A colecção (meia) desaparecida

A colecção (meia) desaparecida

Trabalho com questões de inventário e gestão de colecções há mais de 20 anos. Sim, eu sei, estou velho! Mas esta velhice, dá-me um pouco de experiência e conhecimento de terreno para vos dizer que a colecção (meia) desaparecida, ou melhor, as 170 obras da colecção SEC cuja localização exacta é desconhecida, não é de todo caso único no país (ou mesmo no estrangeiro, esse local onde tudo é uma delícia de tão avançado que vai)!

Mas vamos por partes. A Colecção SEC, ou melhor, a Colecção de Arte Contemporânea do Ministério da Cultura (a sigla SEC vem dos tempos da Secretaria de Estado da Cultura) é o resultado de várias aquisições do Estado, com o objectivo de criar uma colecção de arte contemporânea que pudesse mexer com um mercado de arte parado e sem grande apoio para os artistas no pós revolução. Quase tudo que me recordo de ler sobre a colecção SEC veio a público quando da polémica da passagem da colecção para a tutela da DGPC e da reversão dessa decisão, ambas feitas pelo Secretário de Estado da Cultura do anterior governo, e que ainda se pode consultar no Público de 25 de Julho de 2015.

As lutas de 2015 pela tutela da Colecção SEC

Em 2015, ao contrário de agora, não se sabia muito bem quantas obras estavam “perdidas”. Agora são 170, mas 170 de quantas? Das 1271 que em 2007 haviam sido registadas quando Isabel Pires de Lima se debruçou sobre o assunto, ou as 1115 que Carlos Moura-Carvalho (director-geral das artes empossado em 2015) indicava à Lusa ser o registo existente e datado de 1992? (ainda segundo o artigo do Público de 25-06-2015). Não me levem a mal, mas não deveríamos todos saber exactamente qual o número total das obras desta colecção?

Deixando de lado estas coisas do número total de obras e das 170, sem localização exacta, lembro-me ainda de uma pergunta que me parece óbvia e que só a Inês Fialho Brandão coloca num brilhante post no Facebook: então e o arquivo de documentação desta colecção não deveria acompanhar a mesma quando da passagem para uma nova tutela? Quando, em 2015, a colecção passou para a DGPC e voltou para a DGA isso aconteceu? E o quando a DGA, antes disso, assumiu a responsabilidade da colecção, houve essa passagem do arquivo e documentação de gestão da colecção para essa nova tutela? Não é só a mim que me parece óbvio que essa documentação deve sempre acompanhar a colecção, pois não? Ou se calhar é…

Estamos naquele momento em que a DGPC, claramente a entidade que deve ter a responsabilidade desta colecção em meu entender, está a recuperar a informação perdida e a actualizar os registos sobre a colecção e sobre o seu paradeiro. A Inês, como poderão ver a seguir, mostra como o trabalho deve ser feito, com a transparência necessária, com as consequências devidas se provado algum ílicito e com a ideia maravilhosa de criar um “procura a colecção SEC” online para que o cidadão dê uma ajudinha… vejam lá aqui o post:

Eu, subscrevendo o post da Inês, acrescento ainda uma outra medida que o Ministério da Cultura deve concretizar (na minha opinião tem a obrigação de concretizar). A criação de um website com toda a informação sobre a colecção SEC, ou seja, um site com a informação sobre as obras incorporadas na colecção, a sua história, autor, contexto, proveniência, estado e localização (pelo menos a instituição responsável) actualizadas que permita a todos, daqui em diante, saber exactamente as informações relevantes sobre o nosso património.

Além desta informação sobre a colecção existente, seria este site o local ideial para nos informar qual o futuro desta colecção e como (ou se) o Estado se quer posicionar no complexo mercado da criação artística, criando uma política para esta colecção que definisse, claramente, a política de desenvolvimento (incorporações e desincorporações, portanto), de documentação, de conservação e salvaguarda e de acesso à mesma. Um sonho não era?

Reparem que não se trata aqui de criar uma nova entidade de gestão desta colecção, nada disso. Apenas criar, dentro da DGPC que tem gente bem capaz para esta tarefa, uma pequena estrutura que pudesse assegurar a gestão da colecção a médio e longo prazo. Se assim não for, daqui a uns anos, após vários pedidos do Sr. Ministro tal e do Sr. Embaixador tal, teremos, novamente, a necessidade de “localizar” com exactidão as benditas obras.

