando indignação com tudo e mais alguma coisa. O jantar no Panteão, ou melhor, os jantares no Panteão são mais um caso que demonstra a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre os temas envolvidos.

Em primeiro lugar, e para que fique bem claro, parece-me completamente desajustado que se possam fazer jantares de qualquer espécie no Panteão (mesmo que a sala específica não tenha restos mortais). É um local de homenagem aos melhores da Nação e deve ser respeitado enquanto tal. Pode até parecer obtusa esta minha opinião, mas a simbologia de locais como este é importante para a nossa cultura e identidade e julgo que isso deveria merecer uma análise mais cuidada sobre a autorização de eventos em locais como aquele.

Uma outra situação que me enerva profundamente é ler, na imensidão de comentários e publicações e posts e twitter, a indignação de uma quantidade considerável de pessoas, a maior parte delas que certamente visita o Panteão diariamente, aliás da mesma forma que vai frequentemente a museus e monumentos, batendo no peito e clamando contra a situação e que raramente vejo a falar sobre os fracos recursos financeiros que as instituições na área da cultura têm disponíveis e que as obrigam a “vender” espaços para a realização de eventos de toda a espécie. Se calhar era bom pensar um pouco mais sobre o assunto antes destes momentos de indignação.

By Carlos Luis M C da Cruz (Own work) [Public domain], via Wikimedia Commons

Aliás, é sobre este último ponto que gostaria de reflectir um pouco. Eu não sou contra, por princípio, que se aluguem espaços em monumentos, palácios, museus e afins. Reconheço que são locais procurados para tal exactamente pela simbologia e pela beleza que encerram e, como tal, ajustam-se ao que o mercado procura em termos de prestígio de determinado evento. No entanto, o rendimento que este tipo de aluguer representa deveria ser, em sentido restrito, uma fonte de receita adicional para que os museus, monumentos, palácios e afins possam ter os meios para concretizar projectos específicos de investigação, educação, acessibilidade, etc. e não, tal como tem acontecido, como suporte ao exíguo orçamento que têm para o seu funcionamento regular, ou seja, para manter as portas abertas. Não me parece que isto seja propriamente “mercantilização da cultura” como também vejo agora apregoado, mas enfim!

Quero com isto dizer que a discussão a ter, que é bem maior, vai de encontro ao mítico 1% de orçamento para a Cultura (que ainda assim me parece curto). Se assumimos a indignidade de ter eventos como este no Panteão, temos que perceber que o problema não está num despacho que não autoriza directamente estes eventos, mas sim que a autorização deles depende (em parte) do valor que eles representam para estas instituições e de uma análise casuística que é da responsabilidade de quem tutela (no caso específico da DGPC e do Ministério da Cultura que não ficam muito bem na fotografia neste caso).

Por último, e para todos os que só se preocuparam com este assunto por razões de arremesso político (de todos os lados), por parecer estar na moda criticar a Web Summit e os eventos paralelos, por não ter mais nada que fazer e razões semelhantes, fica aqui o meu singelo conselho: arrumem uma vidinha!

Diz que disse e desdisse

Diz que disse e desdisse

Ora deixa cá ver. Desde que trabalho em/para Museus, já lá vão uns 20 anos, já tivemos IPPC, IPM, IMC e recentemente DGPC. Nas andanças do património cultural é necessário acrescentar o IPPAR, o IGESPAR, o IPA e julgo que um outro para o património subaquático, mas desculpem-me por não recordar o nome. Além destes institutos ainda tivemos, e o utilizar o passado não é engano, a Rede Portuguesa de Museus (RPM) como um organismo do Estado que certificava os museus. No mesmo tempo, para o caso Inglês (e poderei estar enganado, mas por favor corrijam-me) tivemos o Museum, Libraries and Archives Council e temos agora o Arts Council (desde há uns três anos, segundo me recordo).

Não querendo fazer qualquer tipo de comparação com a realidade inglesa, que sei ser bem distante da nossa, a minha questão é a seguinte: quando é que nos decidimos a parar com ideias de reformas administrativas e pensamos seriamente numa política e estratégia para o sector público dos museus portugueses?

Ministro da Cultura

A questão é antiga e já foi colocada inúmeras vezes por diversos colegas. Recordo um texto mais recente do Luís Raposo sobre esta questão, mas podem consultar outros que ele escreveu aqui, ou então ler o da Isabel Roque aqui. No entanto, continuamos a ter anúncios como o que fez Luís Filipe Castro Mendes no Parlamento no passado dia 7 em que se anuncia um novo Instituto de Museus e Monumentos (IMM), desmentido, ou pelo menos adiado, pelo próprio nos dias seguintes, conforme noticia Lucinda Canelas no Público de dia 9, que demonstram, na minha opinião, uma navegação à vista que tem que ser criticada pelos profissionais de museus de forma aberta e franca.

A situação nos museus é péssima. Sentimos, desde há alguns anos, a ausência de recursos humanos e financeiros que possam colocar os museus nos mínimos aceitáveis para um país que se diz e quer evoluído. Mantemos um projecto importante como a RPM num estado vegetativo que não se compreende. Andamos a promover o nosso património e os museus como elementos chave para a promoção turística do país, mas na realidade não temos tratado uns e outros como activos importantes para aquele sector (e este ano, apesar do aumento orçamental, continuamos a arranjar formas de sonegar a realidade). Além disso somos brindados com notícias sobre o espartilhamento da coleção do Museu da Música, que será dividida por dois espaços, um em Lisboa e outro em Mafra, com o fraco argumento de uma suposta descentralização/desconcentração dos espaços culturais (como se entre Lisboa e Mafra se resolvesse a questão da ausência de museus nacionais) e da despesa da deslocação de toda a coleção para Mafra.

Este governo e os partidos que o apoiam tinham como obrigação (ver programa do Governo) tratar bem melhor o sector, mas sinceramente quem é que ainda acredita num programa de governo, não é? É um diz que disse e desdisse em continuidade.