E já agora, partilhar com outros ministérios, embaixadas, câmaras, empresas públicas, etc. que usufruam desta colecção (ou que tutelem ou detenham a responsabilidade por quaisquer colecções públicas) os manuais de boas práticas já criados e, quase sempre, esquecidos (tão esquecido que reparo agora que nunca foi actualizado), outros instrumentos e algumas regras que estamos (o Estado também), por via da lei, obrigados a cumprir. Se precisarem de outros bons exemplos, actualizados o ano passado têm aqui o SPECTRUM e outros recursos da Collections Trust por onde começar a explorar.

Simples ou temos que chamar um Héctor Feliciano?

Notre Dame

Notre Dame

Não há como descrever a sensação de perda quando vemos, em directo, através da redes sociais e da televisão, o incêndio na Catedral de Notre Dame de Paris.

Incêndio 2019 – Notre Dame | Foto: Geoffroy Van Der Hasselt/AFP

Eu sei, agora todos nós sabemos, que a mais famosa catedral parisiense, não é exactamente uma catedral do século XII (tal qual a construíram então, pelo menos), mas sim o resultado de séculos de história, marcados fortemente pela intervenção de Viollet-le-Duc e Lassus que agora foi vemos reduzida (parcialmente) a cinzas neste grande incêndio. No entanto, todos a víamos como o local do nascimento do Gótico e a catedral de Quasimodo, celebrizada por Vitor Hugo, que era ponto obrigatório de passagem e paragem nas visitas a Paris.

Recordo-me, na primeira vez em Paris, em 2007, quando cheguei à fachada da catedral de pensar nas aulas de história de arte e da História da Arte do Janson e juntar cor à fotografia a preto e branco que ilustrava, de longe, o conjunto monumental. Ali estava ela, enorme, a alcançar os céus, como deve ser numa catedral, local de culto, celebração e de fé. Espanta-me sempre a beleza que a fé consegue produzir.

Naquela altura decorria uma celebração na catedral, não tenho a certeza se uma missa ou se outra qualquer cerimónia específica e nós ainda tinhamos muito que calcorrear em Paris, por isso entrei apenas por alguns instantes, tirei duas ou três fotografias e saí com o objectivo de ir à Shakespeare and Company. Foi a primeira e última vez que lá estive e que vi a Notre Dame. Estava certo que a reencontraria mais tarde, com mais tempo, para uma conversa mais demorada.

Não imaginava eu, e espero continuar a não imaginar com outros casos, que a Notre Dame sucumbiria num desastre como o de ontem. No entanto, já quando se deu o incêndio no Museu Nacional, sobre o qual o Gabriel escreveu aqui, é sempre nestes momentos que me assaltam as dúvidas sobre a nossa real capacidade de proteger e salvaguardar o património cultural que temos para passar à próxima geração. É sempre nestas alturas que pergunto a mim mesmo “então e se isto acontecesse na Torre dos Clérigos, na Batalha, no Convento de Cristo, em Alcobaça ou nos Jerónimos?” Será que conseguíamos travar uma tragédia destas? Ou pelo menos minimizar os prejuízos e danos causados? Temos nós planos de segurança para todos os nossos monumentos? Há meios que assegurem que todas as medidas de segurança estão activas no caso de se dar uma tragédia semelhante? E além disso, estão estes monumentos bem documentados para que, em caso de tragédia, a perda não ser total?

E o que fazer a seguir a uma perda desta magnitude? Reconstruir algo muito semelhante? Reproduzir o modelo anterior? Que métodos construtivos usar? Que materiais? Deixar a reconstrução de lado e pensar numa nova construção? Numa nova Notre Dame? Com que modelos? Quem a pensaria? Será certamente uma discussão acalorada nos próximos tempos em França, como prevê o João Pinharanda, mas não terá, estou certo também uma decisão de consenso alargado.

Reunião de Inverno da direcção do CIDOC – Porto

Reunião de Inverno da direcção do CIDOC – Porto

Nos próximos dias 7,8 e 9 de Fevereiro a direcção do CIDOC realizará a sua reunião de inverno na Faculdade de Letras da Universidade do Porto que muito amavelmente respondeu positivamente ao pedido que fiz para nos receber, tal como seria de esperar, numa instituição que este ano comemora 25 anos do seu curso de museologia (e 100 anos de existência já agora), sendo responsável pela formação de muitos profissionais de museus e, especificamente, na área de documentação e gestão de colecções.

Esta reunião de trabalho anual tem como objectivo a realização de um conjunto de tarefas administrativas, organizacionais e de gestão do comité que se torna mais eficiente porque conta com a presença de grande parte dos membros da direcção e dos responsáveis pelos grupos de trabalho activos do CIDOC.

O CIDOC, como penso saberão, é o Comité Internacional para a Documentação do ICOM (herda a sigla do francês) e tem como objectivo definir e promover um conjunto de recomendações, normas e boas práticas no âmbito da documentação, gestão e divulgação das colecções museológicas. É um dos comités internacionais mais antigos do ICOM, tendo sido fundado em 1950, e conta com uma comunidade de membros, espalhados por todos os continentes, que reúnem em si um conjunto de competências técnicas nas diferentes áreas de especialização da gestão e documentação das colecções.

Nesta reunião do Porto, a par das tarefas normais de organização do trabalho deste comité, como a publicação das comunicações da última conferência, a organização da próxima, do trabalho rotineiro de apresentação e discussão dos relatórios dos grupos de trabalho, entre outras tarefas, teremos uma parte substancial da reunião dedicada à visão estratégica do CIDOC para os próximos 10 anos.

O CIDOC é o comité que escolhi já há muitos anos para trabalhar dentro do ICOM, como todos os comités internacionais do ICOM, tem pontos fortes e pontos fracos, que podem e devem ser debatidos e melhorados, tendo em vista uma resposta mais capaz e eficiente às questões que os seus membros e a comunidade museológica enfrentam no dia-a-dia do trabalho árdulo e inesgotável que é a documentação em museus. Por isso, é como grande satisfação que conseguimos ter em Portugal a direcção do CIDOC a discutir a visão estratégica de um comité internacional que será depois apresentada à votação na próxima assembleia magna do comité na conferência trienal do ICOM em Kyoto. Aliás, mais do que a discutir em Portugal, é para mim uma grande honra e responsabilidade participar nesta discussão e contribuir, com base na experiência de trabalho com um conjunto significativo de museus portugueses, para melhorar o trabalho e resposta do CIDOC às crescentes exigências técnicas, tecnológicas e políticas dos museus e dos seus profissionais no campo da gestão, documentação e divulgação das colecções.

Após a reunião, darei nota aqui sobre os pontos principais da discussão e as linhas mestras do que será a visão estratégica do CIDOC para a próxima década. Entretanto, estejam à vontade para sugerir pontos a discutir ou preocupações que gostassem que o CIDOC reflectisse sobre neste contexto.

Importa, por último salientar, todo o apoio que o ICOM Portugal deu, no seguimento do esforço que tem vindo a levar a cabo para a participação dos seus membros nos comités internacionais, para a concretização da realização deste evento em Portugal.

Workshop SPECTRUM e ARTIS Being Digital

Workshop SPECTRUM e ARTIS Being Digital

No seguimento do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no SPECTRUM PT estamos a preparar um conjunto de workshops e apresentações da norma SPECTRUM, em parceria com um conjunto de instituições, para faciliar a divulgação e utilização da norma no contexto português e brasileiro. Esta semana, através da Juliana Monteiro, tivemos um desses workshop no Rio de Janeiro no congresso HDRio2018, organizado pela Fundação Getúlio Vargas e, no próximo dia 14 de Maio, eu estarei em Lisboa com os colegas do ARTIS Being Digital para realizar um workshop sobre implementação do SPECTRUM onde utilizarei também o fruto do trabalho do GT-SIM, os Guias Técnicos do SPECTRUM.

Este conjunto de workshops, que iremos levar também a Coimbra e ao Porto com toda a certeza, pretende divulgar a norma SPECTRUM para a gestão de colecções, mas também o trabalho importante realizado no âmbito do GT-SIM da tradução e adaptação dos SPECTRUM Advices, Guias Técnicos para nós, que pretendem ser uma fonte de auxílio para a compreensão da norma e uma ajuda para a sua implementação nos sistemas de documentação e gestão de colecções dos museus em Portugal e Brasil (e esperamos que no futuro para outros países lusófonos).

O workshop é dividido em duas partes, uma mais teórica, sobre a história da norma e do seu desenvolvimento, abordando as questões essenciais da sua estrutura e dos requisitos de informação que impõe e, uma segunda parte, mais prática, onde iremos percorrer alguns dos procedimentos incluídos na norma com o objectivo de ajudar as instituições que a queiram implementar e dar conta da simplicidade que a norma representa para a documentação das colecções. Nesta segunda parte pretendemos também demonstrar, através de alguns exemplos, as razões pelas quais os museus devem considerar a adopção de normas como a SPECTRUM no dia-a-dia da gestão das colecções que guardam.

Toda a informação sobre as inscrições está disponível no site do ARTIS Being Digital, mas deixo abaixo o cartaz de divulgação (versão em PDF aqui) para que possam partilhar junto dos vossos contactos, se assim o entenderem.

Cartaz

Cartaz do Evento

Aproveito, por fim, para dar os meus parabéns ao ARTIS – Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), pela iniciativa de criar um espaço de debate e aprendizagem sobre História da Arte e ferramentas digitais com base nos projectos que o instituto gere e com os quais já tive, felizmente, a oportunidade de colaborar. É uma excelente iniciativa que todos os envolvidos na área devem, na minha opinião, louvar. Eu faço-o, agradecendo à Rosário Salema de Carvalho e ao Prof. Vitor Serrão por terem aceite este meu desafio e concretizado esta iniciativa com um enorme entusiasmo!

Vejo-vos em Lisboa a 14 de Maio?

PS: não percam a primeira sessão que é da responsabilidade da Maria José Almeida! É já no dia 16 deste mês!

CIDOC 2017 – apresentações online

CIDOC 2017 – apresentações online

Não falei antes do CIDOC 2017, em Tbilisi, decorrido em Setembro do ano passado, mas hoje tenho um excelente motivo para voltar à nossa conferência anual e dar-vos a conhecer um pouco da experiência deste ano na Geórgia. O motivo, aliás, o excelente motivo é a partilha das apresentações feitas nas diversas sessões (workshops e sessões convidadas) do extenso programa deste ano, subordinado ao tema “Documentation – Past, Present, Future…”

Uma breve nota sobre o CIDOC 2017

A conferência deste ano permitiu-me ir, pela primeira vez (uma miséria bem sei), a um país que ficava atrás da Cortina de Ferro e vivenciou, de uma outra perspectiva, aquilo que para um jovem adolescente ocidental como eu representava uma espécie de Tratado de Tordesilhas nuclear com ameaças entre duas grandes superpotências (na versão de Hollywood chamadas de Rocky Balboa e Ivan Drago) que nunca se iriam entender. Um mundo distante, felizmente, porque me permitiu conhecer brevemente uma cidade vibrante, com boa comida e bebida, e excelentes pessoas.

Este ano, o tema da conferência procurou explorar o que foi, o que é e para onde caminha a área da documentação em museus. O tema, proposto pelo comité de organização local, à partida parece ser simplista, mas é muito mais desafiador do que pensei. Rever o nosso passado enquanto comunidade, os nossos sucessos e insucessos (principalmente estes), o caminho traçado, os obstáculos, etc. é, em boa medida, algo que todas as instituições ou comunidades deveriam fazer de tempos a tempos. Permite recentrar a energia, alinhar o foco e considerar o presente ao abrigo do que positivo e negativo fizemos. Com essa análise e com os recursos e potencialidades que temos agora, no presente, podemos construir e planear um futuro ainda melhor, com uma resposta mais capaz aos enormes desafios que este sector dos museus tem pela frente.

No CIDOC 2017 revi um conjunto de colegas, de mestres, de parceiros de discussões intermináveis sobre normas e procedimentos e tecnologias, mas também conheci novos colegas, de novas geografias (sim que o ICOM é muito eurocêntrico ainda), com outras perspectivas e desafios. Discutimos entre todos, em sessões sobre terminologias, procedimentos, imagem, gestão do conhecimento, passado da documentação, novos desafios e outras, aquilo que podemos dar à comunidade museológica para que os museus e seus profissionais possam contribuir para uma sociedade melhor. Tivemos o privilégio, nessas sessões de ouvir e conhecer o trabalho de colegas de diversas áreas, com diferentes preocupações e pontos de vista de entre os quais gostaria de destacar, agora que as apresentações estão publicadas, os que me chamaram mais a atenção.

Os meus destaques do CIDOC 2017

Não vou ser muito extenso na análise e esta minha opinião sobre o que melhor se viu no CIDOC 2017 está condicionada às sessões em que participei e assisti (algumas são sessões paralelas), mas convido todos a percorrerem as diferentes apresentações e partilharem as que mais interessantes lhes parecem. A lista está disponível na área das conferências passadas da página do CIDOC no link 2017, Tbilisi.

No topo, até porque não é a minha área de investigação preferida, colocaria as excelentes apresentações feitas pelo Gregg Garcia e pelo Jonathan Ward sobre o programa Getty Vocabularies. Vão desde a revisão e utilização dos conteúdos dos diversos thesauri e vocabulários, passando por um programa de acessibilidade sustentado por uma política de Linked Open Data até à apresentação de exemplos de utilização e iniciativas futuras. Alguns poderão achar densos e muito técnicas as apresentações, mas para quem se interessa por terminologia são essenciais para acompanhar o trabalho de quem lidera internacionalmente esta área da documentação. Podem encontrar as apresentações na SESSION 7 – Getty Vocabularies.

A segunda escolha recai na comunicação do Hassan Ghaseminejad Raieni, do Irão. A apresentação intitula-se Experiences in museum objects documentation with regard to ethical and cultural principles in Iran e explora um tema muito sensível na documentação de museus: a objectividade e as influências do processo de documentação na(s) história(s) que contamos com os objectos. Confesso que além do tema e da forma como foi apresentado, admirei a coragem do Hassan em levar um assunto destes a uma conferência internacional, sendo ele de um país que não é famoso pela abertura à crítica.

Uma terceira escolha vai direitinha para a apresentação do Axel Ermet. Aborda uma norma ISO, uma daquelas coisas com que nós, os maluquinhos das normas, gostamos de nos entreter e que, para quem não é um dos nossos, gostamos de recomendar para utilizar como se de uma bíblia se tratasse. Vejam lá se não vos daria jeito uma norma como esta: (ISO): The vocabulary ISO 5127 as a basic vocabulary for documentation. Define um vocabulário comum para que todos vós, os incrédulos, percebam o que nós, os crentes, queremos dizer com expressões como XML, bases de dados, subsets, modelos conceptuais, etc. Um instrumento de utilização diária sobre o qual escreverei um destes dias.

Um quarto lugar para a apresentação do Reem Weeda sobre o ICONCLASS e a ligação deste, ou melhor, o enriquecimento deste com a ligação a conceitos do AT&T. A apresentação, um pouco técnica mas muito útil, está disponível aqui.

Por último não posso deixar de referir e destacar as apresentações da Natália Jorge, do Fernando Cabral, da Juliana Rodrigues Alves (pesquisem os nomes na página) sobre importantes trabalhos realizados aqui em Portugal na área da documentação do património cultural e, sem falsas modéstias, a apresentação que eu fiz, em representação de uma equipa fabulosa, sobre o contributo do Grupo de Trabalho de Sistemas de Informação em Museus da BAD nos últimos anos em Portugal.

Com este texto pretendo destacar as minhas escolhas, mas quero dizer-vos que se percorrerem as apresentações vão encontrar um conjunto de trabalhos notável e útil para quem é confrontado com os trabalhos de documentação em museus ou em outras instituições culturais. Se quiserem partilhar as vossas preferidas, ou as que lhes parecem mais interessantes, vão à página das apresentações e digam coisas nos comentários a este post.

Boas leituras!

Exposições de arte: arquivo, história e investigação – FCG

Exposições de arte: arquivo, história e investigação – FCG

Os museus têm feito, ao longo das últimas décadas, um esforço considerável no estudo, documentação e digitalização das suas colecções para poderem, de forma mais eficiente, responder às necessidades colocadas pela introdução das tecnologias nas diversas frentes de trabalho que estas instituições assumem. Pese embora seja uma tarefa gigantesca para os museus (com os recursos que têm), ela nunca poderá estar completa sem um processo de investigação e documentação das exposições que cada museu organizou ou onde esteve representado por um (ou mais) objectos do seu acervo.

Acredito que tal afirmação será consensual entre os meus caros amigos, mas em boa verdade quantos museus conhecem que têm as exposições que produziram (já nem falo nas em que participaram de alguma forma) documentadas? E acreditando que conhecem algum, quantos desses museus têm a informação sobre essas exposições publicada ou disponível numa forma estruturada que permita uma investigação científica sobre as mesmas?

Eu sei que é difícil encontrar, mas se tiverem eu sou o primeiro interessado a conhecer esse trabalho e a metodologia que seguiram para documentar as exposições e partilhar alguma da experiência que vou construíndo do acompanhamento que faço de alguns projectos semelhantes.

Serve esta introdução para vos falar sobre um projecto que tenho vindo a acompanhar através da Sistemas do Futuro e que me tem dado suscitado questões interessantes sobre este tema: o Catálogo Digital da História das Exposições de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.

A própria FCG apresenta este projecto da seguinte forma na página acima:

As exposições da Fundação Calouste Gulbenkian têm constituído uma das vertentes de maior impacto da sua atividade junto do público. De facto, elas expressam as políticas de acompanhamento da arte contemporânea e de salvaguarda do património empreendidas pela Fundação, e asseguram a divulgação da arte internacional, de diversas geografias e cronologias, no nosso país.

O projeto História das Exposições de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian – Catálogo Digital é um projeto transversal que tem como principais objetivos a eficaz projeção internacional da memória expositiva da Fundação e a participação no amplo debate internacional que decorre na área da História das Exposições, disciplina emergente da História da Arte e dos Estudos dos Museus.

Projecto de documentação de Exposições FCG

Transporte de obras no âmbito da exposição itinerante Art Portugais du Naturalisme à nos Jours (Bruxelas, 1967; Madrid e Paris, 1968 ), na sua apresentação em Bruxelas. © Arquivos Gulbenkian

O projecto é fruto de uma necessidade que a FCG sentiu de contar a sua história expositiva e, através dela, pesquisar sobre os diversos contributos daí gerados para diferentes áreas. Uma ideia excelente dado o papel relevante que a fundação teve e tem no panorama das artes nacional e internacional e que é ainda melhorada pelo estabelecimento de uma parceria científica com o Instituto de História da Arte, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa, através do seu grupo Museum Studies a qual trará ao projecto um acréscimo significativo da exploração que o tema (e subtemas associados) permitem nas áreas da museologia, design (museografia), história, história de arte, conservação, entre outras.

O meu, nosso, contributo para o projecto relaciona-se com a estrutura de dados, os procedimentos e terminologia utilizados para a documentação das exposições no actual sistema de gestão de colecções que a fundação utiliza para gerir ambas as colecções (Moderna e do Fundador). Poderá parecer uma coisa de menor importância, e certamente é, se tivermos em conta a quantidade de trabalho envolvido na pesquisa da informação sobre as exposições, mas é um trabalho que exige uma reflexão maior do que acontece na documentação das colecções, dada a inexistência de norma que permita guardar a informação da exposição (evento e processo) de forma coerente.

Este é, aliás, o nosso maior desafio neste projecto. Perceber qual a estrutura de informação e os processos associados na geração inicial da informação para permitir guardar e tornar acessível todos os dados reunidos durante o processo de documentação retrospectiva que está a ser conduzido. No caminho, espero, estamos a construir um importante contributo para a definição, ou pelo menos para a discussão, de uma norma que possa servir de suporte a outros projectos e que apresentaremos, em tempo devido, ao grupo de trabalho sobre Documentação de Exposições e Performances do CIDOC.

Recordo, em todo o caso, que estes dados darão origem a um catálogo digital e serão, estou certo disso, reutilizados e actualizados pelos diferentes serviços da fundação após a conclusão deste projecto, por isso a adaptação do sistema de informação terá também em consideração a necessidade de publicação dos resultados da pesquisa.

Foi neste quadro que a fundação me endereçou, através da equipa do projecto, o convite para participar  no Encontro Internacional Exposições de arte: arquivo, história e investigação (que contou com os notáveis contributos de Reesa Greenberg, Rémi Parcollet e Isabel Falcão), no passado dia 6, onde apresentei uma comunicação intitulada “Documentação de exposições nos museus: um elo perdido?” procurando explorar o tema através da reunião de alguns contributos e projectos que têm visto a luz do dia sobre esta matéria e de uma reflexão pessoal sobre o actual panorama nos museus sobre a exploração do tema.

Na apresentação, que dará origem a um artigo, destaquei entre outros o projecto, muito conhecido, do MOMA e também um contributo muito interessante do MACBA, no entanto, julgo que há ainda um caminho longo a percorrer na perspectiva da documentação das exposições para as tornar num recurso de gestão e investigação verdadeiramente disponível para museus e investigadores.

Nesse caminho seria muito importante ter diferentes contributos e perspectivas e por isso queria deixar aqui um desafio. Alguém desse lado colabora num projecto deste género? Conhece algum projecto semelhante que possa estar interessado numa discussão mais alargada sobre as necessidades de documentação? Se sim, agradecia imenso que me fizessem chegar essa informação para a partilhar com os colegas que estão a trabalhar no CIDOC sobre este tema.